As linhas da Lei

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Artigo de Miguel Bordalo.

Um dia destes fui a Sintra, não é habitual da minha parte, não tenho nada que fazer em Sintra, a não ser as vezes em que quero ir surfar cheio de stress e mais um par de aflições com a quantidade de gente que vai também para a Praia Grande. Já fui apanhado a surfar na Praia das Maçãs mas já foi há tanto tempo que eu nem me lembro bem se era uma esquerda, uma direita ou uma onda para trás, sei que havia um pão com chouriço, mas não era o da Celeste a caminho da Ericeira. Se querem um bom pão com chouriço, ou só um bom pão sem chouriço, é o melhor pão “com chouriço e sem” feito em Portugal talvez no mundo. É feito numa roulote numa localidade chamada Baleia. Acho que nunca tinha escrito roulote. Que palavra tão feia. Não escrevo mais.

Isto tudo para dizer que já lá fui… uma vez lembro-me de ter ido filmar um concerto de música clássica à Quinta Regaleira, de um casal chamado Duo Contrasti. Já lá fui, mas não tenho a certeza se alguma vez fui ao Castelo da Pena. A idade já me dá para confundir alguma fantasia com realidade. Eu não tenho por costume tirar fotografias para registar isto ou aquilo. De alguma maneira tira-me do momento aquela paragem “para a fotografia”, nunca gostei de ser fotografado, e se é para tirar fotografias é “para sair de casa para tirar fotografias”. Também o faço, é raro, mas acontece. Nos dias que correm é mais sair de casa para “tirar planos”.

Não sei se já fui enfadonho o suficiente tenho esta maneira de escrever, acho que se descreve “maneira estúpida de escrever”. Pronto juro que foram as últimas aspas.

Isto tudo para dizer que um dia fui convidado a escrever um guião para um documentário. Para um documentário? Um guião? Mas que raio. É verdade. Sentei-me na mesa com o realizador. Não coloquei aspas na palavra realizador porque já as esgotei nesta crónica, senão punha as maiores aspas até agora, umas aspas em bold, o tamanho o dobro das normais. De um lado da mesa eu e o meu sócio na altura, com quem eu me aventurava em várias coisas, inclusive guiões para documentários, do outro, o realizador… ai as aspas… e agora estou a esgotar as reticências… Ai! Bom, sentado numa mesa de escritório estava de um lado eu e o meu sócio, e do outro o realizador, o seu súbdito, e ao lado o filho porque  é importante manter a oligarquia nas empresas de realizadores.

– Miguel, quero fazer um documentário sobre Sintra. Queria começar por filmar as escadas da regaleira como o Hitchcock filmou aquele plano na Janela Indiscreta. – Sim o realizador não sabia o nome do filme do Hitchcock que basicamente dá o nome ao plano. – Aquele em que se mexe o zoom e o foco ao mesmo tempo.

– Sei, mas isso não costuma ser para dar atenção a um momento de intensidade grande com um sujeito que descobre qualquer coisa ou está assustado por alguma razão. Esse plano tem um objectivo.

– Sim! Eu.

– O Michael Moore da Regaleira!

Saiu assim em jeito de piada. O realizador não gostou. Não era tempo de piadas. Seria então sobre o quê, o filme em Sintra? Sobre o realizador a passear nas quintas e nos palácios?

– Linhas Ley.

– Linhas da lei?

– Não. Linhas ley.

– O que são linhas lei?

– Isso é o que vais descobrir e escrever um guião para um documentário sobre linhas Ley. Daqui a duas semanas vemo-nos aqui, com uma equipa maior. Há uma linha Ley a passar em Sintra, é por isso que aquele lugar é tão místico.

Foda-se. Trabalho de casa. Que raio é que era uma linha Ley? Místico? Eu sou provavelmente o tipo mais filosoficamente materialista que este mundo alguma vez despejou nele próprio. Cheguei a casa com uma certa curiosidade. O que eu descobri foi onde aquele pessoal que faz manifestações pela liberdade do covid, e anti vacina, passa os seus tempos livres mais calminhos, quando querem só passar o tempo sem tentar matar uma porção significativa da população. O hobbie mais ou menos como a terra plana, mas para esse pessoal naturalista e miiiiistico.

Passadas duas semanas naquele escritório novamente, numa mesa onde se encontravam 10 pessoas, todos esperavam o realizador, que se sentava à cabeceira. Eu olhava para o ar onde uma mosca pairava pelo silêncio, ou entre piadinhas fracas sobre o Benfica ou o Sporting. Confesso que estava entusiasmado com a minha apresentação, tinha lido o suficiente sobre linhas Ley, tinha escrito um guião de acordo com a importância que a matéria necessitava.

O realizador entra.

Eu num gesto rápido apanho a mosca no ar, levanto-me, abro a janela e liberto a mosca. Conheci uma senhora, vizinha da minha avó no andar de baixo que fazia isto magnificamente bem, sempre me impressionou, mas eu nunca o tinha feito até àquele preciso momento, e nunca mais o fiz até hoje. A mosca voou para a rua, eu voltei-me para trás e o realizador boqueaberto diz:

– Apanhaste-a mesmo? – O filho acalma-o.

– Apanhou-a estava aqui a chatear, agora senta.

– Tenho portanto de vos apresentar a pessoa responsável pela ideia deste documentário, o Fred! – anunciou.

Bom, ele não se chamava Fred. Quer dizer, se calhar chamava, lembro-me pouco do nome destas pessoas, se por azar ele se chamar Fred as minhas desculpas não queria denunciar o Fred.

O Fred levanta-se porque é o seu momento.

– Tenho para dizer que vivi em Sintra durante muitos anos, e há na bruma mistérios por resolver…

– Conta a história das rotundas! – interrompeu o realizador.

– Espera… E dentro da bruma há mistérios por resolver, que vêm de há anos, centenas de anos, talvez milhares de anos…

– Conta a história das rotundas! – interrompeu o realizador, novamente.

Impaciente o Fred não desistiu.

– Espera. Há milhares de anos que Sintra é um centro de coisas incríveis, histórias que ficaram mesmo registadas na história, e não estou a falar de religiões ou assim, estou a falar de coisas mais estranhas, coisas reais…

– É agora! – O realizador estava em pulgas, o Fred cedeu.

– Nas rotundas muitas vezes vêem-se galinhas decapitadas, sacrifícios pagãos a deuses que habitam Sintra.

Neste momento eu confesso que estava muito entusiasmado, o meu sócio tinha os olhos encarnados, e eu e ele que nos conhecemos desde os três anos, tínhamos de estar a olhar em sentidos literalmente opostos, para não nos partirmos a rir, um olhar cruzado e caía bomba. A explicação do Fred ainda demorou mais uns minutos e o realizador já queria transferir o plano Vertigo para as rotundas, ou o plano Janela Indiscreta! (As minhas desculpas ao realizador.) Toda aquela mística que o Fred contava explicava-se de uma simples maneira – as linhas Ley! Havia uma que passava por Sintra conferindo-lhe poderes miiiiiiisticos.

Confesso que havia um certo temor elevado de entusiasmo naquela mesa, naquelas quase dez pessoas, um objectivo tinha nascido, descobrir o poder da linha Ley, e os seus subjacentes efeitos secundários. Nos olhos daquelas pessoas o futuro de uma descoberta importante, mesmo aqui no nosso quintal.

O realizador estava eufórico! – Apresento-vos agora o Miguel, que escreve muito bem, – (sim há quem goste do estilo escrever à estúpido), – e ele escreveu um guião para o nosso documentário.

Eu não me levantei. Enterrei-me um pouco na cadeira, e de relance olhei para o meu sócio, que estava vermelho que nem um tomate, a olhar da maneira mais periférica possível para mim, mais do que enterrado na sua cadeira.

– Bom pessoal… isto é assim… Eu estive a estudar esta história das linhas Ley e a primeira coisa que eu descobri é que de facto há muitos mapas de linhas Ley, mas nenhuma delas passa por Sintra.

Convulção! Espanto! Escaaaaaaandalo! Acho que ouvi um gritinho do filho do realizador, um grito para dentro, abafado pelo próprio susto de ver o sonho do plano da Janela Indiscreta destruído. O plano que iria lançar o seu pai na ribalta dos realizadores, janela abaixo. O Fred, agitado, jurava que passava lá uma linha Ley sim. Na altura não havia os telefones que há hoje em dia, o súbdito do realizador foi a correr buscar um portátil, de um lado da mesa eu e o meu sócio, do outro lado oito tipos à procura da linha Ley a passar por Sintra. Primeiro mapa nada, segundo mapa nada, terceiro, quarto, quinto, nenhuma merda de mapa porra nenhuma de linha Ley a passar por Sintra.

Os oito Leylíficos sentaram-se. As galinhas mortas nas rotundas já não faziam grande sentido, não tinham a cola ley.

– Nem tudo está perdido pessoal, escrevi um guião muito engraçado sobre como podemos desmistificar estas ideias mal construídas, gozar com esta situação, como se fossemos procurar as linhas Ley, que são por si só uma enorme tanga, e depois vamos até às rotundas e aos sacrifícios tentar descobrir o porquê e quais os efeitos, se têm melhores resultados que a sorte, ou a acção sobre o mundo natural das coisas. Podemos fazer um estudo sociológico muito engraçado sobre isto.

Oito pessoas olharam para mim desalentadas, estavam num barco sem remos, o motor tinha morrido e não havia vela que nos salvasse que vento, aquele ventinho do ânimo, nem uma brisa. Tentei fazer umas piadas, mas a solução de todas as coisas já não estava perante os seus olhos, à frente dos oito um gozão, que escreve à estúpido.

Não sei se ouviram os Snarky Puppy com a Metropole Orkest a tocar um tema chamado Sintra. Espero que tenham ouvido, ao menos não perderam o tempo todo com isto.