Brasil: a vitória de Boulos

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Artigo de Luís Leiria, redactor do esquerda.net


No momento em que escrevemos este artigo, falta ainda uma semana para o segundo turno das eleições municipais do Brasil e, portanto, não temos como conhecer o resultado da disputa que opõe o atual prefeito Bruno Covas, do PSDB, e Guilherme Boulos, do PSOL, na capital de São Paulo. Mas, seja qual for o resultado, a campanha de Boulos e a ida à segunda volta já significam uma enorme vitória desta candidatura e do Partido Socialismo e Liberdade.

O segundo lugar da lista Boulos-Erundina, com 20,2% dos votos, foi resultado de uma campanha que empolgou. A candidatura combinou a juventude, o vigor e a combatividade de uma liderança do movimento social mais dinâmico dos últimos anos, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), com a experiência da sua vice, Luísa Erundina, que já foi prefeita de S. Paulo (1989-1993). Boulos começou a campanha com pouco mais de 4% e atropelou os outros candidatos, entre os quais Celso Russomano, apoiado por Bolsonaro, e Márcio França, do PSB, ex-governador de São Paulo entre 2018 e 2019 (assumiu no lugar de Geraldo Alckmin, do PSDB, quando este se candidatou à Presidência).

Hegemonia do PT em disputa

Bem mais atrás, em 6º lugar, ficou Jilmar Tatto, do PT, com 8,6%, um resultado historicamente mau para o partido de Lula: pela primeira vez, desde 1988, um candidato do PT não ficou nem em 1º, nem em 2º lugar na capital paulista. A candidatura do deputado federal Tatto apareceu como expressão de um aparelho partidário envelhecido, incapaz de se renovar e de conviver com uma nova situação: a hegemonia do PT sobre a esquerda está em disputa. O PSOL, um dos principais candidatos a superar o PT, mostrou estar no bom caminho.

Isto também só foi possível porque o PSOL, ao mesmo tempo que combatia a política de austeridade aplicada por Dilma Rousseff no seu 2º mandato, soube opor-se ao golpe palaciano que a derrubou; e compreendeu que a prisão de Lula tinha motivação política, e por isso defendeu a sua libertação. Por outro lado, enquanto que o PT esteve desaparecido do combate ao neofascismo de Jair Bolsonaro, o PSOL foi vanguarda nessa luta. Assim, o PSOL conseguiu apresentar-se como uma alternativa à esquerda, mas sem romper o diálogo com o eleitorado do PT.

A força e o entusiasmo com a candidatura Boulos-Erundina empurraram os partidos de esquerda e de centro-esquerda a unirem-se para apoiá-lo no segundo turno. Lula (PT), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Flávio Dino (PC do B) apareceram juntos no tempo de antena do candidato do PSOL. Foi a primeira vez que se uniram no apoio a um candidato desde 2006, quando Lula conquistou o segundo mandato na Presidência da República.

A dinâmica de crescimento manteve-se: Boulos passou dos seus 20,2% no 1º turno, para 42% no início da campanha do segundo turno, subindo para 45% (votos válidos) a uma semana da ida às urnas. Bruno Covas subiu dos seus 32,8% no 1ºturno para 58%, caindo para 55%. Vença, ou perca, Boulos e o PSOL serão sempre os grandes vitoriosos, porque passaram a ocupar um lugar central em futuras negociações que envolvam a candidatura da esquerda à Presidência da República e reforçam-se para chamar à mobilização – mais que necessária – para abreviar o mandato de Jair Bolsonaro à frente do governo.

Discriminação racial entra em cheio na campanha

Entretanto, o assassinato de um homem negro por dois seguranças do supermercado Carrefour de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, caiu como uma bomba no país e na campanha do segundo turno. Na quinta-feira 19, João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, soldador de profissão, foi imobilizado e espancado e morreu devido à agressão. A cena foi filmada e causou indignação em todo o país, fazendo recordar, inevitavelmente, o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos e a influência que teve na derrota de Trump.

O vice-presidente Hamilton Mourão pôs mais lenha na fogueira, afirmando que “não existe racismo no Brasil”. Bolsonaro esperou, acabando por referir-se ao trágico episódio apenas de forma indireta, dizendo que “Como homem e como Presidente, sou daltónico: todos têm a mesma cor.”

“Alguém consegue imaginar aquela cena com uma pessoa branca engravatada?”, reagiu Guilherme Boulos, candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo. “Isso é racismo. Racismo puro”, afirmou. O debate contra a discriminação racial tende a favorecer a esquerda, já que é uma das suas principais bandeiras.