Lá está o Chega como segundo maior partido, não em número de votos mas em número de assentos da Assembleia da República. E apenas seis anos depois da sua fundação. A indignação de quem trabalha em Portugal fez-se expressar nas urnas de voto, apesar das esperanças que anteviam a desmobilização do seu voto ou a indignação com os casos criminais que assombraram a bancada da extrema-direita.
Em outubro de 2022, já durante a maioria absoluta de António Costa, escrevia-se no editorial do número 54 da revista que o descontentamento com a política centrista de deixar andar no meio do caos social e económico levava ao crescimento da extrema-direita numa rima com o famoso verso de Yeats: “As coisas desmoronam-se / o centro não se aguenta”.
Não foi futurologia, apenas uma constatação das condições objetivas dessa altura, e das consequências da forma de governar do Partido Socialista. Mas foi o caminho que nos trouxe onde hoje estamos. A economia vai crescendo a contrarritmo da Europa, mas já se começam a sentir os primeiros efeitos da crise no eixo Paris-Berlim. É o caso do encerramento da fábrica da Gabor, por exemplo. Do outro lado do espelho, arrendar ou comprar casa torna-se uma dificuldade crescente para a maior parte das pessoas que trabalham em Portugal, e as crises de custo de vida ajudam a somar à base social do Chega.
Porque é que a esquerda anticapitalista não consegue capitalizar esse descontentamento, e porque é que tem o seu pior resultado de sempre? É uma questão a que importa responder, mas não a que concerne este texto. Interessa mais aqui perceber a inaptidão política da resposta do centro ao crescimento da extrema-direita.
Na verdade, inaptidão não é uma palavra que possa ser usada para descrever António Costa. E foi mesmo ele que polarizou com o Chega para garantir uma maioria absoluta e afastar o Partido Social Democrata do poder. Enquanto fazia isso, dava protagonismo a André Ventura e um lugar de destaque na política portuguesa que foi amplamente reforçados pelos órgãos de comunicação social. Sabia o que estava a fazer e fê-lo bem, mas certamente sabia também que estava a criar a oposição de extrema-direita ao centro.
Já depois das eleições, Alexandra Leitão escreve na plataforma Em Causa que o Partido Socialista corre o risco de se tornar irrelevante “face a uma bipolarização entre o outro partido moderado e o partido de extrema-direita”. É um risco real e análise é acertada. E foi precisamente essa polarização que António Costa utilizou para tornar o Partido Social Democrata irrelevante durante anos e continuar a governar sem rumo, procurando fazer pequenos ajustes, mas ignorando sempre a crise social que se construia.
Nesse artigo, com o título Como responder ao crescimento da extrema-direita em Portugal,a ex-ministra do Partido Socialista acerta novamente no perigo que a maioria de direita representa para o país e esboça o cenário de descontentamento com o centro.
A desertificação do interior, a falta de oportunidade de emprego, a falência dos serviços públicos, o país de baixos salários e uma anomia social crescente. Essa descrição podia quase ser aquela observação astuta de John Steinbeck sobre a América da Grande Depressão que termina com um aviso. “Nas almas das pessoas, as vinhas da ira estão a crescer e a tornar-se pesadas, pesadas para a vindima”, dizia há quase um século o escritor.
Mas apesar dos tiros certeiros a construir as premissas, é na conclusão que o argumento de Alexandra Leitão se torna frágil. A ex-ministra do Partido Socialista pede um rol de medidas que poderiam ter saído dos programas dos partidos da esquerda. Justiça social, reforço do Estado, regulação do mercado, mais direitos para os trabalhadores, uma nova política fiscal redistributiva, medidas progressistas para os direitos individuais, política de combate às alterações climáticas.
Só que essas medidas esbarram na realidade do que foi o programa do Partido Socialista para as eleições legislativas deste ano. Regular o mercado é um bom slogan, mas na habitação o Partido Socialista manteve-se com a mesma política de António Costa: financiar a construção, garantir apoios às famílias que são comidos pelos aumentos das rendas no mercado, manter os benefícios fiscais à especulação.
Na saúde, no trabalho e na justiça social e fiscal, o mesmo fio condutor vai dando forma às propostas. Uma leve inclinação para a esquerda face ao Partido Social Democrata, mas não um compromisso certo com a resolução dos problemas.
É mesmo o contraste entre o artigo de Alexandra Leitão e o programa do Partido Socialista que levanta a questão fundamental para a inaptidão que o centro tem em resolver a crise social e estancar a extrema-direita. Pode-se resolver o problema estrutural do sistema estando dentro dele?
E responde-se com uma pergunta: pode alguém ser quem não é? Não se resolvem os problemas do Serviço Nacional de Saúde enquanto se tenta agradar os donos dos grupos privados de saúde, e não se resolve a crise de habitação sem cortar os benefícios fiscais aos especuladores. As coisas estão ligadas numa dinâmica incontornável: para alguém sofrer, outro tem de explorar.
Mas aqui retornamos inevitavelmente ao aviso que a dirigente do Partido Socialista coloca. Na sua condição atual, o Partido Socialista já se tornou irrelevante. Não face a uma bipolarização maquiavélica na qual está subjugado pela sua relação de forças com o Partido Social Democrata, mas na sua capacidade de atacar a crise da social-democracia, de garantir uma boa vida a quem vive e trabalha em Portugal.
Noutros países, a esquerda está a fazê-lo. Basta olhar para o México ou para o Uruguai. Mas não se pode viver da retórica e da boa vontade, nem ter o melhor dos dois mundos. Ou se está comprometido com uma governação para as pessoas, ou se prefere governar por remendos. Pela última, os partidos socialistas da Europa estão a cair na sua espada, e o Partido Socialista é só a mais recente vítima.