A República tecnológica

Neste artigo, Paulo Pena aborda a ideologia de um tecno-oligarca Alex Karp cuja empresa Palantir está a redefinir a vigilância no mundo ocidental. O capitalismo tardio erode todas as fronteiras, nomeadamente a privacidade.

É muito provável que a maioria dos cidadãos deste país (qualquer que ele seja) nunca tenha memorizado o nome de Alex Karp. E é ainda mais provável que sejam muito poucos os que conhecem a sua empresa Palantir, um nome que evoca a ficção de J.R.R. Tolkien. O que pensa o empresário e o que faz a sua empresa são enigmas ainda mais profundos que a nossa era da informação não tratou de resolver. 

O que não deixa de ser incomum… Alex Karp é o CEO mais bem pago dos Estados Unidos, com uma remuneração anual calculada pelo The New York Times, acima de 6,8 mil milhões de dólares, em 2024. A Palantir vale mais do que a Coca-Cola no índice S&P 500. Isso seria suficiente para fazer deste homem relativamente novo (nasceu em 1967, na Pensilvânia, EUA) uma celebridade nas nossas ubíquas redes sociais. O problema é outro: o nosso desconhecimento não resulta, sequer, da particular descrição de Karp. 

Além de ganhar mais do que Mark Zuckerberg ou Elon Musk, Karp lançou um livro em 2025 – The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West, ed. Penguin- que é o mais vendido nos EUA, e tem uma página própria com uma longa lista de citações elogiosas. Qualquer motor de busca mostra uma plêiade de imagens de um homem de caracóis desalinhados e grisalhos, vestido com casacos de esqui, a exercitar poses de tai chi, de braços abertos ou dedo apontado, em pose. 

Em qualquer pesquisa simples, Karp aparece descrito em detalhes íntimos. Um editor do The Guardian, Steve Rose, descreve-o como “obcecado por fitness, especialmente tai chi (é conhecido por dar aulas para funcionários) e esqui todo-o-terreno (costuma usar o equipamento no dia a dia) e tem um grupo de guarda-costas super em forma, a maioria noruegueses (…) Possui cerca de 20 casas em todo o mundo, muitas das quais são aparentemente cabanas de esqui com pouca mobília. Não é casado e não tem filhos, mas é descrito como “geograficamente monogâmico” – tem duas parceiras simultâneas em diferentes partes do mundo”.

Cresceu em Filadélfia, numa família de esquerda, o pai era pediatra, judeu, e a mãe artista plástica afro-americana. Como em qualquer enredo de ficção, Karp tinha um problema e ao resolvê-lo encontrou uma poção mágica. Ele mesmo detalha a história numa entrevista à Wired: “Fizeram-me um teste de QI para o programa de superdotados. Os meus pais nunca se preocuparam em dizer-me para tirar só notas máximas. Mas quando a responsável, a Sra. Snyder, recebeu o resultado do meu teste de QI, disse-me: “É evidente que és disléxico, mas alguém com o teu QI não pode tirar notas médias, tens de tirar só notas máximas.” Foi aí que passei de um aluno bom para um aluno excepcional. Ela mudou a minha vida.”

Ao seu biógrafo, Karp foi coloquial: a dislexia “fodeu-me mas deu-me asas para voar”. E não era esse o único diagnóstico médico que o prendia ao chão. Havia ainda a “perturbação de hiperatividade e déficit de atenção”, que Karp controla com o tai chi, uma terapia que usa para socializar com os seus funcionários da Palantir.

A história oficial, contada pelos seus “estenógrafos da imprensa” – adjetivo que Michael Elbi, na The Nation, dedica aos jornalistas do The New York Times e do Wall Street Journal que escrevem sobre Karp – prossegue na Universidade de Stanford. Aí, no curso de Direito, Karp torna-se amigo de um outro jovem, Peter Thiel. É uma história perfeita: dois jovens sobredotados, um de esquerda, outro de direita, juntam-se para fundar uma empresa. 

Deram-lhe o nome das bolas de cristal, indestrutíveis, que Tolkien imaginou para a sua ficção (Senhor dos Anéis, Silmarillion): Palantir. Nessas bolas, além de saber o que se passa longe da vista, prever o futuro, e também manipulá-lo, Tolkien criou uma metáfora sobre a propaganda.

Thiel e Karp também o fizeram, em 2004, prevendo a importância que teriam os dados gigantescos, recolhidos pelos Estados e pelo crescente número de empresas tecnológicas, num mundo moldado pela segurança e pela vigilância. A empresa nasceu pouco depois do início da “guerra ao terror” – um nome em si mesmo Tolkieniano, três anos após os atentados do 11 de Setembro. 

Entretanto, Thiel (que é aparentemente exímio a escolher parceiros jovens para negócios de futuro) fundou a Pay Pall com Elon Musk. Karp, licenciado em Direito, escolheu um caminho menos óbvio: foi fazer um doutoramento em Teoria Social, na Universidade Goethe de Frankfurt, na Alemanha, onde esperava, sem êxito, vir a ser orientado por Jurgen Habermas. 

Segundo o seu biógrafo, Michael Steinberger (The Philosopher in the Valley), Karp queria, como judeu, “compreender como é que a Alemanha, um pilar da civilização europeia, tinha caído na barbárie”, nos anos 30 do século XX.  Numa entrevista que podemos ver no YouTube, Karp personaliza ainda mais o seu temor pelo totalitarismo: “Sempre pensei que, se o fascismo chegasse, eu seria a primeira ou a segunda pessoa a ser enforcada.”

Não foi esse o caso, como a história recente atesta. Nem Karp, nem a empresa que criou, foram vítimas da onda de “iliberalismo” que se instalou em vários países e continentes nos últimos anos. O próprio CEO da Palantir ironizou, recentemente, numa entrevista à estação de TV CNBC que “os tempos maus são incrivelmente bons” para o seu negócio.

Marc O’Connell sublinha esse ponto: “O valor das ações da empresa — cuja receita provém em grande parte de contratos governamentais para vigilância de dados e aplicação militar de inteligência artificial — está, pode-se dizer, negativamente indexado à paz e à liberdade da humanidade.”

O que a Palantir Technologies faz é difícil de descrever. “Defender o Ocidente” é o enunciado político. O seu projecto mais importante tem outro nome ficcional: Gothan. “Gotham é uma plataforma de investigação concebida para corpos policiais, agências de segurança nacional, departamentos de saúde pública e outros organismos estatais. O seu objetivo é, aparentemente, simples: recolher todos os dados de que uma agência já dispõe, decompor os seus componentes elementares e relacioná-los entre si. Gotham não é simplesmente uma base de dados. Recolhe informações fragmentadas, dispersas por vários organismos e armazenadas em formatos muito diversos, e transforma-as numa rede unificada e consultável”, descreve a investigadora Nicole M. Bennett. 

Ou, segundo detalha a The Nation, “vende software de análise de dados, por vezes personalizado, a praticamente todas as agências federais, estaduais e locais do país — os seus clientes atuais e antigos incluem agências de inteligência (CIA, NSA e FBI), ramos militares (Departamento de Defesa), autoridades policiais (ICE e vários departamentos de polícia locais), agências de supervisão financeira (IRS e SEC) e até mesmo órgãos de saúde pública (CDC, FDA e NIH), bem como a uma infinidade de regimes amigos de Washington no exterior, com contratos controversos em Israel, Ucrânia e Reino Unido”.

Em Maio, a NATO contratou àquela empresa “recursos de IA personalizados e de última geração (…) ferramentas necessárias no campo de batalha moderno para operar de forma eficaz e decisiva”. 

Segundo o biógrafo de Karp há, contudo, “algumas concepções fundamentalmente erradas sobre o trabalho que realizam”. “Eles não recolhem os dados, não armazenam os dados; eles fornecem software que ajuda empresas e organizações a fazerem melhor uso dos seus próprios dados. Se estão a ocorrer abusos de dados com o software da Palantir, não é porque a Palantir está a fazê-lo, é porque os clientes estão a fazê-lo”, argumentou Steinberger ao The Guardian

Um exemplo hipotético: a Palantir fornece os seus serviços ao ICE (serviço de Imigração e Fronteiras, dos EUA), tornando consultáveis, e conectadas, todas as bases de dados do governo, e a informação disponível em fontes abertas, como as redes sociais. Se alguém participa numa manifestação anti-ICE, tira fotografias, publica-as no Instagram, onde são identificáveis imigrantes sem-papéis, o sistema Gothan pode usar essas fotografias (tiradas com boas intenções) para ajudar a localizar os imigrantes e, com rapidez, levar o ICE a deter e expatriar esses imigrantes. A decisão “moral” de o fazer é do ICE. A Palantir só forneceu o software.

Tudo o que partilhamos nas redes sociais, para elogiar, denunciar, criticar ou tornar visível é usado por esta “bola de cristal” mágica que vende os seus serviços aos governos. A partir daí, todas as forças repressivas constroem perfis, identificam suspeitos, prevêm cumplicidades. Não acreditam? Um jornalista norueguês foi recentemente impedido de viajar para os EUA. Na embaixada, onde tentava tratar do visto, foi-lhe entregue um documento que dizia: “O acesso limitado ou a visibilidade reduzida da presença online podem ser interpretados como uma tentativa de evadir ou ocultar determinadas atividades”. Ou seja, uma presença publica nas redes digitais já é um critério de aferição da “integridade”.

Alex Karp nem sequer é um especialista em tecnologia (sê-lo-á em ontologia, como ironiza Steve Rose no Guardian). Mas as suas cartas aos investidores estão cheias de referências ilustrativas. Como esta, de Fevereiro de 2025: “Como escreveu Samuel Huntington, a ascensão do Ocidente não foi possível ‘pela superioridade das suas ideias, valores ou religião… mas sim pela sua superioridade na aplicação da violência organizada’. Ele continuou: ‘Os ocidentais muitas vezes esquecem esse facto; os não ocidentais nunca o esquecem’”.

A Palantir, lucra com um negócio que foi, até há bem pouco tempo, impopular nas outras empresas tecnológicas americanas – a guerra. E serve também um propósito maior ao seu criador: dar-lhe uma aura de “filósofo”. Karp quer demarcar-se moralmente da Google, Meta e restantes gigantes da Inteligência Artificial. O seu livro é apresentado dessa forma: “Silicon Valley perdeu o rumo. Uma geração de talentos foi desviada do caminho certo. E chegou a hora da verdade para o Ocidente.”

O “caminho certo” é claro, no livro: “A indústria de software deve reconstruir a sua relação com o governo e redirecionar os seus esforços e atenção para a construção de tecnologias e capacidades de inteligência artificial que irão abordar os desafios mais urgentes que enfrentamos coletivamente. A elite de engenheiros de Silicon Valley tem a obrigação de participar na defesa da nação e na articulação de um projeto nacional — o que é este país, quais são os nossos valores e o que defendemos”.

Esqueçamos, por um momento, que a Palantir usa toda a informação recolhida pelas outras tecnológicas que critica para munir polícias, exércitos e forças de controlo de emigração. A ideia de que Silicon Valley é dominado por uma cultura pacifista não resiste a qualquer exame rápido: Em junho, o exército dos EUA criou o seu Executive Innovation Corps para o qual nomeou como tenentes-coronéis na reserva os directores tecnológicos da Meta e da Open AI; a Meta, de Zuckerberg, anunciou em Maio passado um acordo com outra empresa militar inspirada em Tolkien, a Anduril, para “projetar, construir e colocar em campo uma gama de produtos XR [Realidade Estendida] integrados que proporcionam aos combatentes uma percepção aprimorada e permitem o controle intuitivo de plataformas autónomas no campo de batalha”; o CEO do Spotify, Daniel Ek, investiu 600 milhões de euros numa empresa de drones militares. O “pacifismo” dos líderes tecnológicos, que Karp critica, é uma ficção tão distópica como a Terra Média de Tolkien (só por curiosidade, há pelo menos nove empresas relevantes que devem o seu nome ao filólogo inglês, que viveu entre guerras, no século passado: Erebor, Mithril, Durin, Rivendell, Lembas, Valar e Sauron Systems são algumas delas).

Alex Karp é muito claro com aqueles que não desconfiam deste imaginário ficcional, erigido em nome de uma “República Tecnológica”. Na sua última mensagem aos investidores da Palantir escreveu: 

“Há um século, o poeta William Butler Yeats advertiu: ‘O falcão não consegue ouvir o falcoeiro; as coisas desmoronam-se; o centro não se mantém.’

Hoje, os Estados Unidos são o centro e devem manter-se.

A rejeição de qualquer sentido partilhado e definido de cultura comum, nesta nação e em outras, teve custos significativos.

Devemos, na verdade, precisamos, voltar a uma experiência nacional partilhada — um abraço à identidade comum que, por definição, propõe certas ideias, valores, cultura e modos de vida, excluindo outros.”

Na “República Tecnológica”, os pacifistas, que podem ver-se a si mesmos como hobbits simpáticos, para usar as personagens de Tolkien, são afinal os péssimos e feios orcs. E todos sabemos como a história acaba.