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Artigo de Luís Leiria.


É cedo para dizer, mas de Buenos Aires chegaram boas notícias. O presidente Maurício Macri foi fragorosamente derrotado nas eleições primárias da Argentina. As sondagens já previam a derrota, por uma margem muito pequena: 3% ou 4%. Mas, contados os votos, 16 pontos percentuais separaram Macri do vencedor, Alberto Fernández, que tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner. Uma palavra também para o bom resultado da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT) que, apesar da polarização enorme, obteve 3% dos votos e pode ampliar a bancada parlamentar em outubro.

Depois de os eleitores se terem manifestado, os “mercados” votaram no dia seguinte: o peso argentino caiu 25,3% em relação ao dólar e a Bolsa de Valores desmoronou 37%. Era o sistema financeiro “votando” contra a mais que certa possibilidade de Alberto Fernández ser o próximo presidente da Argentina.

Um Macri raivoso pela derrota acusou os eleitores de Alberto Fernández de serem os responsáveis por mais um escorregão da economia argentina em direção ao abismo. No dia seguinte arrependeu-se, pediu desculpas pelo seu descontrole e anunciou um conjunto de medidas destinado a minorar as perdas provocadas pela desvalorização. É que a campanha eleitoral continua. As eleições são só no dia 27 de outubro.

 

Originalidade

É uma das mais estranhas originalidades do processo eleitoral argentino. O que ocorreu no dia 11 de agosto foram as PASO (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias), que antecedem as eleições “reais”, digamos assim. Dizer que as outras são as reais, não quer dizer que estas não tenham importância nenhuma. No dia 11, por exemplo, votaram cerca de 75% dos eleitores, o que é uma prova de como são levadas a sério.

As PASO foram instituídas em 2009 e têm como primeiro objetivo filtrar os partidos que podem concorrer às eleições: os que não conseguirem pelo menos 1,5% nas primárias ficam de fora. Por outro lado, permitem que sejam os eleitores a dirimir diferenças internas, quando, por exemplo, há dois ou mais precandidatos do mesmo partido a um cargo.

À primeira vista, parece uma boa ideia, mas os resultados práticos neste processo eleitoral são muito complicados. Ninguém acredita que daqui até 27 de outubro o neoliberal Macri possa recuperar 16 pontos de desvantagem em relação ao peronista Fernández. Logo, Macri fica a chefiar um governo zombie. Aliás, o ministro das Finanças, Nicolás Dujovne, demitiu-se uma semana depois das primárias. Convenhamos que seria preciso muito espírito de sacrifício para continuar a aplicar uma política condenada pelos eleitores e no contexto do agravamento da crise. Mas se o governo pouco pode governar, o vencedor das primárias não pode assumir. Tem de prosseguir a campanha eleitoral para 27 de outubro.

 

35% de pobreza

Se a situação económica fosse pelo menos estável, esta situação estranha poderia até decorrer com tranquilidade. Mas a economia está em crise há anos e Macri e a sua ortodoxia neoliberal têm toda a responsabilidade sobre a catástrofe que se abateu sobre o país e que levou à intervenção do FMI e um empréstimo de 57.000 milhões de dólares com as condições habituais que todos conhecemos. O resultado é que hoje a dívida pública beira perigosamente os 100% do PIB, a inflação é de 50%, os juros de referência mais de 70% e o índice de pobreza já alcança os 35%. E o fantasma do default da dívida é mais que presente.

A derrota de Macri poderá, se se confirmar, ser um sinal de que a onda conservadora que varreu o sul do continente começa a refluir. Ainda é cedo para o afirmar, mas a experiência deste presidente querido pelos Estados Unidos mostra que os neoliberais não aprenderam nada. Bolsonaro, que tem consciência da importância do país vizinho, já invetivou “essa esquerdalha” que pode voltar na Argentina. Bom sinal.