Quero fazer uma nota prévia a este texto: contém sugestões musicais e alguma ironia: para quem não gostar das sugestões musicais, é só não as ir ouvir. Para quem não gostar das notas irónicas, convido a que reflitam porque será.
O título deste texto fui buscá-lo à música apresentada pela Anabela no festival da canção em 2003 – “A cidade até ser dia”. Supostamente, a cidade é de toda a gente! Isso é reforçado nesta música e será em todos os documentos sociais e políticos, desde a Constituição da República Portuguesa ao Regulamento Interno do mais pequeno espaço social do país, em todas as campanhas eleitorais e em slogans de todo o tipo. A cidade é de toda a gente, porém, é sempre com algum espanto e surpresa que aqui e ali vou ouvindo por parte de pessoas de todas as idades, que são cada vez mais as pessoas mais velhas com que nos vamos cruzando nas cidades portuguesas, nos autocarros, nos ginásios, nos cafés, nos restaurantes, nas librarias, nos eventos culturais, nas missas, e por aí fora. Não raras vezes as pessoas estão a falar de si mesmas e nem se dão bem conta disso. Só há relativamente pouco tempo percebi que esse comentário nem sempre era ‘neutro’ e que contém muitas vezes, de forma mais ou menos disfarçada, algum lamento, algum desconforto em relação a algo que é simplesmente uma constatação dos dados demográficos no nosso dia-a-dia.
A mim, que talvez tenha um otimismo exagerado em relação ao envelhecimento – que aceito que me possa passar com a idade, como já me disseram –, não me espanta nada que as pessoas andem na rua e que usufruam da cidade. Espanta-me e choca-me que muito mais pessoas – mais velhas e mais novas – não o possam fazer, não por não quererem, mas porque não podem ou não conseguem ou, mais grave ainda, porque as suas cidades não lhes garantem condições para usufruir da cidade com conforto e segurança ou porque as pessoas que lhes estão mais próximas – sejam familiares, amigos ou mesmo profissionais com as quais interagem – lhes vão limitando as possibilidades de participação e de tomada de decisões em relação às mais variadas dimensões da sua vida. Exemplos de situações destas com mais ou menos gravidade, mas que são expressão senão de idadismo, pelo menos de uma grande tolerância em relação ao não respeito dos direitos dos mais velhos, tenho-os já infindáveis:
– filhos/as que não saem com pais ou mães já muito idosos de casa ou não permitem que ninguém os leve a passear, porque têm receio que se magoem, por mais que a pessoa viva a 200 metros do mar e diga todos os dias que o que mais gostava era de ver o mar… mas enfim, para que importa o que a pessoa quer e o impacto que isso possa ter na sua saúde mental? O que é isso comparado com o risco – que existe, claro, não estou a ignorar -, mas enfim, de a pessoa partir uma perna porque já tem alguma dificuldade de mobilidade?
– a falta de respostas de apoio noturno para pessoas que até poderiam continuar a viver nas suas casas, mas que têm receio em passar a noite sozinhas são outro exemplo paradigmático. A tal música da Anabela dizia que “as cores da noite dão um brilho à cidade…”; de facto é verdade… mas para muitas pessoas as cores da noite são assustadoras, são as mais difíceis dos dias, tanto para quem vive sozinho/a como para quem é cuidador/a informal e sabe que à noite será ainda mais difícil ter algum apoio se alguma coisa acontecer… é por isso que é com algum alento que as pessoas pensam que “amanhã de manhã, já será outro dia”, porque de facto lá poderá passar uma vizinha que diz bom dia, lá poderão vir as senhoras do apoio domiciliário para dar alimentação e mudar as fraldas que estão por mudar desde o fim de tarde do dia anterior.
– e o que dizer das casas sem elevador, onde vivem idosos nos 3º andares – até pode ser um1º para haver uma barreira arquitetónica – e que, apesar de caminharem e de poderem sair não o fazem porque lhes custa e têm algum receio – absolutamente legítimo, claro – de não conseguirem subir e descer tantas escadas? Arriscaria a dizer que existem milhares de pessoas nestas situações nas mais variadas cidades deste país. Conheço várias pessoas nesta situação, sobretudo na cidade do Porto. E como se contorna esta situação? Estamos genericamente a falar de pessoas que ou são arrendatárias e que por isso não conseguem competir no dramático mercado do arrendamento da cidade para procurarem uma casa que pudesse permitir-lhes ter uma vida mais autónoma e com liberdade para sair de casa, ou então de pessoas que compraram o seu apartamento, que foram conservando como puderam e que também não têm forma de mudar para outra casa e que, na maioria dos casos que conheço, pelo menos, nem o quereriam fazer, porque é a sua casa, onde têm as suas coisas, que construíram com muito esforço e às quais, diria eu, têm direito. Dito isto: há um problema aqui? Sim! É fácil de resolver? Não! Valeria a pena acompanhar as pessoas com reais políticas de proximidade e perceber com elas e com os seus familiares ou pessoas próximas, caso se justifique, que possibilidades se poderiam explorar para que pudessem ter uma vida melhor e que as fizesse mais felizes? Sim!
Começo a achar que as cidades têm vindo a ser desenhadas e requalificadas em Portugal para pessoas que não existem. Para uma espécie de super-homem que é forte, jovem, saudável, resistente, e com poder económico, que pode descer toda a rua da Constituição, no Porto, sem a sombra de uma árvore ou de um espaço onde possa sentar-se. Que pode circular por toda a cidade sem sanitários públicos à sua disposição, porque não tem problemas urinários ou gástricos, não precisa de mudar fraldas a bebés, nem menstrua. Que não precisa de transportes públicos de qualidade porque obviamente vê bem, ouve bem, não tem dificuldades em conduzir e por isso circula com o seu próprio carro ou mota, com toda a garra, velocidade e sentido de pertença à cidade que legitima parar em cima do passeio para ir “num instantinho fazer qualquer coisa”, buzinar ferozmente quando alguém demora um pouco mais a atravessar a estrada ou quando outro alguém não arranca imediatamente quando o famigerado semáforo fica verde. Este nosso conterrâneo forte e valente não tem problemas respiratórios, não se constipa e é incansável. É por isso que pode com agilidade contornar todos os obstáculos que a cidade nos oferece, desde as obras que acontecem todas ao mesmo tempo, aos vasos de betão da Rua Alvares Cabral onde tentam a custo sobreviver pequenas árvores que esperamos que cresçam, e cuja lógica é difícil de compreender para nós, meros habitantes da cidade, que também não fomos capazes de perceber o quanto são modernas as paragens dos autocarros, que foram substituídas por outras que estão de acordo com o que de mais moderno há nos países do norte da Europa. Eu, cá por mim, acolhia de bom grado a modernice onde não existiam e continuam a não existir paragens com assentos e algum conforto e depois de nos irmos habituando a essas, já percebíamos melhor o conceito e já nem reclamávamos quando mudassem as que já existiam e nas quais conseguimos não perder o autocarro nas últimas dezenas de anos.
Aqui, de novo em tom irónico, recomendo que ouçam a ‘Ciranda da Bailarina’ da Adriana Calcanhoto, que vai bem com esta descrição: a bailarina é menina, mas também é a única que é perfeita e que, por isso, não existe.
Caros senhores, tenho más notícias para vos dar: correndo tudo bem, e espero verdadeiramente que sim, lá nos encontraremos na velhice. E lá vos ouvirei, como hoje ouço outros que já tiveram a oportunidade de nascer há mais tempo que nós, a dizer o quanto lamentam a casa sem elevador, os degraus absolutamente desnecessários que têm dentro de casa porque alguém disse que ‘ficava bonito’ e, claro, o facto de as plataformas de acesso aos autocarros não funcionarem, de os passeios serem estreitos e não poderem circular em segurança, entre tantas outras coisas.
Precisamos de aprender a envelhecer, é aquilo a que se chama ‘educação para o envelhecimento’, que deve ser uma aprendizagem pessoal, mas também tem de ser social e comunitária. Porque todas as pessoas envelhecem, todas as pessoas têm inerente à sua existência uma condição de vulnerabilidade e fragilidade que permite que, de um dia para o outro, ou com o passar dos anos, possamos ter a nossa capacidade de mobilidade condicionada, seja por motivos de ordem física ou mental… e aí lamentaremos que as cidades não são espaços mais inclusivos para todas as pessoas e reparamos no quanto não fomos capazes de ver que investir em acessibilidade é investir no presente e no futuro, de todos e todas.
É por isso que não há direito à cidade sem solidariedade, que tem de ser uma solidariedade intergeracional e que acolha todas as pessoas.
Como escreveu José Mário Branco, no seu incomparável FMI, e juro que me apetecia citar outros versos em vez destes, mas aqui fica este excerto e o convite a ouvirem todo o texto, com garra e atenção, até porque todas as pessoas devem ter direito a ser felizes até ao fim da sua vida, e as cidades devem ser facilitadores disso e não barreiras a uma vida plena.
“(…)
Ser solidário assim, para além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz
De como aqui chegar não é mistério contar
O que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará, por certo, esta canção
Ser solidário sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo arredime
Mas sim, o amor dos homens que se exprime
De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu vos daria
No ventre das canções, sabedoria”