A escola da pandemia

image_pdfimage_print

Artigo de Rita Gorgulho.


Vivemos um momento distópico. Se há um ano nos dissessem que um vírus potencialmente mortal, com propagação mundial, iria obrigar a sociedade a confinar-se e lentamente reiventar-se em todas as suas dimensões sociais, provavelmente não iríamos acreditar. O argumento de ficção científica em que as nossas vidas se transformaram obrigou-nos a olhar para a escola e para os problemas que já lá estavam, de forma mais ou menos encoberta, e encará-los de frente. De facto não foi a pandemia que gerou a desigualdade profunda que atravessa o nosso sistema educativo, mas contribuiu decisivamente para a por a nu.

A escola que a pandemia impôs foge da realidade comum que alunos, pais e professores conheciam até março de 2020. A nova realidade ultrapassou a ficção e todos tiveram de se adaptar da noite para o dia. Os alunos foram afastados do espaço escolar, do contacto direto com os pares e com os professores, e, em muitos casos, dos próprios meios logísticos necessários para participar nas atividades letivas. O #EstudoEmCasa foi um esforço, tremendo e bem conseguido, de contornar um problema estrutural: o facto de perto de 50 mil alunos não terem acesso à internet – um direito considerado essencial pela ONU. Nestas condições, todo o trabalho feito pelas escolas junto das comunidades foi colocado em causa.

A escola da pandemia expôs e agravou o fosso entre os alunos oriundos de agregados com maiores dificuldades económicas, com qualificações mais baixas e piores expectativas, os mesmos que já registavam os piores resultados nos exames nacionais e as mais altas taxas de retenção. O maior afastamento da escola deu-se precisamente naqueles que se viram subitamente privados do contexto escolar, já que se viram impedidos de acompanhar ao ensino à distância que consubstanciou o 3.º período deste ano letivo. Ao longo destes meses foi possível constatar que foram as escolas com contextos mais difíceis que se viram mais condicionadas na aprendizagem que proporcionaram, a partir do momento em que ela passou a depender dos meios disponíveis em casa dos alunos.

Não podemos esperar que um país de contrastes, caracterizado por um território absolutamente desigual consiga, à distância, garantir os meios que permitam mitigar os nichos homogéneos que reproduzem e vincam as suas características, onde populações vivem isoladas nas suas ilhas, seja no Restelo ou no Vale de Alcântara.

Por outras palavras, esta pandemia agravou uma realidade que não desaparecerá se assumirmos que basta abrir as portas das escolas para que elas funcionem como espaço de oportunidade e igualdade. Mais do que diagnosticar essa desigualdade até transformá-la num mero argumento noutras lutas, é preciso combatê-la em todas as suas vertentes.

O desafio que se coloca agora com particular importância é o de não fomentar a elitização de umas à custa da estigmatização das outras. O sucesso dos alunos com maiores dificuldades, dos que foram “ficando para trás”, é o sucesso da sociedade. Esses alunos têm de ver garantido um apoio sistemático, individualizado e constante por parte da comunidade educativa em que estão inseridos. E isto não quer dizer mais escola, mas sim melhor escola.

Agora seria o momento de lhes dar as condições necessárias para que esta aparente utopia pudesse tornar-se realidade. Com turmas mais pequenas, com mais professores que pudessem acompanhar efetivamente cada aluno, com equipamento informático atualizado e com alimentação gratuita para todos os beneficiários de ação social — porque ninguém aprende de barriga vazia. E não esquecendo de envolver toda a comunidade educativa.

A escola tem de ser o local em que se constroem cidadãos à imagem da sociedade que queremos. Com todos e para todos. Agora, mais do que nunca, com o distânciamento físico a que a pandemia obriga, a escola não se pode render ao distanciamento social. É precisamente para combater esse fosso que existe a escola pública.