image_pdfimage_print

Artigo de Francisco Louçã.


Nestas coisas de copo meio cheio e meio vazio temos sempre duas histórias verosímeis: de um lado, nunca a economia norte-americana tinha crescido durante tanto tempo seguido, do outro lado a queda de encomendas à indústria empurra a economia alemã para uma recessão e a China tem o pior resultado em duas décadas. Mas parece haver uma exuberante confiança, os investidores estão dispostos a pagar por deterem dívida alemã a trinta anos, dívida suíça a cinquenta anos e mesmo dívida pública portuguesa a médio prazo. São duas histórias que não se parecem conciliar uma com a outra e, no entanto, tudo isto é factual. Resolver a dúvida dizendo que vem uma recessão, só não sabemos quando, é jogar com as palavras, o que muitos economistas preferem a aceitar o risco de se enganarem mais uma vez. Só que o capitalismo é assim, vive provocando crises. Olhemos então para as condições da crise e deixemos o horóscopo aos adivinhadores.

 

A crise é sempre geral

Há pelo menos oito grandes economias em recessão ou à beira dela, a Alemanha, Reino Unido, Itália, Brasil, Argentina, México, Rússia e Coreia do Sul. É o suficiente para arrastar a Europa e grande parte dos países emergentes. É sempre assim: a crise é geral ou não é crise. E, agora, ela é alimentada pela falta de procura efetiva ou, o que é o mesmo, pela sobreprodução em alguns setores chave. Para mais, a escassa procura é artificialmente sustentada por juros baixos (que se podem manter) e por petróleo barato (que é mais duvidoso que se mantenha). Ou seja, faltam salários e investimentos. Ora, há já indicações de que os gastos com capital estão a reduzir-se a nível global e os investimentos em capacidade produtiva, geradores de emprego, há muito que estão a cair. A incerteza daqui resultante é mascarada por um efeito positivo deste medo: as aplicações financeiras correm a refugiar-se na dívida pública, que é garantida, e por isso os seus juros baixam, aliviando as pressões orçamentais em países com elevado rácio de dívida soberana. Investimento é que não há.Assim, contra a próxima crise não haverá armas de política monetária, como baixar os juros.

O capitalismo tem sido uma bolhaeconomia: vive criando bolhas, com acções nos anos 1990, com o imobiliário nos anos 2000, agora de novo com as bolsas.

 

O perigo alemão

É aqui que entra o “problema alemão”, nas expressão de Paul Krugman. A “loucura da austeridade” ou a “ruinosa obsessão alemã contra a dívida pública”, como ele escreve, tem reduzido a capacidade produtiva e a sustentabilidade do emprego, impondo regras estapafúrdias, como a proibição constitucional de aumentar a despesa para financiar um défice estrutural em mais de 0,35% do PIB. A Alemanha tem agora um excedente da conta corrente de 7,4% do PIB e um superávite orçamental de 1,7%, mesmo que com esses esplendorosos números caminhe para uma recessão (ainda ligeira, queda de 0,1% no segundo trimestre), depois de ter imposto sacrifícios inúteis aos seus parceiros. Desde 2012 que a Alemanha tem um défice zero e nesse momento havia 11% de desemprego registado na zona euro, a que Schauble e Merkel exigiam uma disciplina draconiana que prolongou a recessão nalguns casos e tornou mais difícil a recuperação noutros casos. Há mesmo um problema alemão.

Esta política de austeridade externa e de superávite nacional foi a forma germânica e egoísta de prolongar a restrição da procura agregada, agravando todos os problemas imediatos e futuros: nem se começou a criar uma economia que respondesse ao envelhecimento populacional, nem houve o investimento necessário nas infra-estruturas para a transição climática. Pelo contrário, foi imposta por toda a Europa uma máquina de austeridade que precipitou privatizações, aumentos de impostos, operações de fusões bancárias e outras aventuras lamentáveis. Mas isso acentuou a depressão da procura e portanto ampliou as condições para a crise. É agora, em desespero e em recessão, que Merkel pondera lançar um programa de despesa de 50 mil milhões de euros. Talvez seja tarde demais para a confiança económica.

Mas o risco da nova crise só reforça a necessidade de a esquerda europeia lutar pelo fim das regras e tratados da austeridade.