Amazon, poder sindical e a #Striketober

texto de Gonçalo Pessa

Ilustração de João Alves


Um espectro ronda os Estados Unidos – o espectro da greve. O poder patronal tem-se aliado para o exorcizar. Contas feitas dá empate: o sindicalismo está a crescer, mas continua diminuto.

Nos últimos meses tem-se assistido a um crescimento notável da atividade sindical nos EUA. 2018 e 2019 já tinham sido anos em que o número de trabalhadores em greve atingiu níveis que não se viam desde os anos 80. Este ano o poder do trabalho continua a aumentar, tendo havido já 1000 greves, piquetes e manifestações de trabalhadores desde o início do ano, segundo o Labor Action tracker.

De entre estas manifestações de trabalhadores, a que ganhou mais notoriedade nacional foi a dos trabalhadores dos armazéns da Amazon. Ainda durante a primavera em Bessemer, Alabama, estes trabalhadores procuraram ganhar representação sindical nos armazéns em que trabalham. Nos EUA, para que trabalhadores sejam representados por um sindicato em processos de negociação coletiva com um empregador, têm primeiro de ter eleições organizadas pelo National Labor Relations Board. Se conseguirem cumprir os requisitos para que haja eleições, e houver uma maioria simples de trabalhadores que vote a favor da representação sindical, a lei determina que os empregadores têm de negociar em “boa fé” com o sindicato. Foi este processo que os trabalhadores da Amazon protagonizaram em Bessemer.

A Amazon é conhecida por ser má empregadora e lidar mal com o sindicalismo. Num extenso artigo para o New York Times[1], David Streittfel documenta despedimentos de sindicalistas, contratação de ex-agentes do FBI para vigiar funcionários, ameaças. Em Bessemer, a Amazon foi longe ao ponto de usar o seu poder de influência sobre as autoridades locais e conseguir aumentar o período de tempo em que os semáforos, à saída dos seus armazéns, estavam no verde. Isto para poderem esvaziar os parques de estacionamento mais rapidamente e reduzir o tempo de contacto entre trabalhadores e campanha sindical.

A campanha de repressão sindical da Amazon foi feia ao ponto de o Presidente Biden intervir. Fê-lo através de um vídeo publicado pela Casa Branca no Youtube, com a legenda “Trabalhadores no Alabama – e em todos os EUA – estão a votar sobre se pretendem organizar um sindicato nos seus locais de trabalho. É uma escolha de importância maior, uma escolha que deve ser feita sem intimidações ou ameaças dos patrões”. Nesse vídeo, Biden encoraja os trabalhadores a sindicalizarem-se, sublinhando a vontade da sua administração em apoiar a organização destes sindicatos. Biden parece não ir além da declaração de intenções, mas não deixam de ser declarações surpreendentes para a figura maior de um estado que montou uma guerra aos sindicatos desde a época de Reagan.

Apesar da derrota do movimento dos trabalhadores em março, no Alabama, o crescimento da força sindical não parou e culminou numa onda grevista em setembro e outubro deste ano. Esta onda grevista, apelidada de #striketober (aglutinação das palavras greve e outubro), tem trazido o poder da greve de volta ao ideário popular, recebendo apoio dos congressistas à esquerda e de personalidades da cultura pop.  Em meados de outubro, 10 mil trabalhadores da empresa de tratores e produtos agrícolas John Deere entraram em greve no Illinois, Iowa e Kansas. Estes trabalhadores, que estão em greve pela primeira vez em 35 anos, fazem-no “por um salário que lhes permita uma vida decente, uma reforma digna e regras de trabalho justas”, declarou em comunicado um dos sindicalistas envolvidos[2]. Outros 24 mil trabalhadores da rede hospitalar Kaiser Permanente estão em greve desde no início do mês, assim como 1400 o estão na Kellog’s. Também na indústria audiovisual de Hollywood 61 mil trabalhadores estiveram à beira da greve, evitada por concessões de última hora dos empregadores. A lista de greves em curso é longa e inclui mineiros, professores e operários fabris.

Parece, portanto, que os esforços de empregadores como a Amazon para esmagar o crescimento do sindicalismo não têm surtido efeito? Sim, e não. De facto, a atividade sindical tem crescido nos EUA e a onda de greves é dos factos políticos mais inspiradores dos últimos tempos. Mas continua tudo por fazer. Nos EUA apenas 1 em cada 10 trabalhadores é sindicalizado, das taxas de sindicalização mais baixas da OCDE. Falta, portanto, usar esta onda de entusiasmo sindical e grevista para organizar a classe trabalhadora em movimento sindical de massas. A resistência dos trabalhadores da Amazon é inspiradora, a #striketober diz-nos que o contexto orgânico é de avanços. Falta agora ao movimento laboral organizar os restantes 9 trabalhadores em cada 10.

 

 

 

[1] https://www.nytimes.com/2021/03/16/technology/amazon-unions-virginia.html

[2] https://uaw.org/uaw-members-john-deere-strike-improved-standard-living-retirement-benefits-better-work-environment/