A resistência contra a insistência. Quando a “luta de classes” é só um santo e uma senha

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Artigo de Andrea Peniche e Hugo Monteiro


O mundo está assustador. Por todos os lados assistimos ao crescimento da extrema-direita, do populismo da “nova direita” e do fascismo. Perante este cenário, as baratas saem das suas frinchas e perfilam-se em busca de culpados. O momento é encarado como oportunidade para tentar reajustar a realidade à teoria, já que mexer na teoria não parece ser proposta válida. E a acusação sai em forma de disparo: a culpa é da esquerda, porque esta se tem dedicado às questões identitárias e abandonou a luta de classes!

Não é mero acaso que as diversas versões deste susto global que é a imposição da direita fascista desemboquem em algumas características comuns: sexismo e misoginia, racismo estrutural, negação ou recuo dos direitos LGBTQI. É que a direita em todo o mundo percebeu que a conquista do poder passa pela imposição de uma política de identidade sólida, central e hegemónica. Daí nasce a agenda conservadora e aí se engendram motivos e justificações para anulação da diversidade, perseguição e discursos de ódio que se aliam a privilégios de classe. Combater este estado de coisas é atacar o problema na sua totalidade. A esquerda tem cometido erros, o centro colapsou e a extrema direita tem emergido. No entanto, dizer que a esquerda abandonou a luta de classes e encontrar aí a justificação para o crescimento da direita ultra é não querer perceber o problema. Aí está uma lição a aprender: quem não percebe o problema não o consegue enfrentar.

As reais características de uma resistência efetiva, que se ergue contra o capitalismo como sistema que permitiu e deu entrada à negação das identidades e à exclusão das alternativas, é tudo aquilo que algumas vozes, alegadamente posicionadas à esquerda, escolheram não perceber. Preferimos pensar que quem acusa a esquerda de ter abandonado a luta de classes a favor das lutas identitárias não sabe do que fala, porque se pensarmos que sabe teremos de classificar essas pessoas de reacionárias e conservadoras. Só o lugar do privilégio permite pensamentos desta natureza. Dizer que a responsabilidade do crescimento da extrema-direita se deve ao facto das mulheres, das minorias étnicas, da população LGBTQI e de tantas outras pessoas que viviam – e ainda vivem – esmagadas terem conquistado direitos é uma forma de pensamento mesquinho ancorado no privilégio. Só tem tempo de esperar quem tem alguma coisa a perder, quem não tem nada a perder também não tem tempo para esperar, porque a proposta do futuro radioso só serve a esquerda passadista. O lado sem tempo a perder é o presente que reclama.

É, pois, estranha e empobrecedora esta forma de pensar a emancipação por etapas. Primeiro a luta de classes, depois virá o resto, não percebendo sequer que esta forma de pensar é ofensiva para quem se situa no lugar da subordinação. Pior, é uma forma empobrecida de perceber o capitalismo e a forma como este se estrutura. É preocupante que, no século XXI, haja ainda quem não tenha percebido que a proposta socialista é bem mais interessante do que a simples imaginação da sociedade sem classes. Quem não percebe o capitalismo como estruturalmente machista e racista anda equivocado. Quem não percebe que combater o capitalismo reclama o feminismo e o antirracismo nunca terá proposta política para o conjunto da sociedade. Quem não percebe que o feminismo também é anticapitalista e que o antirracismo é anti-imperialista mimetiza na sua análise dos movimentos sociais a forma simplista como vê o mundo. Mais, quem assim escolhe não entender não se apercebe sequer das mais interessantes forças de resistência que, em cada país e a cada investida extremista, se constituem como forças insurgentes. A resistência mais ruidosa e mais acutilante – até mais festiva, o que não é aqui questão de pormenor – faz-se nos movimentos sociais ou com os movimentos sociais, mas nunca sem eles ou contra eles. As mulheres, as pessoas racializadas e LGBTQI constituem-se como linha da frente numa batalha desigual contra o controlo à direita dos media, a desinformação e a instrumentalização política da ignorância.

Sublinhamos que nos movimentos sociais também há disputa política, também há relação de forças, e é nesse combate que a esquerda que não se envergonha de o ser, de se repensar a cada momento e de incluir no seu programa todas as formas de exploração e subordinação está empenhada. Não perceber que patriarcado, racismo e capitalismo são faces da mesma moeda é não perceber a proposta de intersecionalidade das lutas. Nós percebemos e por isso reafirmamos o nosso compromisso: a luta toda, nada menos do que isso.