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Artigo de Hugo Mota.


Em 2013 a AfD é criada, definindo-se como um partido liberal-conservador contra o Euro. Nas eleições gerais desse ano não chega aos 5% necessários para eleger deputados mas uns alarmantes 4,7% dos votos, atingindo o melhor resultado de sempre de um novo partido desde 1953. Em pouco tempo torna-se claro que o partido fundado por Bernd Lucke, Alexander Gauland, Konrad Adam e outros antigos militantes da CDU e FDP, não é apenas o que pretendia ser. Descontentes com a crescente radicalização à direita, alguns membros, incluído o seu primeiro líder Lucke, saem em 2015 formando um novo partido.

Frauke Petry é eleita em 2015 para líder guinando o partido cada vez mais para a direita. Vítima do seu próprio veneno e não conseguido controlar os sectores mais radicais, Petry desvincula-se em 2017 da AfD para também formar um novo partido. Diga-se que nenhum dos antigos líderes dissidentes tiveram qualquer sucesso eleitoral com os seus partidos, ao contrário da AfD que sob o comando de Gauland e Jörg Meuthen foi vendo o seu sucesso eleitoral crescer.

Depois de sucessos a nível regional, nas eleições gerais de 2017 a AfD torna-se no maior grupo parlamentar na oposição, estando também presente em todos os parlamentos regionais. Parte da sua afirmação no panorama político deveu-se à sua capacidade de captar não votantes descontentes com o status-quo, sectores da CDU e FDP e em menor escala de sectores à esquerda. A mestria de Gauland e Adam como manipuladores de informação, dada a sua larga experiência como jornalistas e editores-chefe de periódicos com projeção nacional, contribuíram em muito mais do que se possa pensar para a mediatização do partido, conseguindo captar o voto de todo o espectro político e das classes conservadoras mais baixas, as mesmas que se fosse aplicado o programa económico da AfD mais sofreriam.

Num clima de radicalização cada vez mais pronunciado desde 2015, destaca-se Björn Höcke líder da ala mais radical dominada simplesmente de “A Ala” a liderar as hostes com o consentimento passivo de Meuthen e dos atuais líderes parlamentares, Alexander Gauland (também presidente honorário) e Alice Weidel (com uma carreira ligada a bancos de Investimento, lésbica e casada com uma mulher do Sri Lanka, apesar das inclinações racistas e até homofóbicas).

A fação mais radical da AfD, “Der Flügel” (A Ala) liderada por Höcke e Andreas Kalbitz é claramente neo-fascista. Inclusive, muitos dos seus membros já pertenceram a organizações de índole nazi. Representado quase 40% dos apoiantes da AfD, trata-se de uma facão com enorme peso numérico e político, e por isso foi sendo tolerada pelos altos quadros da AfD, a mesma ala que contribuiu para a queda de Lucke e Petry. A Ala foi finalmente considerada no passado 12 de Março de 2020 como uma organização com elementos fascistas por parte das autoridades e um caso em observação para uma possível proibição. Tal forçou os altos dirigentes da AfD, que até aqui a tinham tolerado, a exigir que se extinguisse o que acabou por acontecer no passado dia 21 de Março. Mas não nos enganemos a “A Ala” pode ter deixado de existir no papel mas os seus membros continuam e deverão continuar na AfD dado o seu peso.

Com o sucesso da AfD tornou-se imperativo combater a ascensão da mesma. A nível político a primeira medida de todos os partidos, de forma independente, foi uma postura de não colaboração a todos os níveis. Apesar de todas as campanhas de sensibilização de quase todo o espectro político alemão, especialmente à esquerda, para desmascarar a real face da AfD, não impediu que a mesma continuasse a somar sucessos eleitorais até há pouco tempo. Neste momento a sua rota de crescimento estagnou até começa a baixar, com exceção feita a alguns estados da antiga RDA, demonstrando que é possível estancar a extrema-direita com paciência, algo a ser analisado numa próxima edição.