A esquerda na era da hiperpolítica

O tempo da apatia política acabou. Neste artigo e com um toque de otimismo Diogo Machado explora o termo “hiperpolítica”, como proposto por Anton Jäger para tentar entender como mudou esta relação entre a participação na sociedade.

O fim da Guerra Fria trouxe um longo inverno de dormência política em torno do consenso neoliberal, em que a soberania popular, a disputa ideológica e a noção de alternativa são removidas.  No entanto, a crise de 2008, pôs fim a esta resignação passiva das massas, que estão doravante dispostas a revoltar-se. Isso viu-se na ascensão de movimentos contestatórios como o ‘15-M’, o ‘Occupy Wall Street’ ou o ‘Que se lixe a Troika!’, assim como de partidos populistas de esquerda e de extrema-direita, que remobilizam o eleitorado em torno de mensagens que desafiam o status quo (de diferentes formas, é certo).

Sentimos, agora, que a apatia política terminou. As pessoas estão cognitivamente mobilizadas para a política como já não se via há muitas décadas. Este é um fenómeno novo, a que Anton Jäger chamou ‘hiperpolítica’. 

A anatomia de um conceito

Jäger descreve a hiperpolítica em contraposição com o conceito de ‘pós-política’, período inaugurado no início dos anos 80 após a contrarrevolução neoliberal. O núcleo desta ideologia é insular a economia de mercado de influência política e democrática. Ela ancora-se numa nova formação de economia política – a remoção de barreiras ao comércio internacional, a livre circulação de capitais, liberalização do setor financeiro, a diminuição da capacidade do Estado – que efetivamente retira instrumentos e capacidade ao poder público para fazer escolhas políticas. Por outras palavras, Jäger afirma que deixa de haver deliberação sobre como distribuir o excedente produzido socialmente. 

A vitória do individualismo neoliberal cria uma separação entre a esfera pública e a esfera privada, com as pessoas comuns remetidas para a última e a primeira ficando entregue a políticos de carreira, numa disputa tecnocrática de políticas dentro do mesmo consenso ideológico, em que paradoxalmente a própria noção de ideologia é eliminada. A política torna-se uma coisa distante, de especialistas, que diz pouco respeito à vida das pessoas, enquanto o trabalho, o consumo e os círculos relacionais íntimos encapsulam a libido, numa vida individualizada e desligada de organizações coletivas. 

A hiperpolítica é uma reinserção da política na sociedade: se dantes nada era político, agora tudo é (hiper)político. É um regresso da participação política, que, ainda assim, não ocorre nos moldes tradicionais. É, por exemplo, muito diferente da era da política de massas que antecede a pós-política, quando a política permeava e intermediava a forma como as pessoas se situavam na totalidade social, marcada pela participação em organizações coletivas (partidos, sindicatos, associações, grupos religiosos) de forma comprometida e duradoura. 

Na hiperpolítica, o político volta a ser omnipresente: o interesse na política regressa, visível no aumento da participação eleitoral e na centralidade das discussões políticas nas relações interpessoais; as plataformas digitais passam a estar cheias de conteúdo político para todos os gostos; movimentos de contestação como o Black Lives Matter, o QAnon, a solidariedade com a Palestina, irrompem por todo a parte, por vezes adquirindo expressão de massas, mas tão depressa nascem como morrem.

Jäger nota que o novo engajamento político é marcadamente individualizado e de curto termo. Não vemos as associações, os sindicatos e os partidos a recuperar aderentes. Vemos, ao invés, o político como um marco importante na definição da biografia e na autorrepresentação do indivíduo. Proliferam os ativistas digitais, as discussões políticas online, a participação avulsa em manifestações ou movimentos sem adesão a organizações. Jäger chama-lhe uma forma ‘baixa’ de política: de baixo custo, escassa duração, fracas barreiras à entrada e ainda menos à saída. Resume da seguinte forma:

«O resultado é uma curiosa recuperação em forma de K: enquanto a erosão da vida cívica organizada avança rapidamente, a esfera pública ocidental está cada vez mais sujeita a casos espasmódicos de agitação e controvérsia»

A hiperpolítica reflete também a lógica da nova arena dominante de engajamento político: o digital. A relação política é atomizada, imediata, imagética, e de elevada carga emocional. Jäger acrescenta que «a nossa nova hiperpolítica também se distingue pelo seu foco específico em condutas individuais, pelo seu moralismo incessante e pela sua incapacidade de refletir sobre as dimensões coletivas da luta. […] uma ética ascética com normas altamente críticas para o envolvimento interpessoal, aplicação rígida dos costumes e abstencionismo libertino».

Dá origem, no fundo, a ação política inconsequente, numa espécie de dessublimação repressiva de uma libido frustrada nos escombros do consenso neoliberal. É uma ilusão de participação que deixa intocadas as relações de poder que organizam a sociedade.

Vencedores e vencidos 

A repolitização em curso é ambivalente. Por um lado, ela abre brechas, sendo claramente um sintoma do esgotamento do consenso neoliberal e de um forte descontentamento popular que busca um veículo político; por outro lado, ela é de fraca densidade ideológica (e até marcadamente moralista na forma), mediada pelos algoritmos, descomprometida, e avessa à ação coletiva. Mas há quem tenha colhido os frutos: se o momento do populismo de esquerda foi breve, é, até agora, a extrema-direita quem tem tido mais sucesso.

Noutro trabalho, o próprio Jäger (em co-autoria com Arthur Borriello) indaga sobre as causas da efemeridade do populismo de esquerda, que emerge com putativa força de governo em vários países ocidentais no pós-crise. Emergindo quase sempre depois de expressões de contestação social de massas, estes partidos tinham a tarefa difícil de «organizar uma sociedade desorganizada» (ou atomizada). Ao fazê-lo, acabaram por replicar a própria (des)organização do contexto social de onde emergiram, sendo, quase sem exceção, partidos centralizados numa figura carismática, com uma militância pouco intensa e marcadamente digital, e orientados para a ação eleitoral e mediática. 

Diagnosticam, assim, três razões para o falhanço desta esquerda: i) a personalização, que torna os destinos do partido vulneráveis à avaliação do/da líder; ii) a priorização do digital, que consegue mobilizar eleitores num curto espaço de tempo, mas não se traduz em militância duradoura e ideologicamente densa; iii) estruturas partidárias frágeis, onde um alegado horizontalismo esconde uma concentração de facto do poder no topo, que permite uma ação rápida, mas descura a organização de base.

Aqui, a teoria de Jäger chega a um impasse e parece ser contraditória à tese da hiperpolítica. Não são estas caraterísticas da política do passado? Se sim, como é que estes fatores explicam o fracasso da esquerda? Sendo caraterísticas comuns aos novos partidos de extrema-direita, porque é que é impactaram as duas famílias partidárias de forma diferente, ou seja, porque é que a extrema-direita tem muito mais sucesso eleitoral?

Ambiguidades e hipóteses

Há, evidentemente, fatores materiais determinantes, nomeadamente o apoio de frações importantes do capital à extrema-direita, assim como o facto de tanto as redes sociais como a televisão serem estruturalmente favoráveis à sua mensagem, assuntos já abordados noutros números da revista. Existe também uma continuidade ideológica entre o neoliberalismo e o fascismo: a insulação democrática da governação política e económica. 

No entanto, antes de pendermos para explicações ortodoxas, devemos realçar que a hiperpolítica não procura encapsular a totalidade do funcionamento da sociedade, nem designa uma nova etapa do capitalismo. Descreve, antes, apenas um novo regime de engajamento político, embora este tenha, evidentemente, uma base material. A questão aqui não é explicar o sucesso da extrema-direita no geral, mas sim quais serão as condições de sucesso neste novo regime, em relação aos aspetos da ação (partidária) que a ele dizem respeito.

Numa recensão ao livro de Jäger sobre a hiperpolítica (para já, apenas disponível em alemão), Oliver Eagleton evoca precisamente a dificuldade de o conceito lidar com o sucesso desigual da esquerda radical e da extrema-direita, que a priori seriam igualmente candidatas a capitalizar a ‘piscina de descontentamento’ desta era. Avança, assim, um conjunto de argumentos que vale a pena considerar.

Primeiro, a ambição programática da extrema-direita é relativamente mais modesta, sendo compatível com as relações sociais de produção vigentes e com a ordem constitucional, embora procure distorcê-la num sentido autoritário e em direção a uma separação jurídica entre aqueles que designa ‘nativos’ e ‘estrangeiros’. 

Segundo, embora clame construir uma ideia de comunidade nacional (tradicionalista, nativa, homogénea e excludente), na prática, não faz nada para reverter as tendências atomistas e individualistas da sociedade de mercado; pelo contrário, acentua-as.

Terceiro, o apoio das classes e instituições burguesas supramencionado, assim como a existência em determinados contextos de aparelhos estatais que já atuam numa lógica quase fascista (p.e., polícia e justiça), permitem à extrema-direita um luxo de que a esquerda não dispõe: a possibilidade de utilizar as instituições da elite para cumprir o seu programa.

Quarto, a mensagem biopolítica do pós-fascismo ressoa com as disposições de setores precários ou em mobilidade social descendente da classe trabalhadora.

«À medida que as distinções de classe entre as classes mais baixas começam a dissolver-se sob o impacto da inflação e da austeridade, as pessoas recorrem ao Estado para as reafirmar, protegendo grupos favorecidos às custas dos marginalizados. As fronteiras rígidas passam a ser vistas como uma salvaguarda necessária contra a perspetiva de empobrecimento: não apenas uma barreira física, mas um instrumento taxonómico para reforçar as hierarquias tradicionais de raça e género».

Tal diversidade de fatores sublinha a simultânea insuficiência e potência explicativa da hiperpolítica. Fica claro que há dimensões importantes para além das considerados pela teoria, mesmo que o seu objetivo não seja a explicação da totalidade, como foi dito antes. Mas também fica evidente que certas caraterísticas só são tornadas politicamente úteis no contexto criado pela hiperpolítica.

Por exemplo, as fracas densidade e ambição programáticas, juntamente com a hiperatividade comunicacional e intensidade estética, estão em sintonia com a modalidade de relação política dominante de, citando o subtítulo do livro de Jäger, «politização extrema sem consequências políticas». O mesmo se aplica ao argumentário da extrema-direita, assente no divisionismo e em argumentos moralistas (p.e., delinquência e preguiça). A extrema-direita não exige aos eleitores um compromisso duradouro, a inter-identificação nem a construção de solidariedades – a sua mundivisão é perfeitamente compatível com uma organização individualista da sociedade em que apenas o sufrágio ocasional do bufão é solicitado, qual expressão espasmódica de raiva.

A desobediência a normas sociais e políticas, assim como o recurso permanente ao choque e à polémica, permitem-lhe manter-se à tona num regime de circulação de informação frenético e de elevada carga emocional, colocando-a também em posição de capitalizar o caldo de desesperança e ressentimento fermentados por um sistema desacreditado – uma espécie de estética de rebeldia que mascara o quase total alinhamento programático da extrema-direita com o status quo

Quiçá noutro momento cultural, esta extrema-direita não conseguisse sair-se tão bem, mesmo com as mesmas condições materiais favoráveis. Poder-se-á perguntar se ela é um produto ou, em vez disso, a criadora da hiperpolítica – a velha questão do ovo e da galinha. Mas que ela é a sua campeã, e que o seu sucesso depende da sua sintonização com o momento cultural dominante, parece ser inquestionável.

A esquerda não parte, pois, das mesmas condições para capitalizar esta nova era. Desde logo, ela não pode renunciar a programas ambiciosos de transformação social, à organização coletiva e à superação do individualismo. A primeira vaga de partidos populistas de esquerda demonstrou os limites de uma ‘hiperpolitização’ total da esquerda. 

No entanto, há uma dimensão estética por explorar. Como podemos combinar organizações densas com um discurso galvanizador? Como podemos combinar programas sérios com uma mensagem polémica que polarize a agenda? Como podemos disputar subjetividades além do argumento racional com formas discursivas variadas mais imediatas e de ordem estética? Como podemos dessublimar a libido frustrada do consenso neoliberal de forma não-repressiva, canalizando esta raiva com uma mensagem radical, mas rumo a um projeto (pro)positivo? 

Está por mapear uma psicopolítica dos novos tempos, mas a hiperpolítica é uma excelente porta de entrada.