8 Poemas de Poetas Portuguesas

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escolhidos por Leonor Figueiredo


 

As Revoluções da Matéria

 

A divisibilidade: A visibilidade a dois

A mulher divide-se em gestos particulares

o homem divide-se também.Se o átomo é

divisível só poeta o diz.

a mulher divide-se em gestos

extremos coloridos arenosos destilados

dois homens são duas divisões de uma

casa que já foi um animal de costas

para o seu pólo mágico.

A divisibilidade da luz aclara os mistérios.

A mulher tem filhos.Descobrem-se

partículas soltas um dedo mínimo

o peso menos pesado da balança

um cabelo eloquente em desagregação

Gestos estrídulos dividem a mulher

o homem divide-a ainda.

Luíza Neto Jorge
O Seu Tempo a Seu Tempo (1966)

 

Testamento

 

Vou partir de avião

E o medo das alturas misturado comigo

Faz-me tomar calmantes

E ter sonhos confusos

Se eu morrer

Quero que a minha filha não se esqueça de mim

Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada

E que lhe ofereçam fantasia

Mais que um horário certo

Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver

Dentro das coisas

Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes

Em vez de lhe ensinarem contas de somar

E a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida

Se eu morrer de avião

E ficar despegada do meu corpo

E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim

A minha filha

E mais tarde que diga à sua filha

Que eu voei lá no céu

E fui contentamento deslumbrado

Ao ver na sua casa as contas de somar erradas

E as batatas no saco esquecidas

E íntegras.

Ana Luísa Amaral
Minha Senhora de Quê (1990)

 

Lei Sálica

 

As mulheres da família sempre

tiveram um jeito quase póstumo

de existir: guardar o lume

em silêncio, comer depois de

servir os outros, morrer primeiro.

Saíam à hora de ponta do destino

para lerem os caminhos perdidos

e coleccionavam a abdicação

em caixinhas de folha, entre bilhetes

caducados ou dentes de infâncias alheias.

Esperavam a vida toda por uma vida

próxima, de alma presa a alfinetes

no vestido preferido para o enterro,

os passos medidos nas suas varandas

a dar para o fim do mundo.

Retomo-lhes às vezes os gestos

neste meu exílio inventado,

mas acaba aqui: vou encher de corpo

a sombra, mesmo que nem tempo

me reste já para a pesar.

 

Inês Dias
Um Raio Ardente e Paredes Frias (2013)

 

Manual de despedida para mulheres sensíveis

 

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.

 

Filipa Leal
Vem à Quinta-feira (2016)

 

Desobediência

 

Não me exijam

que diga
o que não digo

não queiram
que escreva
o meu avesso

não ordenem
que eu acene
o que recuso

não esperem
que me cale
e obedeça

Maria Teresa Horta
Estranhezas (2018)

 

liberdade mais cruel

 

a minha liberdade sempre foi a mais cruel
a que deriva na alvorada
adormece ao relento
à beira da estrada, a da casa ocupada
a do amor inquieto
rebenta tudo pelo caminho
a esbanjadora
a minha liberdade sempre foi a mais cruel
explode em papel A2 dobrado em 3
diminui-se, martiriza-se
oprime-se, fragiliza-se
liberdade da diva frustrada
que não conta nada
além do arrepio brando do seu tamanco
de salto alto, ingénuo canta
uma regra de régua e esquadro
de ecrã e teclado
é a liberdade da puta amedrontada
que sente tudo mas não sente nada
numa paranóia da encruzilhada
de pensamentos bloqueados na
vontade de ser recta e não incerta
ter um caminho considerado
aplaudido pelos vizinhos
compatriotas desconhecidos em terra alheia
ser pessoa, ser poeta
liberdade cruel e ausente
a mais frustrada
liberdade revoltada
que apenas nua existiria
exposta ao gatilho, à bala, à guilhotina
liberdade na balada, na insónia, no castigo
liberdade sem religião, nem cura nem terço, sem abrigo
liberdade de abraçar os demónios mais cruéis
porque o segredo da liberdade é deixá-los passar por aqui.

 

Raquel Lima
Ingenuidade Inocência Ignorância (2020)

 

O do Amor

 

Espaço sem portas, sem estradas, o do amor.
O primeiro desejo dos amantes é serem velhos amantes.
E começarem assim o amor pelo fim.

 

Regina Guimarães
Antes de mais e depois de tudo (2020)

 

A Importância do Pequeno-almoço

 

qualquer mulher sabe que

é preciso manter as tropas:

passar a ferro as fardas parir herdeiros esfregar o chão / de joelhos o sarro sai melhor

quem mais poderá explicar às crianças a ausência

do soldado do empregado fabril do político fervoroso que põe o pão na mesa [1]

se o sexo é político, imagina as lides da casa

lavar à mão as manchas de vinho / sémen / sangue

fazer a cama quando vazia

reunir no prato os nutrientes necessários

para a capitalização do pai adúltero

 

depois de fazer o pequeno-almoço

as mulheres-âncora atracadas à enseada

assistem em silêncio à partida das armadas de dom joão, o primeiro / o anterior / o pai deste

para que agora – isto não é novo –

pelo menos quinze mil machos sigam audazes.

a ideia é a de sempre:

queimar florestas / rapinar minas / estuprar indígenas / baptizar terras que já tinham nome

reproduzir hospícios e quartos forrados a papel de parede amarelo

enterrar a semente bem funda no colo do útero

 

e aos poucos gerar novos e delicados manequins de mãos calejadas

deixar que a geração anterior ensine a seguinte a fazer o café

(atenção. não se faz café de qualquer maneira, é preciso formar uma pirâmide de pó, não deixar que a

água toque no funil, não ligar de imediato na temperatura máxima, dar-lhe o tempo certo de ebulição, mas continuando,)

vertê-lo quente na chávena de manhã

sementar esse pão vaporoso na mesa milagrosamente limpa

colher fruta fresca valorizar a louça lavada

não regressar nunca

à sodoma abandonada

porque nessa

o café já esfriou

quem faz o pequeno-almoço
sabe de tudo isto
retorna a casa só e as mãos
sempre invisíveis
costuram dores como contas de rosário
nos dentes e figos abertos no lugar dos lábios

só quem come o pequeno-almoço
tem a boca demasiado cheia
para perceber o fundamental:
é que sem elas
o mundo não chegaria sequer
ao meio dia.

 

Francisca Camelo
A Importância do Pequeno-Almoço (2021)