As responsabilidades do movimento pelo clima

Artigo de Abel Rodrigues e João Daniel Mendonça, ativistas pelo clima.


2019 foi o ano das mobilizações pelo clima. Na altura, várias foram as apostas em como o assunto seria apenas uma “moda” que logo sairía dos noticiários e do centro dos grandes debates políticos. Volvido um ano atribulado e na reta final de 2020, o que podemos afirmar sobre a trajetória dos movimentos pelo clima?

Nos primeiros meses de 2020 assistimos a grandes mobilizações pelo clima. 60.000 pessoas protestaram, a 21 de Fevereiro, em Hamburgo;  uma semana depois, outra grande manifestação, desta vez em Bristol, no Reino Unido, reuniu 15.000 pessoas. Os números seriam excelentes indicativos de um ano repleto de protestos em massa, não só na Europa, mas em todo o mundo. Contudo, a chegada da pandemia fez com que a pauta climático-ambiental começasse a ser enterrada por jornalistas e críticos, iniciando-se uma onda de ceticismo sobre o quão longe a pauta poderia ainda ir. Como esperado, com a pandemia, assistimos a uma desmobilização.

Porém, a desmobilização não significou o fim da luta climática e acabou por não se provar tão má como anunciavam céticos e negacionistas. Os movimentos climáticos reinventaram-se e exploraram outras formas de ativismo, especialmente online, mobilizando centenas de milhares de pessoas num contexto difícil. No dia 24 de abril, data marcada para a primeira Greve Global pelo Clima, os movimentos climáticos ao redor do globo mobilizaram-se para uma digital strike, a primeira greve climática online. A ideia era simples: cada um faz o seu cartaz, como de costume, mas não sai da sua casa – usam-se as redes sociais para popularizar uma hashtag e passar uma mensagem que chegasse não só a amigos e familiares, mas a todos os milhões de potenciais utilizadores. Como avaliar o sucesso de uma greve climática global? As redes sociais permitem dar conta de números concretos: no Instagram, a hashtag #ClimateJustice conta hoje com 285.865 publicações e #ClimateStrike com 664.565. No Twitter, embora não seja possível contabilizar a quantidade de vezes que uma hashtag é usada, é fácil notar que não estará muito longe do Instagram no quesito de ativismo climático.

As limitações físicas do online não impediram que se fizesse um esforço para ultrapassar o questionar da política e passar a fazer política, nomeadamente criando pontes entre o local e o global e novas possibilidades de intervenção concreta, sempre sob o mote da justiça social. Em plena pandemia, o Fridays for Future – hoje maior símbolo da luta climática – organizou diversas campanhas para a proteção de povos vulneráveis. Por exemplo, foram angariados 160 mil euros para construir um projeto de telemedicina e aliviar o sistema de saúde público da metrópole da Amazónia, a cidade de Manaus.

Ativistas socioambientais e climáticos também passaram a usar a plataforma mediática construída nos últimos anos para pressionar agentes públicos de forma mais direta. Este foi, por exemplo, o caso de Angela Merkel quando deu um passo atrás no acordo de Livre Comércio entre a União Europeia e o Mercosul, ou as cartas ambientais assinadas por candidatos às autarquias brasileiras nas eleições deste ano. Esta plataforma mediática se manifesta, seja na popularidade dos movimentos climáticos (observada pela movimentação de grandes números de pessoas nos protestos), seja na própria cobertura da mídia dada a diversos ativistas climáticos. De maneira geral, é possível verificar uma grande influência de opiniões por parte dos movimentos climáticos atualmente – demostração direta disto é a eleição da ativista Greta Thunberg como Pessoa do Ano pela Time, no ano passado.

Aproximando-nos do fim do ano, é possível afirmar que houve uma desmobilização acentuada das massas que se mobilizaram nas ruas, seja na Europa ou no resto do mundo. No entanto, é de destacar o amadurecimento social do movimento que definitivamente afasta de si o fantasma do modismo e de facto inaugura uma consolidada agenda política que invade gradativamente todos os espaços de poder.