Arco-íris em Bragança

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Artigo de Sara Canteiro.

O movimento LGTIQ de Bragança nasceu a 8 de março de 2017.

O objetivo do nosso movimento – que na altura se chamava grupo LGBT do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) – era, além de partilhar vivências e conversar sobre temáticas LGBT, passar a mensagem de que já havia em Bragança um espaço seguro onde as pessoas podiam falar sem medo sobre estas temáticas e, através da troca de ideias, se construísse a compreensão em relação a si mesmo e aos outros. O nome mudou para Movimento LGBTIQ de Bragança, porque sentimos que não estávamos a incluir as pessoas que não eram do IPB. Começámos com cerca de vinte pessoas, sendo a maior parte estudantes de Erasmus/Mobilidade Internacional. Quando estes, aos poucos, começaram a ir embora, o grupo começou a diminuir, e ficámos as sete pessoas que hoje se mantêm. Foi ainda em 2017 que a ideia de fazer uma Marcha do Orgulho surgiu. Numa conversa/debate à volta de uma peça de teatro sobre questões de género – Rosa para Eles e Azul para Elas –, um ativista do Braga Fora do Armário propôs a realização da Marcha. A partir daí começaram os planos para o grande dia.

É preciso o “caos”, para depois reconstruir

Todo o processo foi cheio de obstáculos. Ora faltavam os meios, ora tínhamos de ouvir vezes sem conta a voz do Adamastor a dizer que «não há necessidade de fazer uma marcha em Bragança», para não falar no tumulto político que esta decisão originou na cidade. Mas as solidariedades marcaram presença: IPB, coletivos feministas, Partido Socialista e Bloco de Esquerda. Sem a rede de solidariedade, nada disto tinha sido possível.

Muito se falou desta marcha, muitas vezes acusando-nos de que estávamos a transmitir a ideia de que Bragança é uma cidade conservadora e horrível. Não, Bragança é uma cidade linda, cheia de pessoas simpáticas e disponíveis para o outro. Mas não é diferente das outras cidades: há preconceito, há necessidade de trabalhar as temáticas LGBT, de género e de expressão de género. É possível melhorar? Claro que sim! É necessário – e defendo sempre esta ideia – desconstruir, informar as pessoas, visibilizar a comunidade LGBT ou outras pessoas que tenham uma expressão de género diferente. Bragança não é uma “aldeia” pouco desenvolvida como muitas pessoas, que não a conhecem, pensam. Bragança é uma cidade do interior com todos os problemas que resultam das políticas de desenvolvimento centradas no litoral. Se pesquisarmos a palavra “gay” na internet, além de aparecerem as últimas declarações do Papa Francisco, aparecem também muitas coisas “esquisitas”. Qual deve ser a nossa atitude? Deixar o preconceito à solta ou intervir através do debate e da disputa de ideias? Seremos nós capazes de quebrar todos os preconceitos e mudar mentalidades? Não conseguiremos tudo de uma vez, mas vamos fazendo caminho e isso é muito importante, porque, muitas vezes o preconceito tem origem no desconhecido. A 1ª Marcha LGBTIQ de Bragança foi, na minha opinião, o primeiro passo para que agora, depois do “caos”, se possa intervir mais ao nível educacional, desconstruindo preconceitos.

A organização da 1ª Marcha foi uma luta não só do Movimento, mas também uma luta minha muito pessoal. Primeiro, porque esta seria a minha primeira Marcha, nunca tinha participado em nenhuma e a primeira iria ser precisamente aquela em que estava envolvida na organização. Segundo, porque há em Bragança muitas pessoas que precisavam deste apoio, deste reconhecimento, pois, mesmo que não tenham vindo vencido os medos, estas pessoas existem e é preciso que sejam ouvidas. Por essa razão decidi dar a cara por elas. Terceiro, porque, sendo a primeira, era importante que corresse tudo bem, para que a mensagem certa fosse passada, e que tivesse ativistas suficientes, para que as pessoas da cidade soubessem que isto não era uma ideia de meia dúzia de pessoas, mas que correspondia a uma reivindicação importante. E fomos 200 pessoas a marchar naquele lindo e magnífico 19 de maio!

Quando chegou o grande dia, além de toda a correria habitual ligada à realização de um evento, muito mais com esta importância, era visível uma alegria nas pessoas que, juntamente comigo, foram protagonistas deste dia histórico.

Quando as pessoas começaram a chegar, comecei a perceber que, se calhar, a meta de 100 participantes que tinha estabelecido para mim mesma poderia ser ultrapassada. E as pessoas não paravam de chegar! Eram tantas as bandeiras, as pancartas e os megafones que percebi que íamos fazer história. Quando iniciámos o percurso da Marcha, muitas mais pessoas se juntaram, e a minha alegria foi imensa quando, passados 5 ou 10 minutos do seu início, percebi que não éramos 10, nem 50, nem 100, nem 150, mas aproximadamente 200 pessoas!

Ao contrário da adversidade – ou até de uma contramanifestação – para a qual me tinha preparado psicologicamente, a reação foi totalmente oposta. Ao passar nas ruas, eram-nos lançados beijos das varandas, as pessoas saudavam-nos e quando gritávamos «Sai do passeio e vem para o nosso meio» as pessoas vieram mesmo! Tudo isto misturado com bandeiras arco-íris, muitas palavras de ordem, muitas pessoas a reivindicar e a dar força às ideias e propostas que eu e outras pessoas de outros coletivos lançavam. Foi simplesmente lindo! Não houve nenhum problema nem hostilidade, e no fim da Marcha seguimos para o Sarau nos jardins do Museu Abade de Baçal, onde aconteceu uma maravilhosa e poderosa atuação transformista de Candice, a que se seguiram Fados Bicha.

Ainda hoje não tenho palavras que consigam descrever a emoção vivida nesta 1ª Marcha LGBTIQ de Bragança. Creio que tão cedo as pessoas não esquecerão este dia. Eu nunca me esquecerei. O 19 de maio de 2018 é para nós um marco histórico, marca o dia da primeira de muitas Marchas em Bragança. O trabalho vai continuar, mas vai continuar com ânimo reforçado.

Como dissemos no Manifesto, Marchamos por todos aqueles que não o podem fazer. Marchamos por nós e por todos aqueles que já marcharam, para que hoje pudéssemos estar aqui.

Marchamos por nós e por todos aqueles que morreram ao fazê-lo.