A imagem é intencional e molda a nossa percepção desde o momento em que acordamos. Desde a embalagem da pasta dos dentes para branquear os dentes com glaciares gélidos, às vaquinhas no pacote de leite, o campo de trigo solar no saco do pão de forma, tudo comunica. As roupas que vestimos comunicam uma imagem marcada por género, classe, idade, período histórico e localização geográfica, os sinais de trânsito, os semáforos: a imagem conduz, condiciona e ordena.
No modo de produção capitalista, os meios de produção gráfica e cultural são privados. A burguesia controla não só os meios técnicos e com isso a mensagem. McLuhan dizia que o meio é a mensagem; Walter Benjamin que, na modernidade, quem controla a reprodução controla também a percepção coletiva e, portanto, a política. As imagens estão apontadas e não fomos nós que as produzimos, nem que as divulgamos e a hegemonia cultural produzida é por demais evidente. A imagem é uma arma.
Indústria Cultural e Democracia.
É possível acreditarmos na existência de democracia num sistema capitalista em que os meios de produção e reprodução de ideias são privados e possuídos pela classe dominante, mesmo quando temos a ilusão de alcançar meios de produção de materiais próprios? A Hegemonia Cultural de Gramsci, ganha no contexto atual novos contornos. As redes sociais e a comunicação social aproximam-se de um ponto de saturação de ideias e de conteúdo, tendo tido um papel crucial na polarização da sociedade e na ascensão da extrema-direita mundial. Estes meios criaram e multiplicaram conflitos e percepções. Os algoritmos selecionam o que vemos, moldam o que pensamos, favorecem conteúdos, censuram outros e nós nem sequer sabemos os critérios utilizados para tal. Ao mesmo tempo que cidades inteiras são higienizadas e limpas da inscrição popular e propagandística nas suas paredes, reina o descontrolo intencionalmente desenhado nas redes sociais e na comunicação social. A proliferação de cartazes e murais nas cidades tem sido selvaticamente substituída por feeds digitais, bots e caixas de comentários que constroem uma imagem de cacofonia. A campanha do final dos anos 60 contra a guerra do Vietnam de Yoko Ono e John Lennon “War is Over! If you Want it!” em cartazes brancos com letras pretas garrafais quebrou o ruído da cacofonia da imagem psicadélica daquela época para apelar à mobilização pelo fim da guerra no Vietnam. Seria possível neste contexto? Como quebrar e produzir silêncio em meios de proliferação da imagem a que não conseguimos aceder, subverter?
O direito à imagem na era digital
Enquanto antifascistas, identificamos que os algoritmos das redes sociais e dos sistemas de Inteligência Artificial privilegiam conteúdos que promovem ideias de direita e de extrema-direita enquanto censuram conteúdos ligados, por exemplo, à libertação da Palestina. Como podemos não começar a exigir a democratização e a regulamentação desses mesmos algoritmos? Sabemos que o recentemente lançado sistema de IA Grok foi capaz de gerar, em apenas onze dias, 23 mil imagens sexualizadas de crianças sem que isso tenha resultado numa proibição imediata do serviço ou punição da empresa. Sabemos ainda que este mesmo sistema de IA pode ser usado para “despir” digitalmente fotografias de mulheres para as chantagear ou assediar. Sabendo tudo isto, é urgente que exijamos o direito a conhecer o algoritmo o direito à nossa imagem em moldes que qualquer meio de comunicação não a possa utilizar. Tal como não se pode utilizar imagens de pessoas anónimas em meios de comunicação e existem códigos de ética de utilização de imagem, também o algoritmo tem de ser conformado a essa lógica de mínimos comuns. Tem de se limitar o poder dos algoritmos digitais e exigir transparência nos seus limites e critérios.
Resistir não basta
A luta contra a cultura visual vigente e a indústria capitalista que a produz é urgente mas é necessário que os nossos horizontes políticos quanto ao futuro da imagem sejam mais ambiciosos. Identificamos que o mercado é responsável pela grande parte da imagem que reveste o mundo em que vivemos: os outdoors, os rótulos, as revistas, os panfletos — grande parte do imaginário visual que nos rodeia tem como principal objetivo vender. É o distópico jingle no livro de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, do Dentífrico Denham em loop no comboio, em todo o lado, ao mesmo tempo!
Sim, a indústria do grande entretenimento é um mercado (um oligopólio, visto que a Netflix prepara-se para comprar a Warner Bros.) e compreendemos que a defesa das poucas alternativas públicas não tem sido sequer suficiente 一 nem 1% para a cultura nem a mobilização das massas na sua defesa 一 e sabemos que a guerra cultural online é um campo de batalha inclinado que beneficia a direita (mesmo que muitos jovens aí se politizem à esquerda, não deixa de o ser nessa cultura imersiva de individualização). O que fazer neste cenário? O que ambicionar?
Propomos reativar a produção da imagem como forma de diálogo. Desenhar, ler, pintar, ensaiar juntos cria sentido crítico, dispõe o corpo ao saber fazer e ao confronto e reduz a vulnerabilidade à radicalização. Neste contexto podemos recuperar o muralismo mexicano, mas também a subversão e reinterpretação do artesanato, dos mitos e da imagética popular no México. Se os reconhecidos muralistas fundadores da Escola Mexicana de Pintura usavam os murais como armas ao serviço da luta, ou como formas de pedagogia ou recuperação da história popular e ainda como crítica ao dogmatismo e opressão, Benjamin afirmava que ou a arte é estetizada pelo fascismo, ou politizada pelo socialismo. E assim é, o simbolismo dos três pastorinhos pode ser usado para reforçar o conservadorismo português ou a imagem da virgem de guadalupe pode ser usada com uma auréola de espinhos, pneus em fogo e uma máscara antigás – como foi pela Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca – como virgem protetora das barrikadas instaladas pelo movimento que estava a ser oprimido. Frida Kahlo, enquanto professora, incentivava, num modelo educacional pouco ortodoxo à época, os seus estudantes a continuarem as tradições mexicanas através de uma lógica coletiva e comunitária (como por exemplo, o mural “La Rosita”, elaborado na fachada de uma Pulqueria na vizinhança dos seus estudantes). Nas redes e na cultura musical pop, os músicos Cain Culto e Xiuhtezcatl usam as tradicionais artesanías como piñatas e alebrijes – uns pequenos animais de madeira psicadélicos – feitos por eles para “decorar” os vídeos da música contra o ICE ¡Basta Ya!.
Os murais e essas subversões destroem a “aura” da obra e do fetiche mítico ao tornarem a arte pública, coletiva, confrontativa e também pedagógica. Se formos nós a produzi-la, melhor, mas teremos essa capacidade ainda? Conseguiremos recuperar técnicas reprodutíveis como serigrafia, xilogravura e litografia que permite a produção e circulação de imagens em cartazes e propaganda em papel e concretizar a ideia do artista como produtor político para lá da censura da bolha das redes? Se as produzimos digitalmente, estamos dispostas a sair à rua e pintá-las?
O muralismo cria diálogo, consciência e comunidade para lá da bolha, mobiliza territórios ao mesmo tempo que mantém uma leitura da história popular de um país ou de uma expressão concreta. Os murais – em escolas, hospitais, associações, sindicatos, espaços amadores – funcionam como alfabetização política e a sua influência persiste no muralismo chicano, no zapatismo, nas brigadas gráficas feministas e nos coletivos urbanos que usam paredes e serigrafia como forma de resistência e propaganda política. É certo que o muralismo chicano não tem par, mas não precisamos ficar na letargia de uma propaganda urbanística neoliberal que nos invade diariamente e na imersão individualizada na cultura do algoritmo. O caminho pode, e essencialmente tem, de ser outro: o que se inscreve – ou deixa se inscrever – nas cidades, o artesanato, as expressões populares não são apolíticas e tanto não são que são mercantilizadas ou desligitimadas e invisibilizadas. Defender o teatro profissional e o amador não é contradição: é recusar a mercantilização total da cultura e o acantonamento da produção cultural em espaços privilegiados, como se a cultura não vivesse da construção e confronto social.
Produzimos nós a cultura visual ou ela produz o que somos
Benjamin e o muralismo convergem numa ideia central: a cultura visual produz o nosso mundo e modifica a hegemonia cultural e simbólica. As técnicas redefinem a percepção e a noção de intervenção concreta. Pintar um mural é totalmente diferente de escrever um post no twitter: no corpo de quem o faz, na receção de quem vê e nas interações que provoca. Esta luta política faz-se no campo das imagens, no campo da técnica, no campo dos meios, já a consciência crítica nasce do diálogo e da leitura ativa da realidade e no desconforto do confronto. Ler a história popular e indígena, de e para o povo do México nas paredes do Museu do Muralismo Vivo, será muito distinto de a analisar digitalmente num ecrã numa qualquer rede social, mesmo que se possa questionar essa musealização.
Hoje enfrentamos a hiper-reprodutibilidade algorítmica, que concentra poder e constrói percepções de forma invisível. Se Benjamin via potencial emancipador na técnica, vivemos agora o tempo da sua captura e desaprendizagem como forma de alienação. Onde Freire propunha diálogo, as plataformas têm promovido fragmentação. Se os murais mexicanos propunham a produção de imagética como arte coletiva, do povo e para o povo, nós vivemos numa cultura visual produzida e recebida de forma individualizada e privada, sem processos de coletivização.
A questão não é apenas resistir, é reconstruir, reinterpretar, inventar, criar e partilhar. Democratizar a imagem — através de práticas comunitárias, educação visual crítica e regulação dos algoritmos — é uma necessidade democrática e militante. A imagem continuará a ser uma arma; cabe-nos decidir se será usada para reforçar hegemonias ou para abrir caminhos de emancipação. A tarefa é coletiva, a luta é histórica e a imagem é sempre política. Este texto é, também ele, mais um convite ao retomar de uma reflexão e ação coletiva, do que é um bilhete para o ensaio da peça e pode para além disso ser o início de uma Zine ou de encontros sistemáticos de um coro popular politizado.Vamos a isso?