“A habitação não é um direito para me ser garantido só a mim. É para toda a gente!”

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Marta Dias nasceu em 1980. Moradora em Miragaia desde sempre. Primeiro, na casa da avó, depois, na casa de um irmão e, finalmente, quando conseguiu a sua independência económica, foi morar sozinha. Entretanto, em junho foi despejada da casa onde vivia com a sua filha, uma casa pequenina, com uma cozinha, uma casa de banho fora da casa, num corredor, mas de seu uso exclusivo, uma salinha pequenina, o quarto da filha, que não tinha janela, e o seu quarto, que era virado para a frente. Atualmente, Marta e a filha “moram de favor” em casa da tia. Marta não é uma estreante no ativismo. Antes das questões da habitação, tinha já participado num movimento de defesa dos transportes públicos, porque queriam encerrar linhas. Foi uma luta vitoriosa.

 

Por que razão surgiu a Associação de Moradores da Zona Histórica?

Eu fui a uma reunião na Vitória e achei que não tínhamos pernas para andar como Assembleia. Juntámo-nos algumas moças que nos conhecemos, discutimos a ideia e criámos a Associação.

Tens ideia de como surgiu a Assembleia de Moradores?

Não faço ideia. Quando fui à minha primeira reunião já não era primeira reunião, já tinha havido algumas. Acho que nasceu em final de abril ou início de maio de 2018. Eu acho que fui à segunda reunião.

Qual o objetivo da Associação de Moradores criada?

Defender o direito a uma habitação. Todos temos direito a uma habitação. Não é justo pessoas com 89 anos, como está a acontecer, serem ludibriadas e convidadas a assinarem um papel, dizendo-lhes que é o IRS, e afinal era um contrato de arrendamento novo em 2012, pessoas com incapacidades enormes, com cancros, com 89 anos neste momento – em 2012 tinham 83, já não tinham a noção e a capacidade de raciocínio de saberem o que é que isto poderia implicar – e que agora têm de sair até 31 de agosto.

O que é que mudou no Porto nos últimos tempos?

Mudou tudo. Não há aquela essência. Antigamente, aqui em Miragaia, as pessoas depois do jantar iam todas para a rua confraternizar umas com as outras. Agora, passas por aqui a partir das sete da tarde e não está aqui ninguém. Muitas pessoas já não vivem aqui. Os turistas passam para cima e para baixo, para cima e para baixo e a gente está a sofrer com tudo. Pagamos preços de turistas. Por exemplo, vais a um café beber um sumo e pagas 1.5 euros, mas os turistas ganham 5000 euros, não ganham 500 euros como nós. Para chegarmos ao fim do mês temos que fazer uma ginástica grande… Olha o arrendamento, por exemplo. Eu ando sempre no OLX a ver se me aparecesse uma casita que eu possa pagar… E vês 600, 700, 750 euros. Por um quarto já estão a pedir 450 euros! Se tu ganhares o ordenado mínimo, como é que consegues fazer face à vida? E já nem estou a falar de viver em Miragaia! Hoje vi um anúncio de um T2 na Avenida dos Aliados a 4900 euros. Não é renda para 10 anos, é mensal! É pornográfico, mas quem está lá não põe travão a isto.
Somos penalizados nos autocarros, porque estamos sempre meia-hora ou 45 minutos à espera que os turistas tirem bilhete, e depois chegamos atrasadas ao trabalho. Nós não somos contra eles, só pedimos que se criem as condições para quem cá vive e trabalha.

Alterou-se alguma coisa nas relações de vizinhança?

Não, com os que ainda cá estão funciona tudo bem, continuamos a ser bons vizinhos, principalmente agora com os mais idosos que não têm família. Tivemos de nos chegar mais a eles, para eles saberem que não estão sozinhos. Foi muito mau o centro de idosos e o infantário terem fechado. Para onde foram os idosos? Tiveram de ser distribuídos por outras zonas. O apoio domiciliário deixou de ser feito pelas mesmas pessoas, as pessoas que os idosos conheciam, eles sentiram muito.

E a noite de São João?

A noite de São João ainda é quase o que era. Os que já não vivem cá voltam nesta noite, quanto mais não seja para confraternizarem com a família que ainda cá têm. As pessoas ainda comem na rua, a festa é agradável. No último ano em que participámos nas rusgas, ganhámos, mas depois não fomos mais, porque não há nada, as pessoas não estão aqui…

Em termos de movimento, achas que deve ser só dos moradores da zona histórica ou de todos os moradores do Porto?

Eu costumo dizer, cada qual trata da sua. Não é por causa do bairrismo. Oferecem-te apoio jurídico e é sempre “pipocas” a chegar todos os dias, contratos e cartas, cartas e contratos. Agora imagina que era do Porto inteiro! A Associação do Centro Histórico ainda é um bebé! Cada três ou quatro freguesias deviam fazer uma associação e depois devíamos trabalhar todas em conjunto. Isso era fantástico.

Quantos associados têm?

Entre 80 e 100 associados, não sei dizer ao certo. Nem todas as pessoas precisam de apoio jurídico, algumas são sócias por solidariedade. São miragaienses, da Vitória, da Sé…

Como são convocadas as reuniões?

Nós, da Associação de Moradores, as propostas que fizemos foi tudo porta-a-porta. Falámos com pessoas que conhecemos, apresentamos o projeto e perguntámos: “Como é que é, queres ajudar? Quero, quero, eu ajudo!”. Temos uma página no facebook e um site. Dá para fazer inscrições online.

Como vês o futuro do movimento?

Sempre a crescer. A estratégia é a gente cada vez se unir mais e tentar, nem que seja aos poucos, chegar lá e garantirmos os direitos que todos temos. Temos tido dissabores, mas também temos tido conquistas.

Não vou dizer que é fácil. Quando começámos fomos assim um bocado “às cegas”, porque foi uma coisa repentina, na qual não tínhamos pensado muito, mas que se mostrou ser o caminho a seguir. Mas é difícil. Todas nós trabalhamos, algumas ficámos sem casa e, parecendo que não, isto afeta psicologicamente uma pessoa.

Há vários movimentos pelo direito à habitação no Porto. Achas que estão a trabalhar de forma articulada?

Independentemente das divergências que possamos ter, estamos todos para o mesmo. Se um acha que deve amarelo e eu acho que deve ser roxo, olha, fica laranja para todos, o que interessa é que estamos todos pelo direito à habitação.

Como vês a articulação dos movimentos de moradores com os partidos políticos?

A Associação é nossa, é do povo. Os moradores é que têm de decidir o que querem para as suas vidas. Mas sempre dissemos que estamos abertos a qualquer tipo de ajuda que os partidos ou outros movimentos queiram dar, mas a Associação é nossa.

Achas que deve haver limitações ao Alojamento Local?

Claro! É preciso licenciamento. Isto no centro histórico está por demais! Não pode ser hostel sim, hostel sim, casa sim, hostel sim, hostel sim. A proporção tem de ser outra, tipo 10 casas ou 20 casas e um hostel ou dois. Eu acho que devia haver prédios só de alojamento local, até porque os inquilinos sofrem quando no seu prédio há alojamento local. Ao lado da casa onde eu morava havia um alojamento local. Eu levanto-me às 5 horas da manhã para ir trabalhar e às vezes eram 3 horas e eles estavam ali numa grande rave, todos dentro do apartamento, copos a partir… Chamas à atenção e eles dizem “no comprendo, no comprendo”, mas eu é que tenho de ir trabalhar sem dormir!

Achas que os condomínios ou o conselho de vizinhos deve ter uma palavra a dizer relativamente à presença de alojamento local num determinado prédio?

Eu acho que devemos pensar bem e não podemos querer tudo para o nosso lado, a brasa só para a nossa sardinha. Devia haver um consenso entre todos, porque todos vão sofrer. Mas é muito complicado, porque não é só o problema da habitação, isto está difícil por todos os lados, e as pessoas têm de arranjar meios de subsistência e de meter comida em cima da mesa.

E o que pensas do direito de preferência?

Depende dos preços que o senhorio pedir. Se ele pedisse 400 mil euros aos três vizinhos, eu não tinha 130 mil para dar pelos 30 metros quadrados da minha casa, nem ela valia isso. Mas eles põem estes preços e aparece sempre alguém para comprar. O prédio onde eu vivia foi vendido por mais de 750 mil euros. Eu e os meus vizinhos nunca o conseguiríamos comprar.

Imagina que a Câmara te dá uma casa. Continuarias no movimento?

Claro! Estou em lista de espera, mas continuaria com a mesma garra e a mesma força com que estou hoje. A habitação não é um direito para me ser garantido só a mim. É para toda a gente!