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Artigo de Daniel Bensaïd.


O dissidente polaco Karol Modzelewski, a quem perguntaram a razão de ser do seu compromisso obstinado, respondeu simplesmente: «Por lealdade para com os desconhecidos». Tal como a mobilização pelas grandes ideias, o compromisso é uma questão de lealdade, dessas fidelidades moleculares, desses ínfimos laços de memória e ação.

A 11 de julho último [1977], Roberto MacLean foi assassinado às 19 horas na soleira da porta da sua casa, em Baranquilla, por dois sicários paramilitares. A informação não merece uma linha nos jornais. Tudo normal. Baranquilla é na Colômbia, na costa atlântica. Neste país, os assassinatos políticos são às centenas por ano, às vezes milhares.

Sem assunto? Não. O mais vivo dos assuntos.

Em primeiro lugar, porque tenho vontade de saudar Roberto MacLean, com quem partilhei abrigo e teto no México. Animava o movimento cívico de Baranquilla. Era negro e revolucionário. Possuía esta dupla pertença que para ele era uma só. Tinha 39 anos. Era militante desde os 14 anos. Há uma dúzia de anos que vivia a cada dia a crónica da sua morte anunciada. MacLean era o retrato personificado desses desconhecidos aos quais nos liga uma dívida insanável.

Diz-se “comprometer-se”

A forma reflexiva evoca a decisão maduramente tomada de um sujeito soberano. Sob uma modéstia aparente, tem algo de orgulhoso, como se quem se declarasse comprometido honrasse a sua causa. Como se condescendesse doar-se a si próprio.

Por vezes reencontramos antigos combatentes, reciclados pela razão de Estado ou recurvados sobre o seu nicho ecológico privativo, que, com uma ponta de compaixão, se espantam: “Então, ainda és um militante? Que pena que não tenhas feito isto ou aquilo…”

Sem qualquer gosto ou disposição para o jogo das carreiras e das aparências, pela ação política como uma ascese ou um pesado sacrifício, antes pelo contrário, foi enquanto militante que vivi experiências intensas, conheci desconhecidos indispensáveis – precisamente, centenas como MacLean –, provei alegrias raras, tive conflitos amigáveis ou conjunturais necessários ao rejuvenescimento do coração e do espírito.

Também se diz “um intelectual comprometido”

Na medida em que se trabalha com as ideias e as palavras, pode admitir-se “intelectual”, ainda que Gramsci faça notar que, se na divisão do trabalho se pode admitir a existência de uma categoria social definida como intelectual, pelo contrário, o não-intelectual não existe.

A ordem das palavras perturba-me: em primeiro, intelectual; o comprometimento parece advir daí. Como se a ação fosse a razão aplicada [a aplicação da razão]. Sempre esse primado cultural do conceito, que deixa pouco espaço às revoltas e às emoções, ao modo como se toma partido numa disputa e, portanto, se entra na luta.

Comprometido intelectual talvez fosse mais conveniente. Para traduzir a inquietude permanente das razões e a lógica íntima das paixões.

Comprometido intelectual?

Então, porque não dizer simplesmente militante.

Nestes tempos de individualismo sem individualidade, a palavra tem uma má conotação. Soa um pouco a – dir-se-á – caserna e a soldado raso. E o comprometimento? “Comprometam-se…” Na legião, na polícia, nas ordens?

Militância tem, pelo menos, a vantagem de indicar o sentido do coletivo. A militância não é um prazer solitário, mas um ato partilhado. Um pequeno passo na via do «comunismo de pensamento» (e ação) que Dionys Mascolo procurava com tenacidade.

Porque a militância é, no fim de contas, a própria ética da política, um «pensamento de atos», o teste prático das ideias de uma obrigação (contrário de uma imposição instituída) que fixamos em relação aos outros. «Toda a atividade política é moral, implica-se no universo de valores morais e, consequentemente, acarreta um juízo moral», escrevia também Mascolo (e, tratando-se de comprometimento, como não pensar nele, como não voltar a lê-lo, no dia seguinte à sua morte?).

A militância implica preferencialmente uma forma organizada que comporta uma memória e põe as ideias em comum. Mas não necessariamente. De uma forma mais geral, poder-se-ia dizer que, com ou sem pertença, a atitude militante opõe-se à do eterno simpatizante, do compagnon de route, que preserva a sua autonomia e se reserva o recurso – tão necessário – de jogar com ambas as mãos em dois tabuleiros.

Mascolo consagrou mais de uma página ao «sombrio caso do simpatizante» – o tipo que ontem tinha sido o «estalinista do exterior» –, tão enformado de preconceitos, tão imbuído da sua liberdade e, no entanto, tantas vezes tão servil. Este [o simpatizante] constitui um dos «piores subprodutos do estalinismo» e desempenhou o seu papel com a mais «culpada das inocências».

Durante um certo tempo, Sartre foi também um compagnon de route (do estalinismo e, depois, do maoísmo). Aragon, por sua vez, foi um membro e, eventualmente, um poeta do partido. No entanto, sendo um deles membro e o outro não, ambos nunca deixaram de ser, em certa medida, simpatizantes. Como dizia (outra vez) Mascolo, ao passar de uma atitude de anticomunista por princípio a uma atitude de simpatizante acomodado nas posições estalinistas e maoístas, Sartre não deixou de reincidir no erro: «Em ambos os casos, confundiu radicalmente o projeto revolucionário com o estalinismo». Quanto a Aragon, o seu zelo em caucionar todas as derivas burocráticas, sem nunca fugir ao complexo de “intelectual trânsfuga de classe” fez dele um simpatizante a partir do interior [do partido].

A militância compromete um sentido de responsabilidade para com os desconhecidos, sem eclipses nem intermitências.

E aqui voltamos. Não ao comprometimento tout court. Sim ao comprometimento revolucionário. Ou ao comprometimento comunista, uma vez que, no fundo e apesar de todas as infâmias cometidas em seu nome, é ainda a palavra justa, a mais precisa, a mais fiel em termos de conteúdo para designar o desafio de uma época.

No fundo, é precisamente disto que se trata. Não se trata de um casamento com uma determinada causa ou um determinado partido, mas de viver um relacionamento com o mundo sem reconciliação possível. O comprometimento não é, por isso mesmo, uma alvorada soalheira após uma noite de tempestade que nos desponta na cabeça. Tornamo-nos revolucionários através da lógica do coração e da razão.

A dedução é simples. O mundo tal como está não é aceitável. Portanto, temos de tentar mudá-lo, sem qualquer garantia de o conseguirmos.

Escusado será dizer [é uma evidencia]. Antes mesmo de “nos comprometermos”, já “somos arrastados” – como diria o outro. E neste “arrastão” há coisas que pesam. Para mim, foi a memória de um avô materno, descendente de um communard proscrito que viveu na passagem de La Main d’Or. Conservava na sua sala de jantar um retrato de Jean-Marie Clément e, todos os anos, no aniversário da semana sangrenta, mandava os comensais levantarem-se e entoava Le Temps des Cerises. Foram também, ao balcão de pequenos cafés familiares dos subúrbios de Toulouse, os relatos dos antigos combatentes em Espanha e dos resistentes da MOI, o fantasma decapitado de Marcel Langer. A estrela amarela precavidamente guardada na gaveta e silenciosamente colocada em cima do balcão ao menor assomo racista ou antissemita. E a persiana de ferro baixada pela minha avó, no dia em Julian Grimau foi executado.

Os nossos começos são sempre recomeços

Revolucionários por revolta lógica? Existem apenas três maneiras de recusar a premissa: por má-fé, por resignação ou por cinismo. A má-fé soprará que o mundo tal como está, está bem e que, sobretudo, não é preciso mudar nada. A retórica da resignação dirá que o mundo, claro está, é confrangedor, mas que nada podemos mudar, uma vez que a desigualdade é natural e o mercado é eterno. O refinamento cínico admitirá que seria, sem dúvida, necessário mudar este mundo miserável, mas acrescentará que a humanidade não merece tal esforço.

Se a eternidade não existe, a não ser como forma religiosa de Inferno, e se a espécie humana é tanto um devir quanto uma herança, torna-se necessário, pelo contrário, apostar nesta «parte não fatal do devir que “implora para nascer” e que está já inscrita ou “desejada” nessa faculdade geral de superação que se diversifica no sonho, na imaginação, no desejo – cada um deles visando, à sua maneira, transcender os seus limites» (sempre Mascolo).

Portanto, um comprometimento na forma de aposta lógica no incerto. Trabalhado pela dúvida. Durante o mesmo tempo do que o tempo em que o necessário e o possível não se juntem, ainda que nos esforcemos em vão para que tal aconteça.

Uma aposta vulgar, recomeçada a cada dia. É o que fazem, com toda a simplicidade, milhares de militantes sindicalistas, ativistas, políticos por todo o mundo. Milhares de MacLeans. Por lealdade para com eles, quando estamos comprometidos, é por muito tempo. Deixamos de ter o direito de atirar a toalha ao chão, de nos rendermos à mínima lassidão, ao mínimo acidente de percurso, à mínima – ou mesmo à pior – deceção.

Este comprometimento militante (passe o pleonasmo) advém da «parcela irredutível» que invoca Mascolo. E uma vez que é aqui, precisamente nesta revista e nestas colunas, o lugar para o saudar e lhe dizer adeus (em memória também daquelas noites de sonho partilhadas há trinta anos), talvez uma das melhores formas seja fazer eco das suas próprias palavras, tão dolorosa e lealmente atuais: «Nós estamos efetivamente limitados, neste momento, a desenvolver uma constatação de derrota e, no mesmo movimento, a aprofundar uma recusa que nem quanto à sua origem apresente razões: é mesmo assim. É a seguir, se possível, que virão as propostas positivas. Não é necessário, apesar da obrigação maligna, sermos capazes de dizer o que queremos para sabermos o que jamais não quereremos a qualquer preço. Isto é simples. Tão simples que é possível, pela primeira vez e desde há tanto tempo, sentirmo-nos tranquilos nesta situação. Aqui não corremos os riscos de errar, que nos contiveram por tanto tempo» (“La part irréductible”, 2 de outubro de 1958; retomado em À la recherche d’un communisme de pensée, Paris, Fourbis, 1993).