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Artigo de Hugo Monteiro.


1. Entras na Faculdade pela porta da frente, com a frescura do entusiasmo e da manhã. É o primeiro dia, a primeira hora de um percurso celebrado como a primeira vitória da vida adulta: entras na Faculdade pela primeira vez, no passo decidido de quem ganha o futuro.

2. Entras na Faculdade pela porta da frente. Venceste provações de exames e de normas escolares. E agora que passas o corredor, entre anúncios de formações em empreendedorismo, entre cartazes anunciando a eterna juventude das start-ups e de inovação eternamente vendável, achas que o tempo é mais teu. Mas não evitas a tentação retrospetiva: a ansiedade das notas, a competição desabrida e a desistência mais ou menos precoce de quem ficou para trás. O teu caminho é mesmo pela porta da frente. Ganhaste-o. É teu?

3. Desaceleras o passo, olhas para o relógio. Estranhas a rapidez com que a memória te traz as longas horas escolares, em sincronia com os teus passos inaugurais pelo corredor da faculdade. Por dentro, a memória das lentas e solitárias ruminações do estudo; por fora, a marcha triunfal pelo discurso dos vencedores, na lógica empresarial e modernaça dos pregões pós-modernos dos cartazes: empresas e empresários com máquinas de pinball em salas sem paredes, ou com paredes de vidro (com telhados de vidro também?), sem muros que lhes assombrem a fatalidade da vantagem e do lucro. Amainas aí a sensação da tua vitória. Sentes que talvez o árbitro tenha estado do teu lado, mesmo que nada tenhas feito por isso.   

4. E se um apagão geral mandasse às urtigas as pesquisas, a wikipédia, o google académico – e já agora a rede social, a plataforma de chat e o jornal desportivo? Se de repente só te sobrasse a tua curiosidade, a curiosidade dos outros e das outras, o prazer de uma conversa longínqua e de gostos sentidos, partilhados e discutidos? Não um polegar levantado, no automatismo gráfico de quem nada tem para dizer, mas a argumentada fruição com que gostas realmente das coisas… E se a escola te tivesse ensinado principalmente a perguntar e a partilhar? E se nessa fúria reformista em que o teu percurso escolar te embrulhou, do bolor do Crato ao caldo educativo de “tendência europeia”, te tivessem ouvido realmente? E se a escola não te tivesse isolado no teu aparente percurso de triunfo?

5. Retiras os auscultadores que te isolam do mundo, na viagem diária de autocarro. Aprecias agora o jovem casal à tua frente, a sua seriedade quase solene, como se o quotidiano os tivesse levado a desaprender a sorrir. (E se a escola insistisse em nunca se desistir de sorrisos?) A voz deles estiliza-se no turno do call center ou ao balcão do fast-food, sorrisos de cera e expressões de plástico que demoram a desmanchar ao fim do dia. Sentes que esse uniforme difícil de despir traduz o sucesso de uma forma de sociedade, em que o corpo e a postura são valores de troca. E que a escola, na sua disciplina férrea de mesas alinhadas e olhar para a frente, teve um papel específico na confeção deste uniforme. A tua postura triunfal é apenas outra forma de o vestir.

6. Decides então reivindicar para ti, para todos e todas, o tal corredor da Faculdade, no direito de cada um/a à sua própria marcha triunfal. Sentes que a efetividade da tua reivindicação depende da reocupação de um espaço deixado vazio: o espaço da educação como um todo, para lá da ação circunscrita da pequena reforma ou da reivindicação setorial. Esperas pelo momento em que a tal educação democrática, instigadora da democracia e não apenas reflexo de tendências da ideologia do mercado, renasça com intencionalidade e abrangência, contando com a voz de toda a gente na sua construção.

Esperas e, com a frescura e o entusiasmo das manhãs, não vais esperar sentado.