Um café na Gare du Nord, Paris. Entrevista a Frederico Rodrigues, licenciado em Relações Internacionais e mestrando em Sociologia. Passa por França em Erasmus, onde está a fazer a sua tese sobre a relação da extrema direita com a internet.
Qual é o propósito da tua tese?
O objetivo da minha tese é utilizar o movimento Reconquista como um caso de estudo. Tens de ver aquela página como uma espécie de mapeamento ideológico e discursivo dentro do ecossistema da extrema direta em Portugal. Porque eu sinto que quando se fala na extrema-direita, ou quando se pensa, pensa-se muito no Chega. E o Chega não é a extrema-direita. Há muito mais para além disso. Há muito mais para além daqueles atores que estão institucionalizados. Há uns que são muito mais radicais. Eu acho que permite ter acesso às particularidades ideológicas da extrema-direita, portanto, para não se pensar como se ela fosse um monolito. E acho que é também para se ter noção de por onde é que possa haver portas de entrada e de como é que se possa fazer recrutamento.
Porque claro que o Chega é, em grande parte, quem faz esse recrutamento nas redes sociais, mas as outras páginas também têm a sua presença, não é?
E também começaram a ter ações nas ruas.
E isso certamente tem um impacto, não é? Por exemplo, eu penso muito nisso nos Estados Unidos com o Turning Point. Sabes, há o partido republicano e depois essas outras associações agregadas. Mas então porquê a Reconquista e não outro o grupo como o PNR?
Porque o Reconquista é o que parece, neste momento, estar a crescer mais em termos de visibilidade e também por ser muito particular, porque boa parte da sua base é assim, rapazes mais assim, mais próximos da nossa idade, e sinto que são um caso de importação, precisamente dessas táticas que vêm de grupos dos Estados Unidos, e porque também têm uma vertente mais internacionalizada, já que eles já apareceram em conferências de grupos semelhantes na Europa. O último congresso do Reconquista, que foi há um mês no Porto, teve oradores internacionais de outros grupos, incluindo também um professor universitário que é o António Sousa Lara*. Sobretudo é preciso traçar a genealogia ideológica destes movimentos e o apoio,sobretudo, por exemplo, eu olho para a figura do Jaime Nogueira Pinto como sendo muito importante para a renovação ideológica da extrema-direita cá em Portugal, porque ele foi envolver-se bastante na Nouvelle Droite em França, portanto, para se tentar dar uma nova maquilhagem a esse ideário. “Não é, portanto, não é sobre raça, não é biologia, é sobre cultura, não é, portanto, eles são muito diferentes de nós, nós até os respeitamos, mas eles são muito diferentes de nós”.
Portanto, trata-se dessa renovação ideológica que não é de hoje. Em França já é muito antiga.
E em Portugal também já tem raízes muito antigas. Portanto, se quisermos realmente pensar sobre este fenómeno, não basta ir até 2019; é preciso recuar mais, talvez até ao próprio período revolucionário, ou mesmo considerar o contributo do Estado Novo, quer dizer, aquela mitologia do Império Português, o lusotropicalismo. Esta forma de pensar sempre cá esteve. Portanto, o racismo, a homofobia, a xenofobia e a misoginia não foram de férias em 76 e não voltaram em 2019; isto sempre esteve latente na sociedade portuguesa, só que era algo que simplesmente não tinha uma vertente explícita, ou seja, não era uma coisa que estava na nossa cara, exceto, obviamente, para aqueles que mais sofrem isso, quer dizer, pessoas racializadas, etc
Porque é que achas que o recrutamento da Reconquista é principalmente masculino?
Porque eu acho que o Grupo Reconquista tem uma estética mais virada para uma coisa um pouco paramilitar. Se formos ver a parada que eles fizeram no Terreiro do Paço no ano passado, quer dizer, os polos, as calças… Acho que eram polos azuis, calças beijas, óculos e a bandeira. Quer dizer, isso é uma coisa que tem aquela estética, e sobretudo o próprio nome do movimento, que remonta a um período de guerra, de guerra contra a fé muçulmana.
Mas porque é que não há assim muitas mulheres no Reconquista? E como é que entra a cena da internet, na tua opinião?
Portanto, é assim: a extrema-direita foi uma early adopter da internet; desde muito cedo conseguiu perceber o seu potencial. Ao início não era tanto pela questão dos algoritmos, porque na altura não havia muito disso, mas ainda mais pela questão da privacidade, da anonimidade, de se poder comunicar com outros núcleos espalhados pelo mundo. Mas, sobretudo, a questão da privacidade.Porque têm, portanto, a consciência de que, se calhar, na altura, fazer isso na rua ou num local público não era bem visto. Hoje, se calhar até é, não sei. Mas, sim, desde o início, blogs, fóruns e tudo o resto de discussão disso. Pronto. No entanto, por volta dos anos 2010, com o Facebook, o YouTube e essas redes sociais contemporâneas, apostou-se, portanto, nessa capacidade de se espalhar a mensagem a uma escala sem precedentes. E ainda mais, depois, com a importância dos algoritmos. Porque, inicialmente, nas redes sociais, a lógica não era tanto por um algoritmo que te recomendava conteúdo, era mais pela lógica de quem é que tu seguias. E hoje tem-se estado a afastar muito mais disso, porque, portanto, no TikTok, ninguém olha para a página das pessoas que segue, não é? Vem a página do For You, certo? Portanto, essa transição foi notada por grupos, movimentos, partidos, etc., que obviamente se aproveitaram do ambiente digital.
Mas, já agora, por que é que achas que a esquerda não teve essa relação com a internet?
A esquerda não tem essa, ou não teve essa relação com a internet… Neste assunto sou um pouco controverso e um pouco pessimista. Mas eu não acho que o espaço da esquerda seja na internet. Eu acho que pode ter uma presença, mas não tem um espaço propriamente dito. Porquê? Porque eu acho que o problema é que nós, hoje, damos esta tecnologia como um dado adquirido. Por exemplo, analistas políticos olham para a importância das redes sociais como se fosse algo imutável, que não se pode voltar atrás e, portanto, que tem a sua importância e que não se pode fazer nada contra isso, não é? Esquecendo-se que a tecnologia é o que se faz dela, sobretudo quando ela está a ser utilizada por um dado modo de produção, certo? Portanto, eu diria que há uma incompatibilidade entre a esquerda conseguir afirmar-se nas redes sociais se estas são controladas por grandes empresas tecnológicas que não têm nenhum interesse em que a esquerda se afirme nesse espaço. Portanto, há essa tendência para orientar as pessoas para a direita, precisamente porque é um discurso que não coloca em causa as relações de capital. Que não coloca em causa as relações de poder. E depois também é interessante porque existe a questão do consumo passivo. Portanto, uma pessoa de esquerda, quando faz consumo passivo de conteúdo, mesmo que seja conteúdo de esquerda, não é a mesma coisa do que uma pessoa de direita ou de extrema-direita fazer consumo passivo de conteúdo. Porque a pessoa de direita que faz esse consumo passivo está a contribuir precisamente para a propagação de um discurso que já é… acho que “hegemónico” é um termo muito forte, mas que já é correto dizer. Enquanto que alguém que consome passivamente conteúdo de esquerda acha que está a fazer o mesmo que ativismo. Portanto, dá a impressão errada à pessoa.
Mas, por acaso, há uma interação entre esses movimentos de extrema direita na internet como uma forma quase de dissimulação… Sim. Por exemplo, a cena daquele sapinho, dos groypers*, é uma cena que não se atribui… Não é uma suástica, não é?
Exatamente, mas essa questão da cultura visual da extrema-direita é que…
É diferente, mudou?
Mudou.
Mesmo o Reconquista até tem uma estética antiga, não é?
Porque essa cultura visual é feita de forma a poder afirmar uma identidade coletiva, portanto, assim mais para dentro, mas tem que ser palatável o suficiente para ir buscar pessoas cá fora. Portanto, quando se fala no conceito de dog-whistle*, isso é algo bastante presente nesse tipo de memes na extrema-direita. Só que a questão dos groypers, que eu ainda não tive tempo de olhar muito a fundo, está a chegar a um ponto de pós-ironia e de inside knowledge, que é uma coisa que não é facilmente decifrável mesmo para quem tem algum conhecimento interno.
E portanto, como é que se combate isso online?
É uma questão assim um pouco difícil, porque… Porque, segundo o que eu estava a dizer há bocado, a minha resposta seria que se combate nas redes sociais, tem que ser para fora. Eu acho que não se trata de tentar travar uma guerra hegemónica, cultural, assim, num sentido gramsciano, nas redes. Portanto, aquilo é um campo de detalhe, entre aspas, que, a meu ver, é um campo que inerentemente não é favorável à esquerda. E eu acho que agora as pessoas já se estão a começar a perceber de que é preciso libertar-se disto, das redes sociais. E eu falo também por mim, que nos últimos anos tenho tido consciência de que, de facto, é muito mais frutífero estar em pessoa. Não se pode dar isso como sendo, a meu ver, mais uma esfera da vida, não é? Eu acho que tem que ser tratado um pouco como nos anos 90, que é: a pessoa chegava a casa, ligava o computador e era como se entrasse num outro mundo e, passado algumas horas, desligava e voltava para a Terra.
Eu também não acho que se deva ser ingrato em relação à internet, porque a internet também ajudou muitas pessoas a entrar na esquerda, incluindo eu.
Achas que a direita, neste momento, tem uma melhor capacidade de leitura da cultura contemporânea?
Sim. Eu acho que sim, porque… Bom, para todos os efeitos, quer dizer, foram… Foi a direita que foi pioneira, e com uma espécie de complacência dos partidos sociais-democratas, em implementar o neoliberalismo. E é muito interessante, porque eu estou a ler um livro agora que é The Ungovernable Society do Grégoire Chamayou, em que ele fala, principalmente, sobre o neoliberalismo com uma tecnologia política. Portanto, um projeto que tem efeitos tão insidiosos…
A Thatcher falava de mudar a alma.
Porque ele só funciona sob a condição de que nós, ativamente, lutamos contra os nossos próprios interesses. Eu acho que se a direita ou as classes dominantes, de uma forma geral, tiveram a capacidade para conceber uma tecnologia política como o neoliberalismo para efeitos de controle social, então eu tenho perfeita consciência de que também sabem o papel que as redes sociais estão a ter nisso.
Glossário:
Groypers*– Os Groypers são um movimento de extrema-direita online, ligado ao nacionalismo branco e cristão, que usa memes, humor e provocação para difundir ideias racistas, anti-LGBTQ+ e anti-imigração. Eles criticam o conservadorismo mainstream, promovendo uma agenda radical de identidade e valores tradicionais como forma de normalizar a exclusão e a discriminação.
Dog Whistle*- é uma mensagem ou expressão deliberadamente ambígua usada por políticos ou grupos para transmitir uma ideia controversa ou extremista a um público específico, sem que o público geral perceba claramente.
António Sousa Lara*- é um professor universitário e ex‑político português, que foi deputado e subsecretário de Estado da Cultura no início dos anos 1990. Ele retomou a vida política em 2019 filiado ao partido Chega, assumindo funções de porta‑voz para Segurança e Geopolítica.