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Neste texto brilhante, que sublinha a ligação estreita entre saúde e economia, a grande socióloga franco-israelita analisa a crise planetária do novo coronavírus. Eva Illouz denuncia a “impostura” do neoliberalismo que, privando o Estado dos seus recursos, sacrificou o mundo do qual ele próprio se alimenta.


A assistir ao filme hipnótico de Lars Von Trier “Melancholia” o/a espectador/a percebe, a pouco e pouco, num misto de terror e impotência, que o mundo está na eminência de desaparecer, condenado a entrar em rota de colisão com o planeta “Melancholia”. No final do filme, o/a espectador/a, simultaneamente fascinado/a e paralisado/a vê o planeta terminar o seu percurso chocando contra a Terra. Primeiro surgindo sob a forma de um ponto longínquo no céu, cresce até finalmente se tornar num disco que invade todo o ecrã, no momento do embate.

Estamos toda/os mergulhada/os num acontecimento mundial cuja amplitude não somos ainda capazes de compreender. Neste momento inédito, tentei encontrar analogias e lembrei-me desta cena final do filme de Lars Von Trier.

Uma nova realidade

Foi ao longo da segunda semana de janeiro que li, pela primeira vez, um artigo acerca de um estranho vírus; foi na imprensa norte-americana e prestei-lhe uma atenção muito particular uma vez que o meu filho deveria ir até à China. O vírus estava então distante, como o ponto distante do planeta ameaçador. O meu filho cancelou a sua viagem, mas o ponto tornou-se disco e continuou o seu percurso inexorável, tendo vindo progressivamente a chocar contra nós, na Europa e Médio Oriente. Agora, toda/os observamos, paralisada/os os progressos da pandemia, enquanto o mundo que conhecíamos deixou cair o pano.

O novo coronavírus é um acontecimento planetário de uma magnitude penamos para compreender, não apenas por causa da sua escala global, não apenas por causa da velocidade da contaminação, mas também porque as instituições cujo poder colossal nunca questionámos ficaram de joelhos no espaço de semanas. O universo arcaico das epidemias devastadoras irrompeu subitamente no mundo asséptico e avançado do poder da energia nuclear, da cirurgia a laser e da tecnologia virtual. Mesmo em tempos de guerra, os cinemas e bares alternativos continuaram a funcionar; mas nesta situação, as animadas cidades da Europa que amamos tornaram-se sinistras cidades fantasma, as/os suas/seus habitantes forçada/os a esconderem-se nas suas casas. Como Albert Camus escreveu em “A Peste”, “todas estas mudanças foram, de certa forma, tão extraordinárias e tão rápidas, que não foi fácil considerá-las normais e duradouras”.

Do transporte aéreo aos museus, foi o coração vibrante da nossa civilização que parou de bater. A liberdade, o valor cardinal da modernidade, foram postos entre parêntesis, não por causa de um novo tirano, mas por causa do medo, essa emoção que domina todas as outras. De um dia para o outro, o mundo tornou-se num unheimlich, estranhamente inquietante, esvaziado da sua familiaridade. Os gestos mais reconfortantes – apertar a mão, o beijo, o abraço, o comermos juntos – tornaram-se fontes de perigo e de angústia. E no espaço de alguns dias, novas noções surgiram para atribuir sentido a uma realidade nova: tornámo-nos todos especialistas em diferentes tipos de máscaras e do seu poder filtrante (N95, FPP2, FPP3, etc.), sabemos já qual a quantidade de álcool necessária para uma lavagem de mãos eficaz, sabemos a diferença entre “supressão” e “atenuação”, entre Saint Louis e Filadélfia nos tempos da gripe espanhola e, claro, ficámos familiarizados, sobretudo, com estranhas regras e rituais de distanciamento social. De facto, em alguns dias uma nova realidade fez a sua aparição, com novos objectos, novos conceitos e novas práticas.

Ruptura do contrato do Estado

As crises revelam as estruturas mentais e políticas e, ao mesmo tempo, desafiam as estruturas convencionais e a rotina. Habitualmente, uma estrutura está escondida do olhar, mas as crises são exímias em pôr a nu as estruturas mentais e sociais tácitas.

A saúde, segundo Michel Foucault, é o epicentro da governança moderna (Foucault falava de “biopoder”). Através da medicina e da saúde mental – afirmava ele – o Estado gere, vigia e controla a população. Numa linguagem que ele não poderia ter usado, poder-se-ia dizer que o contrato implícito assumido entre os Estados modernos e as/os suas/seus cidadãs/ãos está fundado na capacidade dos primeiros em garantir a segurança e a saúde física das/os segunda/os.

Esta crise traz à luz duas coisas opostas: primeiro o facto de que este contrato, em muitos lugares do mundo, ter sido progressivamente quebrado pelo Estado, que mudou de vocação e se tornou num actor económico inteiramente dedicado à redução dos custos do trabalho, à autorização e encorajamento da deslocalização da produção (e, entre outros, dos medicamentos-chave), à desregulação das actividades bancárias e financeiras e à cedência aos interesses das empresas. O resultado, intencional ou não, foi uma extraordinária erosão do sector público. E a segunda coisa é o facto, evidente aos olhos de toda/os, que apenas o Estado pode gerir e ultrapassar uma crise de tal amplidão. Nem mesmo o mamute Amazon consegue fazer mais do que expedir pacotes postais, e mesmo assim, com grandes dificuldades.

“Efeitos Zoonóticos”

Para Dennis Carroll, um dos principais especialistas mundiais em doenças infeciosas que trabalha nos Estados Unidos para o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), a agência nacional de protecção da saúde, devermos esperar ver este tipo de pandemias repetir-se mais frequentemente no futuro. E isto por causa daquilo a que chama “efeitos zoonóticos”, ou seja, as consequências do contacto cada vez mais frequente entes patogéneos de origem animal e o Homem – um contacto provocado pela presença cada vez mais relevantes de humanos em eco-zonas [eco-regiões] que, até agora, não estavam ao nosso alcance. Estas incursões nessas eco-regiões são explicadas pelo sobrepovoamento e pela exploração intensiva do solo (em África, por exemplo, a extracção petrolífera ou mineira desenvolveu-se consideravelmente em regiões que, habitualmente eram pouco habitadas).

Há pelo menos uma década que Caroll e vários outros (entre os quais, por exemplo, Bill Gates e o epidemiologista Larry Brilliant, director da fundação Google.org) nos avisam que vírus desconhecidos ameaçarão cada vez mais o futuro dos seres humanos. Mas ninguém prestou atenção. A crise actual é o preço que pagamos todas/os pela falta de atenção das/os nossa/os política/os: as nossas sociedades estiveram bem mais ocupadas em fazer, incessantemente, lucro e em explorar a terra e a mão-de-obra, durante todo o tempo e em todos os lugares. Num mundo pós-Corona, os efeitos zoonóticos e os mercados chineses de animais vivos deverão tornar-se as preocupações da comunidade internacional. Se o arsenal nuclear do Irão é apertadamente controlado, não há nenhuma razão para não exigir o controlo internacional das fontes de efeitos zoonóticos. O mundo dos negócios, por todo o mundo, poderá finalmente aperceber-se que, para poder explorar o mundo é preciso que ainda exista mundo.

Economia ou vida? Saúde, a base invisível do mercado

O medo público coloca sempre as instituições em perigo (todos os monstros políticos do século XX usaram o medo para despojar a democracia das suas instituições). Mas a novidade desta crise é a medida em que ela é assombrada pelo “economismo”. O modelo britânico (entretanto revisto) consistia, inicialmente, em adoptar o método de intervenção menos intrusivo possível, nomeadamente o modelo de auto-imunização (ou seja, contaminação) de 60% da população – uma opção que equivalia a sacrificar parte da população em nome da manutenção da actividade económica. A Alemanha e a França inicialmente reagiram da mesma forma, ignorando a crise enquanto tal foi possível. Como observou o ensaísta italiano Giuliano Da Empoli, nem mesmo a China, que espezinha os direitos humanos, utilizou o “economismo” tão abertamente como as nações europeias como um critério a ter em conta na luta contra o vírus (pelo menos, no início). O dilema não tem precedentes: sacrificar a vida de muitos idosos e pessoas vulneráveis ou sacrificar a sobrevivência económica de muitos jovens e pessoas independentes.

Não deixa de ser irónico ter sido o mundo financeiro, geralmente arrogante e tantas vezes impenetrável, o primeiro a afundar-se. Ficou demonstrado que a circulação de dinheiro no mundo se baseia num recurso que todos nós tomámos por garantido: a saúde dos cidadãos. Os mercados alimentam-se da confiança como moeda para construir o futuro, e acontece que a confiança se baseia no pressuposto da saúde. Os Estados modernos têm garantido a saúde dos seus cidadãos: construíram hospitais, formaram médica/os, subsidiaram a investigação médica e conceberam sistemas de protecção social. Este sistema de saúde foi a base invisível que tornou possível a confiança no futuro, o que, por sua vez, condicionou o investimento e a especulação financeira. Sem saúde, as transacções económicas perdem o seu significado.

A saúde foi, pois, um dado adquirido e, nas últimas décadas, políticos, centros financeiros e grandes empresas concordaram em promover políticas que reduzissem drasticamente os orçamentos dedicados aos recursos públicos – desde a educação aos cuidados de saúde -, ignorando, paradoxalmente, até que ponto as empresas tinham podido beneficiar destes bens públicos (educação, saúde, infra-estruturas), sem pagar nada por isso. Todos estes recursos dependem do Estado e condicionam a própria existência de intercâmbios económicos. No entanto, em França, nos últimos vinte anos foram eliminadas 100.000 camas hospitalares (os cuidados domiciliários não podem compensar as camas das unidades de cuidados intensivos). Em Junho de 2019, médicos e enfermeiros de serviços de urgência manifestaram-se contra os cortes orçamentais que minam o sistema de saúde francês – uma referência mundial – ao ponto de o empurrar para a beira do colapso.

No momento em que escrevo estas linhas, um colectivo de 600 médicos anuncia a apresentação de uma queixa contra o Primeiro-Ministro, Edouard Philippe, e a antiga Ministra da Saúde, Agnès Buzyn, pela sua má gestão da crise (até 14 de Março, não tinham sido tomadas quaisquer medidas). Nos Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo, os médicos estão a esforçar-se por encontrar máscaras para se protegerem. Em Israel, em 2019, o rácio de camas hospitalares/população total tinha diminuído para o seu nível mais baixo em três décadas, de acordo com um relatório publicado pelo Ministério da Saúde.

A transformação essencial do capitalismo

Netanyahu e os seus sucessivos governos negligenciaram o sistema de saúde por duas razões: porque Netanyahu é fundamentalmente um neoliberal, que acredita na redistribuição de dinheiro dos recursos colectivos para os ricos sob a forma de isenções fiscais; e porque cedeu às exigências dos partidos ultra-ortodoxos que são seus parceiros de coligação, criando carências maciças no sistema de saúde. A mistura de gravidade e histeria com que a actual crise foi gerida pretendeu esconder esta espantosa falta de preparação (falta de máscaras cirúrgicas, respiradores artificiais, fatos protectores, camas, unidades de cuidados adequados, etc.). Netanyahu e as hordas de políticos de todo o mundo trataram a saúde dos cidadãos com leviandade insuportável, não conseguindo compreender o óbvio: sem saúde, não pode haver economia. A relação entre a nossa saúde e o mercado tornou-se agora dolorosamente clara.

O capitalismo, tal como o conhecemos, tem de mudar. A pandemia causará danos económicos incomensuráveis, desemprego maciço, crescimento lento ou negativo, e afectará todo o mundo – sendo provável que as economias asiáticas possam sair reforçadas. Os bancos, as empresas e as sociedades financeiras terão de suportar o fardo, a par com o Estado, de encontrar uma saída para esta crise e de se tornarem parceiros na saúde colectiva dos cidadãos. Terão de contribuir para a investigação, para os planos nacionais de preparação para situações de emergência e para as contratações em massa quando esta crise terminar. Terão de suportar o fardo da reconstrução económica, mesmo que este esforço colectivo gere pouco lucro.

Os capitalistas tomaram por garantidos os recursos fornecidos pelo Estado – educação, saúde, infra-estruturas – sem nunca se aperceberem que os recursos de que estavam a esbulhar o Estado acabariam por os privar do mundo que torna a economia possível. Isto tem de acabar. Para que a economia seja significativa, precisa de um mundo. E esse mundo só pode ser construído colectivamente, através da contribuição do sector privado para o bem comum. Se, sozinhos, os Estados conseguem gerir uma crise desta dimensão, não serão suficientemente fortes para nos tirarem dela sozinhos: as empresas terão de contribuir para a manutenção dos bens públicos de que tanto beneficiaram.

Elites e despojos de guerra

Em Israel, apesar de um balanço um pouco mais elevado em termos de vidas humanas (até ver), a crise do novo coronavírus abalou profundamente as instituições do país. Como Naomi Klein tem salientado repetidamente, as catástrofes são oportunidades para a elite agarrar os despojos de guerra e aproveitá-los ao máximo. Israel constitui um exemplo vivo disso mesmo. Netanyahu suspendeu de facto os direitos civis fundamentais e encerrou os tribunais (salvando-se assim in extremis do julgamento que o esperava). A 16 de Março, a meio da noite, o Governo israelita aprovou a utilização de instrumentos tecnológicos desenvolvidos pelos serviços secretos Shin Bet para localizar e identificar os movimentos dos portadores do vírus (e daqueles que possam ter infectados). Contornou a aprovação do Knesset, ainda que prevista no processo, e adoptou medidas que nenhum país tinha ainda tomado – incluindo os mais autoritários.

Os cidadãos israelitas estão habituados a obedecer rápida e docilmente às ordens do Estado, especialmente quando a sua segurança e sobrevivência estão em jogo. Estão acostumados a ver a segurança como uma razão válida para infringir a lei e minar a democracia. Mas Netanyahu e seus acólitos não se ficaram por aí: puseram fim à formação de comissões parlamentares, levando a cabo aquilo a que alguns comentadores e cidadãos chamaram um verdadeiro “golpe de Estado” político, privando o Parlamento da sua função de contrapeso ao executivo e rejeitando os resultados eleitorais, que os tinham colocado numa situação minoritária. Em 19 de Março, um desfile legal de carros com bandeiras negras, em protesto contra o encerramento do Parlamento, foi parado à força pela polícia pela única razão de esta ter recebido ordens nesse sentido.

Tucídides, o historiador grego do século V a.C., escreveu o seguinte sobre a peste que assolou Atenas durante o segundo ano da Guerra do Peloponeso: “Ante o mal desencadeado, os homens, não sabendo no que se tornar, deixaram de respeitar a lei divina ou humana. “(1) Crises deste tipo podem gerar o caos, e é em tais circunstâncias que os tiranos aparecem frequentemente. Os ditadores prosperam com o medo e o caos. Em Israel, comentadores muito respeitados vêem a gestão da crise por parte de Netanyahu como um exemplo de uma tal exploração cínica do caos e do medo, como o objectivo de alterar os resultados eleitorais e se colocarem fora do alcance da lei. Deste modo, Israel está a atravessar uma crise que não tem equivalente noutros lugares: a sua crise é de saúde, económica e política ao mesmo tempo. Em momentos como estes, é crucial ter confiança nos que ocupam cargos públicos, mas uma parte significativa da opinião pública israelita está a perder total confiança nos seus representantes, quer no Ministério da Saúde, quer nos outros ramos do executivo.

O trailer do nosso futuro?

O que vem redobrar o sentimento de crise é o facto da pandemia exigir uma nova forma de solidariedade através do distanciamento social. É uma solidariedade entre gerações, entre jovens e velhos, entre alguém que não sabe que pode estar doente e alguém que pode morrer por aquilo que o primeiro não sabe, uma solidariedade entre alguém que pode ter perdido o seu emprego e alguém que pode perder a sua vida.

Estou confinada há várias semanas e o amor com que os meus filhos me cobrem tem sido deixar-me sozinha. Esta solidariedade exige isolamento e fragmenta o corpo social nas suas unidades mais pequenas possíveis, complicando as nossas organizações, os nossos encontros, as nossas comunicações – para além das inúmeras piadas e vídeos trocados nas redes sociais.

Estamos agora a experimentar uma sociabilidade de substituição: o uso da Internet mais do que duplicou; as redes sociais tornaram-se as novas salas de estar; o número de piadas Corona que circulam nas redes sociais através dos continentes não tem precedente; o consumo de Netflix e Prime Video explodiu literalmente; estudantes de todo o mundo fazem agora cursos virtuais através do “Zoom” – salas de aula colaborativas. Em suma, esta doença, que nos obriga a rever de cima a baixo todas as categorias conhecidas de sociabilidade e cuidados, é também a grande festa da tecnologia virtual. Estou convencida de que no mundo pós-Corona a vida virtual a longa distância terá conquistado uma nova autonomia – agora que fomos forçada/os a descobrir o seu potencial.

Sairemos desta crise, graças ao trabalho heróico de médicos e enfermeiros e à resiliência da/os cidadã/os. Muitos países já estão a sair dela. O desafio será gerir o período pós-pandémico tirando as conclusões correctas: o Estado, mais uma vez, provou ser a única entidade capaz de lidar com crises de tão grande escala. A impostura do neoliberalismo está agora exposta e deve ser denunciada em alto e bom som. O tempo em que todos os agentes económicos só lá estavam para “encher os bolsos” tem de acabar de uma vez por todas. O interesse público deve voltar a ser a prioridade das políticas públicas. E as empresas têm de contribuir para este bem público, se quiserem que o mercado continue a ser um quadro possível para as actividades humanas.

Esta pandemia é como um trailer de um filme que nos dá um preview, uma antevisão do que nos pode acontecer se surgirem vírus muito mais perigosos e as alterações climáticas tornarem o mundo inviável. Em tais casos, não haverá interesse privado ou público a defender. Ao contrário daqueles que prevêem um ressurgimento do nacionalismo e um regresso das fronteiras, penso que só uma resposta internacional coordenada pode ajudar a fazer face a estes riscos e perigos sem precedentes. O mundo é irrevogavelmente interdependente e só uma tal contribuição pode permitir-nos enfrentar a próxima crise. Vamos precisar de um novo tipo de coordenação e cooperação internacional para evitar futuras zoonoses, para estudar doenças, para inovar nos domínios do equipamento médico e da investigação e, acima de tudo, vamos ter de reinvestir no bem comum a considerável riqueza acumulada por entidades privadas. Essa será a condição para se ter um mundo.


Fonte Nouvel Observateur: https://www.nouvelobs.com/idees/20200323.OBS26443/l-insoutenable-legerete-du-capitalisme-vis-a-vis-de-notre-sante-par-eva-illouz.html

Tradução de Tatiana Moutinho