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Editorial da revista Anticapitalista de novembro de 2019.


O Bloco representa hoje uma sólida terceira força política em Portugal, tendo uma responsabilidade diferente tanto a nível programático, como a nível da ação política, da que tinha há poucos anos atrás. Nos últimos 4 anos, fomos motor de mudança na vida de milhões de pessoas graças à relação de forças que existiu e isto refletiu-se no nosso resultado.

Por outro lado, e apesar de se ter impedido a maioria absoluta do Partido Socialista, este sai reforçado na atual geometria parlamentar. Esta garante a possibilidade de PS tentar governar sozinho em minoria, procurando balançar entre convergências pontuais tanto à esquerda como à direita. Já avisou que não o fará com o Chega, afirmando não alimentar o oportunismo venturista de que falamos nesta edição. Mas nada o impede de levar a cabo “reformas estruturais” à direita. Mas não nos foquemos tanto em balanços, precisamos de falar de futuro.

A relação de forças existente em 2015 foi o que garantiu a existência da “geringonça”, assim como das conquistas que o Bloco conseguiu aprovar através do acordo parlamentar e também além dele. O resultado de 2019, refletindo uma relação de forças diferente mas reforçando a posição do Bloco, é tão diferente como tem de ser a nossa estratégia para o atual mandato legislativo.

Sem relação de forças parlamentar que imponha imediatamente acordos para a transição energética, de valorização dos salários, de investimento público, é preciso em todo o caso fazer aplicar essas medidas. Temos de construir esse programa na prática, a partir da mobilização, para além das amarras dos discursos tradicionais. Temos de saber utilizar estratégias organizativas e narrativas que permitam que a política saia realmente do papel, se alicerce na contestação social e, mais do que isso, na luta por outro projeto de sociedade. Esta tem de ser a força do nosso grupo parlamentar: ser a voz de quem constrói um novo mundo através da luta social.

Porque o programa do Bloco é sério, interseccional e ambicioso, precisamos de ter uma estratégia de construção de movimentos que lhe seja fiel. Temos de ir mais além da tradicional mobilização mais ou menos formal. O desafio da esquerda hoje é transformar a proposta em mobilização, transformar a mobilização em organização social e política, e garantir que essa organização seja a porta-voz de um projeto de sociedade democrática, socialista e ecológica.

Largando a prisão da responsabilização individual, da alienação, do mindfulness e outros estratagemas para tentar ultrapassar sozinhos os problemas de uma sociedade doente, precisamos de respostas coletivas. Queremos criar sentimento de pertença, resposta integrada social e politicamente, escrever narrativas coletivas que criem identificações interseccionais solidárias. Estamos oficialmente na oposição. Por isso, temos de fazer as veias da sociedade pulsar com a luta política mas indo um passo além: projetando no imaginário coletivo uma sociedade que vai rasgar as inevitabilidades do capitalismo. Construir projetos coletivos, colocá-los no imaginário popular como realidades alcançáveis e levá-los ao poder. Esta é a nossa tarefa. Já foi mais difícil.