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Artigo de Luis Leiria.


Há mais de um ano que a pergunta se repetia por todo o Brasil: “Cadê o Queiroz?” Ninguém sabia onde estava Fabrício Queiroz, ex-polícia e ex-funcionário do gabinete parlamentar de Flávio Bolsonaro e colaborador do pai presidente desde os anos 80. A última vez que se soube do seu paradeiro, estava internado num hospital de luxo de S. Paulo, o Einstein, onde fora submetido a uma cirurgia de extração de um tumor, em janeiro de 2019. Um vídeo de Queiroz dançando no quarto do hospital chegou à imprensa, mostrando que o homem afinal não estava tão debilitado como alegava. Teve alta no dia 8 de janeiro.
Nunca mais ninguém o viu.

Até à quinta-feira, 18 de junho, deste ano, quando a polícia o prendeu numa vivenda em Atibaia, cidade do litoral do estado de S. Paulo. O dono da residência que lhe terá servido de esconderijo é Frederik Wassef, advogado de Flávio e de Jair Bolsonaro e frequentador assíduo do Palácio do Planalto.

A cirurgia de Queiroz servira de desculpa para não ir depor na investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre o caso conhecido como “rachadinha”, nome da operação em que funcionários-fantasma recebiam o salário sem trabalhar e o repassavam ao titular do gabinete. Queiroz era o operador de todo este processo de recolha do dinheiro dos “fantasmas” e pagamento de contas, incluindo despesas pessoais de Flávio Bolsonaro, no tempo em que o atual senador era deputado estadual do Rio.

Nove tentativas de suspender investigações

Um ano e meio depois, a investigação avançou, apesar dos esforços em contrário do filho do presidente. Flávio entrou na Justiça com nada menos que nove pedidos para suspender as investigações. Conseguiu atrasá-las, mas não pôr-lhes fim.
Os investigadores cruzaram a movimentação das contas bancárias do então deputado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) com a operada por Queiroz e descobriram que além de fazer depósitos na conta do parlamentar, Queiroz ainda lhe pagava diretamente despesas como a escola dos filhos e o seguro de saúde da família. Há também um cheque de 24 mil reais para a primeira-dama Michele Bolsonaro.

Mas o mais explosivo é a parte do processo que investiga a vinculação de Queiroz com as milícias, e em particular com Adriano da Nóbrega, um dos cabeças do chamado Escritório do Crime, organização de matadores de aluguer que é suspeita de participação no assassinato de Marielle Franco. Há fortes indícios de que o dinheiro da rachadinha também foi usado para investir em negócios imobiliários da milícia. O miliciano foi morto pela Polícia Militar da Bahia em fevereiro deste ano, numa operação que levanta suspeitas de ter tido o objetivo de queimar o arquivo vivo que Adriano representava. Antes da morte do chefe do Escritório do Crime, Márcia Oliveira de Aguiar, mulher de Queiroz, e o advogado Gustavo Botto Maia, que representava Flávio Bolsonaro, foram até Minas Gerais e reuniram-se pessoalmente com Raimunda Magalhães, mãe de Adriano e ex-funcionária fantasma do gabinete de Flávio. Suspeita-se que o encontro tenha servido para levar orientações ao Escritório do Crime.

Ainda há muito que investigar, mas a teia do que foi apurado envolve cada vez mais o presidente da República.

Desde a prisão de Queiroz, nenhum militar do grupo que ocupa cargos no governo se manifestou. O silêncio parece apontar para um afastamento dos ministros de origem castrense em relação a um presidente cujas ligações a organizações criminosas ficam cada vez mais expostas.

Bolsonaro também deixou de insinuar a iminência de um autogolpe militar. Era bluff. Apesar de todas as fanfarronadas contra o Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente acenou a bandeira branca e entregou aos juízes a cabeça do ministro amado pelos mais fanáticos dos seus seus apoiantes, Abraham Weintraub. O até então ministro da Educação não só foi exonerado como fugiu à pressa para os Estados Unidos, temendo ser preso pelo inquérito do STF que investiga as ameaças ao Supremo, algumas das quais formuladas ou apoiadas pelo próprio Weintraub.

Bolsonaro, o presidente, parece ter entrado num beco sem saída.


Luis Leiria é redator do Esquerda.net.