A crise energética e a radicalização do capitalismo fóssil

Miguel Heleno

 

O passo para o abismo

Com uma economia dependente da exportação de combustíveis fósseis, a Rússia ficou de fora das aspirações que o capitalismo verde tem para oferecer. Ainda que duvidemos da ordem mundial para produzir uma transição energética a tempo de salvar o planeta, as ânsias da oligarquia russa são bem diferentes: se os atuais planos de descarbonização se concretizarem, o extrativismo russo não será sustentável no mundo; se fracassarem, simplesmente não haverá mundo para sustentar o extrativismo russo. Como foi encurralada ou como se encurralou nesta redoma é um debate historicamente interessante, mas conta pouco para o futuro da Rússia. Para já, o problema de Vladimir Putin é o mesmo da Chevron, da Shell ou da BP. Sabem que o negócio não tem futuro, mas a máquina é grande demais para parar, e farão o que for preciso para aumentar vendas, disparar preços, e continuar a lucrar com os combustíveis fósseis.

A Rússia começou a limitar exportações de gás natural para a Europa já em 2021, quando fez subir os preços da eletricidade e os níveis de armazenamento de gás atingiram níveis mínimos. Como notou a Agência Internacional de Energia em janeiro deste ano, a Rússia estava a reduzir artificialmente o fornecimento de gás para inflacionar preços.  Logo a seguir, a Rússia invadiu a Ucrânia, o ocidente impões sansões, os preços escalaram, Moscovo encheu os bolsos e a Europa ficou refém de uma crise energética. 

Neste processo, a guerra não foi causa nem consequência da política energética russa. Foi só mais uma etapa do processo de resistência do capitalismo fóssil. Mais um passo para o abismo, porque, quem lucra com o fim do planeta, não tem outra alternativa.

 

O “gás da liberdade” engoliu o Green Deal

A Comissão Europeia saiu de Paris em 2015 com a retórica de campeã da transição energética. Esqueceu-se de um detalhe: a retórica não chega, é preciso uma estratégia coerente para a energia. Nos últimos anos, apregoou o Green Deal, as renováveis, o hidrogénio verde, a mobilidade elétrica, enquanto continuou presa aos combustíveis fósseis, através de projetos como o Nord Stream 2. O jogo duplo da UE, a tentativa de conciliar objetivos de descarbonização com os lóbis do gás, rebenta agora nas mãos dos europeus. 

Ao receber menos gás russo a partir de 2021, a Europa passou a ser uma oportunidade para o Gás Natural Liquefeito (GNL) norte-americano, grande parte produzido através de fracking e altamente contestado por razões ambientais. Um mês antes da guerra começar, a UE já celebrava importações recorde de GNL dos Estados Unidos e recentemente passou a incluir o gás natural entre as energias limpas. Foi assim que, em pouco tempo, a política energética europeia deu uma cambalhota. Em 2020, o governo francês tinha recusado à Engie um megacontrato de importação de GNL norte-americano por se tratar de um gás poluente. Hoje, esse mesmo GNL, obtido por fracking, é considerado energia limpa na Europa. 

Também aqui, a guerra é só mais uma etapa. Os lóbis do fracking americano, com uma tecnologia ineficiente, poluente e altamente subsidiada, esperavam uma oportunidade para escalar preços e lavar a imagem. Hoje, chamam-lhe o “gás da liberdade” que vai salvar a Europa. Por cá, assinam-se contratos de infraestrutura para receber mais GNL durante as próximas décadas. Faz-se negócio e engole-se a retórica vazia do Green Deal.

 

A radicalização do capitalismo fóssil

Que a luta por recursos energéticos movimenta interesses, gera tensões geopolíticas no seio da classe capitalista, leva à guerra e à fome, já o sabíamos do século XX. O que é verdadeiramente novo agora, no contexto da crise climática, é que parte do capitalismo fóssil, grande demais para se reconverter em verde, ficou encurralado, radicalizou-se e iniciou um confronto aberto. Putin e a sua política do gás assente na chantagem e na guerra, os lóbis do GNL que forçam a UE a engolir a retórica climática, ou os senhores do petróleo em Washington que acabam de distorcer a lei do clima de Biden, são a prova disso. Nunca o capitalismo fóssil foi tão agressivo, tão descarado, tão aberto nos seus objetivos. Em 2002, foi preciso inventar uma desculpa para saquear petróleo no Iraque. Hoje, a sabotagem da transição energética faz-se às claras em Bruxelas, Moscovo e Washington.

À esquerda interessa compreender esta radicalização do capitalismo fóssil, precisamente quando a crise climática se torna mais urgente. A luta será mais difícil do que nunca, mas é preciso fazê-la… A experiência europeia mostra-nos que, quer tentativas de conciliação de interesses, quer triunfalismos e retóricas vazias em matéria climática, estão condenados ao fracasso. Nesta nova fase da luta pelo clima, onde o confronto será total, só um movimento e uma estratégia energética consequentes derrotarão a barbárie.