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Artigo de Luís Leiria.


As mobilizações gigantes que tomaram conta da Argélia estão a mudar a sua história. Obtiveram uma primeira vitória, mas o cambaleante regime de Bouteflika ainda não caiu.

Abdelaziz Bouteflika e Djamila Bouhired têm, respetivamente, 82 e 83 anos e representam a geração de jovens militantes que venceram a guerra anticolonial contra a França e conquistaram a independência da Argélia. Ambos eram jovens quadros da Frente de Libertação Nacional (FLN). Djamila foi presa e condenada à morte sob a acusação de executar um atentado à bomba num café francês em Argel. Uma campanha internacional salvou-lhe a vida e em 1962, ano da independência da Argélia, foi libertada da prisão francesa onde cumpria pena. Já Bouteflika ficaria famoso pela sua pertença ao “clã de Oujda”, uma fação da FLN que assumiria plenos poderes na nova Argélia independente através de um golpe de Estado desferido por Houari Boumedienne.

Hoje, Bouteflika ocupa a Presidência da República. Está no cargo há 20 anos. Desde 2013, quando foi vítima de um acidente vascular cerebral, nunca mais falou em público. As suas aparições, sempre na TV, onde aparece amarrado a uma cadeira de rodas, são fugazes. Um famoso diplomata, que o encontrou recentemente, disse dele: “É verdade que a sua voz é fraca, não lhe permitindo fazer um discurso na televisão ou em público, mas ele reencontrou 100% das suas capacidades intelectuais”. Um site humorístico anunciou: “O presidente perdeu a voz, mas comunicará com o povo através do pensamento”. E acrescentou: “Não é por isso de excluir que os argelinos venham a sentir bizarras sensações na cabeça. Será provavelmente uma nova mensagem à nação que o presidente nos terá dirigido via pensamento”.

Já Djamila Bouhired está ao lado dos jovens que inesperadamente, no dia 22 de fevereiro, tomaram as ruas em manifestações organizadas pela internet para dizer que não aceitavam que aquele morto-vivo que preside o país se candidatasse a um quinto mandato, como era a sua intenção. “Os nossos sonhos não entram nas vossas urnas.”

A partir desse dia, uma onda de mobilizações em todo o território não parou de crescer. Já se contam pelos milhões de participantes, sempre bem-humoradas, criativas, pacíficas. Tão pacíficas que há relatos de mães que levam os bebés, dormindo tranquilos, às manifs. As palavras de ordem por vezes ecoam o Maio de 68 francês: “Os nossos sonhos não entram nas vossas urnas”; “Devolve-me a minha liberdade, peço-te com gentileza”; “Revoltar-se é manter-se vivo”; “Now loading, 2ª República”; “Boutef, game over, Algeria free”. Até que no último dia 11 de março, Bouteflika, que voltara na véspera da Suíça, para onde tinha ido para atendimento médico, anunciou a desistência de se candidatar a um quinto mandato, cedendo à principal exigência das ruas. Porém, anunciou também o adiamento das eleições presidenciais, previstas para 18 de abril, prolongando o seu próprio mandato, e que até o fim do ano se realizará uma Conferência (não eleita) para aprovar uma nova Constituição. Uma espécie de minigolpe de Estado, como o apelidaram alguns analistas.

“Boutef não passa de uma fachada”

Se a intenção era acalmar os manifestantes, o resultado foi o oposto: no dia 15 de março, as manifestações foram ainda maiores e o povo nas ruas respondeu: “Tu prolongas o mandato, nós prolongamos o combate!”, e também: “Boutef não passa de uma fachada, exigimos a saída de todos os atores e cúmplices desta mascarada!”

Já lhe chamaram a revolução do sorriso. Ela está a chegar a um momento decisivo. Numa carta aberta dirigida aos manifestantes, reproduzida no jornal El Watan, Djamila Bouhired exortou os jovens a não deixarem que a revolução lhes seja arrancada das mãos por manipuladores ao serviço do regime. “Em poucas semanas, vocês revelaram ao mundo, surpreendido, o que o povo argelino tinha de mais belo, de maior, apesar de décadas de opressão para vos impor o silêncio”, escreveu. Denunciou também o papel da França e do presidente Macron neste episódio: “Último sinal revelador das ligações perversas de dominação neocolonial, o apoio do presidente francês ao golpe de Estado programado pelo seu homólogo argelino é uma agressão contra o povo argelino, contra as suas aspirações à liberdade e à dignidade.” E concluiu: “Cabe-vos, e só a vós que lutais no dia a dia, designar os vossos representantes por vias democráticas e numa total transparência.”