A luta estudantil em Belas Artes

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Artigo de Sancha Castro.

Não é nova a falta de condições dxs estudantes na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), mas vemos agora mais uma razão para termos organizado o corpo estudantil do dia 3 de abril em frente à reitoria nos moldes de manifestação-performance: as inundações do pavilhão de escultura, devido às chuvas do dia 14 de março, deixaram as salas de ateliê de pintura dos 2.º e 3.º anos inundadas. A direção e a reitoria argumentam que o problema aconteceu devido a um episódio “extraordinário”, mas o que xs estudantes observam é que as condições em que estudam e trabalham são precárias e que os problemas não surgem sistematicamente por acontecimentos “extraordinários”. A nossa luta é diária.

Caos na faculdade

O caos das condições da FBAUP não é pontual, não é só o pavilhão onde ocorreram as inundações que necessita de intervenção urgente, mas toda a estrutura da faculdade. A falta de espaço e de condições é transversal a uma grande maioria de áreas científicas da escola: há salas improvisadas em corredores, nem sempre xs estudantes cabem nas salas, o que faz com que haja aulas que acontecem… fora das salas de aula! Não há pessoal técnico suficiente, o que faz com que nem sempre tenhamos acesso às salas ou às máquinas de trabalho. Não há aquecimento na maior parte da escola, não há sistemas de extração de ar e ventilação para pós, fumos ou substâncias tóxicas nas oficinas que assim o exigem ou sistemas de emergência para o caso de intoxicação. As aulas de pedra são lecionadas na rua, estando assim dependentes das condições atmosféricas. Não há acessos para pessoas com mobilidade reduzida. De forma a sistematizar estes problemas mais imediatos e reivindicar a sua solução, a Associação de Estudantes da FBAUP lançou este mês um Manifesto, que poderão ler na página de facebook @belas.artes.ae.

Por outro lado, os custos do ensino artístico são incomportáveis para a maior parte dxs estudantes. No caso concreto das artes plásticas e design, esta realidade sente-se de forma mais pesada, porque a faculdade não garante nenhum material aos/às alunxs, sendo que estxs normalmente gastam valores semelhantes aos das propinas só em material. Há também vários alunxs que durante o curso escolhem ramos ou unidades curriculares consoante o custo financeiro que estas implicam ao nível de materiais específicos. A estes obstáculos associamos o peso das propinas e os custos de habitação na cidade do Porto, cada vez mais incomportáveis. E assim facilmente se percebe a preocupante taxa de abandono dos estudos nestas áreas específicas.

Contas erradas

Num momento em que a denúncia das condições de aprendizagem e trabalho dxs alunxs da FBAUP ganha cada vez mais força, o reitor Sebastião Feyo classifica como «excessivas quaisquer referências a uma degradação generalizada das condições da FBAUP» e insiste em afirmar que não há verbas para a requalificação necessária, argumento que não aceitamos, pois sabemos que só no ano de 2016 a Universidade do Porto teve um superávite de 10 milhões de euros. Continuamos a não ver reconhecido o valor cultural e educacional no que fazemos. O ensino artístico continua a não ser reconhecido como tão importante como o de qualquer outra área de conhecimento.

Xs estudantes da FBAUP consideram que é uma prioridade não serem penalizadxs na educação por motivos financeiras, que é preciso repensar modelos e métodos de ensino que se revelam desadequados à prática artística contemporânea, que é necessário pressionar as estruturas responsáveis para que desbloqueiem financiamento para suprir as necessidades urgentes e que é preciso responsabilizar as entidades responsáveis pela forma danosa e perigosa a que estudamos hoje.


A luta do Conservatório e da Escola de Dança

Mafalda Escada

Problemas e mobilizações semelhantes ocorreram também na Escola de Música do Conservatório Nacional (2015) e na Escola Superior de Dança (Janeiro 2018) em Lisboa. Ambas com graves problemas materiais que punham em causa a segurança dxs estudantes e trabalhadorxs e que, perante a pressão exercida pelxs mesmxs, se encontram agora vazias, tendo as aulas sido deslocadas para outras escolas, aguardando intervenção, no caso do Conservatório, e a construção de um edifício novo, no caso da Escola de Dança.