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Artigo de Luis Leiria.


Não se sabe exatamente o que levou o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a desvalorizar a gravidade da pandemia do novo coronavírus (é uma “gripezinha”, disse) e a defender o fim do isolamento social e o regresso ao trabalho, argumentando que a cura (as medidas de contenção) iria ser pior que a doença, por causa da recessão provocada.

Teve muitas hesitações e ziguezagues, é certo. Um dia parecia que levava a pandemia a sério e aparecia numa conferência de imprensa, rodeado dos seus ministros, todos usando máscara; poucos dias depois ia a uma manifestação de seus defensores raivosos e apertava mãos e tirava selfies, sem máscara nem qualquer distanciamento.

Mas a decisão de demitir o seu ministro da Saúde, Luiz Mandetta, que levava a sério as recomendações da OMS, significou para Bolsonaro o cruzar do Rubicão. A partir desse momento, o presidente da República do Brasil só dá ouvidos ao “gabinete do ódio”. Este grupo informal é composto pelos três filhos do presidente e alguns assessores e tem uma obsessão: para manter mobilizada a base de fanáticos defensores do presidente, é preciso encontrar um alvo. Alguém para odiar e responsabilizar pelo que vai de mal no país. O “gabinete do ódio” sabe que essa arma não foi feita para ter maioria; o seu objetivo, porém, não é esse. É ter uma minoria aguerrida, que se mantenha por volta dos 30%. Acontece que ter uma política dirigida a uma minoria e querer governar dessa forma um país continental em tempos de catástrofe nacional e mundial só pode dar maus resultados.

Negacionismo sanitário

O desdém em relação à Covid-19 provocou um isolamento político em níveis inéditos. Bolsonaro perdeu o apoio de uma grande parte dos deputados do partido que o elegeu, o PSL. Perdeu o diálogo com a Câmara dos Deputados e com o Senado. Viu-se tolhido pelo Supremo Tribunal Federal sempre que ensaiou tomar medidas contra o isolamento social como forma de combater o Covid-19. Quem decretou, com mais ou menos rigor, as medidas de contenção ao avanço da epidemia foram os governadores dos Estados. Resultado: Bolsonaro entrou em conflito com eles, incluindo os dos dois Estados mais importantes, S. Paulo e Rio de Janeiro, que tinham sido eleitos na onda bolsonarista.

Em termos internacionais, o isolamento foi mais humilhante ainda. O grande aliado Donald Trump percebeu que a Covid-19 não é uma “gripezinha” e, numa pirueta, passou a apresentar-se como o paladino do combate à doença. Bolsonaro foi apanhado no contrapé e já não conseguiu acompanhá-lo. Assim, o presidente do Brasil, no negacionismo ao novo coronavírus, só tem a companhia dos presidentes da Bielorrússia, do Turcomenistão e da Nicarágua.

Nem um novo partido consegue formar

Quando saiu do PSL, Bolsonaro anunciou que legalizaria um novo partido em pouco tempo usando um aplicativo de telemóvel. Não deu certo, e o novo partido permanece num limbo em parte incerta.

Que lhe resta? Os militares. Pelo menos é para eles que Bolsonaro se vira, diante da evidente impotência a que foi remetido. O “gabinete do ódio” achou a saída genial: lutar pelo regresso ao trabalho, reabertura do comércio, das escolas, deixando em confinamento apenas os grupos de risco, isto é, os idosos e os doentes crónicos. E apelar à intervenção militar para remover do caminho do presidente todos os empecilhos, nomeadamente o Legislativo e o Judiciário. Desta forma, “o povo”, representado por Bolsonaro, chegaria ao poder.

Os militares, sabe-se, não são um corpo homogéneo. Nem sequer os que Bolsonaro chamou para o seu governo. O general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), por exemplo, é apontado como um adepto do “gabinete do ódio”. Já o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, um general da ativa e não de pijama, como Heleno, é tido como mais moderado e responsável. Pois foi ele mesmo que respondeu aos apelos dos bolsonaristas, rejeitando-os. Em comunicado oficial, o Ministério da Defesa afirmou que as Forças Armadas trabalham com o propósito de “manter a paz e a estabilidade do país”, obedecendo à Constituição Federal.

Ao contrário do que defende o “gabinete do ódio”, a Defesa afirma que o momento exige “entendimento e esforço de todos os brasileiros”, pois “nenhum país estava preparado para uma pandemia como a que estamos vivendo”. O comunicado termina com o compromisso das Forças armadas de combater “um inimigo comum a todos: o coronavírus e suas consequências sociais”.

Francamente, parecia muito difícil que os militares se lançassem numa aventura autoritária para resolver os problemas de um presidente incapaz de criar o seu próprio partido, quanto mais de governar o país.

E entretanto, a contabilidade macabra continua a subir. No dia em que este artigo foi escrito, o Brasil contabilizava 40.581 casos de Covid-19 confirmados e 2.575 mortes. A letalidade é de 6,3%, quase o dobro da de Portugal. Mas sabe-se que os números oficiais estão muito abaixo da realidade, porque fazem-se pouquíssimos testes e mesmo estes chegam a demorar 20 dias para ter o resultado. Afastar Bolsonaro do poder passou a ser uma questão de saúde pública.


Luís Leiria é jornalista.