Antifascismo: vimos de longe, vamos para longe

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Artigo de António Figueira e Sofia Lopes, ativistas estudantis.


A história nunca se repete, a não ser como comédia ou como tragédia. As crises do capitalismo sucedem-se, mas são diferentes umas das outras, pois nenhuma crise repete as circunstâncias histórias da crise que a sucedeu. Felizmente, podemos contar com o apoio da memória: o povo sabe bem o que é o fascismo, apesar da desmemória que o neoliberalismo implica e compele.

Mas a história ensina-nos também que a atualidade tem algumas parecenças com a primeira crise do sistema liberal na transição do século XIX para o século XX, que terminou com o início do período dos fascismos. Encontramo-nos numa nova crise sistémica que ameaça as taxas de acumulação e de lucro do capital, obrigando a uma mudança de estratégia do capitalismo no sentido da sua recuperação, uma ofensiva apresentada com características neoliberais e autoritárias. Vemos então, progressivamente, o fomento do desemprego, o fomento da precarização do trabalho, o aumento do trabalho não pago, enfim, uma grande ofensiva orquestrada contra os direitos do trabalho. Na época dos fascismos vimos que esta ofensiva criou as condições perfeitas para o casamento de duas realidades muito diferentes, um ponto de encontro e compromisso dos setores das classes dominantes que se fascistizavam e os movimentos fascistas populares – o fascismo conservador e o fascismo plebeu. 

Esta análise histórica pode-nos ajudar a traçar caminhos e a equacionar o problema, o primeiro passo necessário para o começar a resolver. Ainda hoje, seria um erro pensar no fascismo como apenas uma resposta das elites a uma ameaça revolucionária, mas também como uma expressão desesperada de uma crise de alternativa ao atual estado a que isto chegou (lembrando Salgueiro Maia). Este ataque violento do grande capital cria diversas crises: uma crise de legitimidade e representatividade, uma crise do sistema partidário e uma crise de adequação do Estado. Faz-nos questionar os nossos valores e tenta-nos a procurar outros caminhos, acreditando, timidamente, que podem conter a resolução dos nossos problemas. Com isto vem o medo, o machismo, a xenofobia, o racismo, o antissocialismo e a antidemocracia, resultados diretos da individualização dos problemas que resultam das crises sistémicas, e do incentivo à divisão e falta de solidariedade entre classes oprimidas.

A resolução do problema pode muito bem começar com esta reflexão. Compreender a relação siamesa que o neoliberalismo tem com o novo populismo de extrema-direita, repensar e lutar contra as prioridades atuais do capital financeiro e aprender muito com a realidade dura que a história nos pode ensinar. A urgência desta luta tem que se refletir na criação de movimento social, que pode e deve impulsionar uma oposição forte às crescentes discriminações sociais, de classe, sexuais e raciais. E os nossos representantes no parlamentarismo liberal devem puxar esta agenda antifascista, unindo-se com os nossos aliados da restante esquerda socialista. A ação política conjunta e a relação entre o movimento social e o partido deve, portanto, ser reforçada e sublinhada. 

Resta-nos, então, uma reflexão acerca daquilo que nos ameaça e um motim contra aquilo que nos restringe. Porque urge, da fossa que o neoliberalismo criou no Estado Social e da qual renascem os fascismos de outro século, a necessidade de criar uma frente que se firma nos diferentes campos da sociedade e na qual depositamos o aprendizado de outras lutas. Resta-nos um impulso do movimento social, que surja das bases e que se alicerce nos projetos políticos que construímos e nos quais acreditamos. Resta-nos aprender com a luta feminista, com a luta antirracista, com a luta LGBTQ+ e com a alternativa anti-capitalista que o movimento climático desenha nas ruas e nos espaços de debate. Que a luta anti-fascista seja não só a irreverência do movimento LGBTQ+, mas também o ímpeto das mulheres feministas, o fulgor da luta antirracista a rejuvenescência do movimento climático. A luta antifascista vai ser o ponto de convergência de tudo isto. Um grito de mudança que não deixa ninguém para trás, pronto para fazer a luta toda.