Brasil: derrotar Bolsonaro, combater o bolsonarismo

Adriano Campos

 

No derradeiro mês de uma longa campanha para derrotar Bolsonaro, a democracia brasileira vive um momento decisivo. Mesmo com a previsível derrota nas urnas, o bolsonarismo continuará, provavelmente sob formas mais perigosas e radicalizadas, jogando parte do seu futuro político nas eleições presidenciais de 2 de outubro. Sem certezas de uma vitória à primeira volta, Lula embala na campanha com uma aliança partidária complexa e com o otimismo de um regresso ao passado dos governos do PT.

 

Quatro anos no circo de horrores

 

Nepotismo, corrupção, guerra social, ataque à democracia, saque aos recursos públicos, negligência pandémica, crimes ambientais, racismo e intolerância, subserviência internacional, apologia da violência. Bolsonaro aliou a mais agressiva forma de trumpismo político à sua experiência miliciana para vindicar um projeto de destruição social, ultraliberal, desorganizado, violento, mas eficaz. Neste circo de horrores que foi o governo de Bolsonaro encontramos as piores expressões de opressão, abuso e devastação. Uma agenda ultraconservadora de perseguição às liberdades, a razia ambiental em favor do agronegócio, a desregulação do porte de armas como senha para a violência social. Uma aliança do mal fortemente representada no Congresso Nacional, com as conhecidas bancadas da “bíblia, do boi e da bala”, às quais se juntaram significativos setores das forças armadas, da alta finança, grandes patrões da indústria e serviços, fanáticos representantes da extrema-direita, oportunos e organizados emissários do sionismo e do imperialismo norte-americano.

Os resultados são conhecidos. Desde de 2019, 10 milhões de pessoas caíram na pobreza, fazendo subir para 29,6% a população que vive com menos de 100 euros por mês, enquanto 1% da população concentra 49% da riqueza do país. Mais de 600 mil brasileiros infetados pela Covid-19 perderam a vida, desprovidos de leitos de cuidados intensivos e de vacinas a tempo e horas. Nos últimos quatro anos, a área desflorestada na Amazónia superou os 33 mil quilómetros quadrados (equivalente ao Alentejo), enquanto se multiplicaram os assassinatos de indígenas e ativistas ambientais na região. O Brasil vive uma crise de segurança pública, com perto de 50 mil homicídios registados anualmente, 700 mil presos, 140 crimes de ódio que tiraram a vida de pessoas trans (2021), e com a polícia que mais mata e que mais morre no mundo. Em meio à tragédia, o governo Bolsonaro avançou com uma agressiva política de austeridade, ataque aos direitos laborais e avanço das privatizações, enquanto, no plano internacional, o país selava pactos com Israel de Netanyahu e adotava uma servil posição de submissão à agenda Trump para o continente.

Mais do que uma caricatura ou aberração fascista, o bolsonarismo é um projeto que congrega forças reais que visam a manutenção do privilégio absoluto com base na reprodução das desigualdades e do esbulho da maioria.

 

Urnas, Deus e carteira    

 

Na batalha eleitoral, três tensões se apresentam com clareza: a disputa pela legitimidade das eleições, o peso do eleitorado evangélico, o futuro da economia. A estratégia bolsonarista de lançar suspeição e descrédito sobre o processo eleitoral, assim como de ameaça velada de golpe, perdeu gás nas últimas semanas. Subir o tom do confronto poderia conduzir a uma desconfiança das urnas traduzida em desmobilização à direita, o que prejudicaria a estratégia de dramatização no dia seguinte ao pleito. Mas a ameaça persiste e o foco nos direitos democráticos mobiliza um amplo campo anti-bolsonaro. Também por isto, mais do que o regresso de Lula, as eleições transformaram-se num plebiscito à continuação de Bolsonaro e à sua marcha pelo fechamento democrático.

Apertado pelas sondagens, que o colocam a quase 20 pontos percentuais de Lula, Bolsonaro gizou o derradeiro apelo aos céus. A disputa pelos votos dos 65 milhões de eleitores evangélicos é central na campanha do atual presidente, lançando mão aos velhos instrumentos do ódio e notícias falsas nas redes sociais. As igrejas evangélicas neopentecostais transformaram-se  num movimento ultraconservador apoiado numa teologia da prosperidade individual, onde o elogio à opulência e a defesa da guerra espiritual “contra os demónios” que provocam os problemas sociais marcam o tom. Bolsonaro tem 49% das intenções de voto neste segmento, contra 32% de Lula, que responde com uma campanha direcionada a estes eleitores, lembrando ter sido o seu governo o responsável pela lei da liberdade religiosa no país. Um gesto que não é inédito, uma vez que o PT procurou sempre o apoio das principais igrejas evangélicas em eleições passadas.

Se Bolsonaro apela ao divino, Lula tenta lembrar a carteira. A profunda crise económica e social em que mergulhou o Brasil faz com que a principal vantagem da campanha de Lula seja, precisamente, a economia. Expondo o desastre económico de Bolsonaro, a campanha de Lula gira em torno do combate à pobreza e da imagem de conquistas sociais alcançadas pelos governos do PT, numa promessa de regresso ao passado. Lula conquista mais 50% dos votos entre os eleitores que auferem até dois salários mínimos, para além de arrasar Bolsonaro no nordeste, uma das regiões mais pobres do país. Enquanto isso, Bolsonaro espera que o aumento do auxílio emergencial (criado durante a pandemia) e outras medidas de assistência direta possam trazer frutos à sua campanha.

 

À esquerda, eleger Lula, derrotar o bolsonarismo

 

A urgência incontornável em derrotar Bolsonaro conduziu as eleições brasileiras a uma bipolarização que esmaga os restantes candidatos. A popularidade de Lula coloca-o como o concorrente praticamente incontestado na disputa, congregando uma complexa rede de alianças, que vai do PSOL até Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo pelo centro-direita (PSDB) e agora candidato a vice-presidente. Esta pressão frentista conduziu a escolhas difíceis, com a desistência da candidatura de Guilherme Boulos (PSOL) ao governo do Estado de São Paulo, e com saídas de peso dos partidos mais à esquerda. Ainda assim, o efeito Lula pode alavancar as candidaturas anti-bolsonaristas aos cargos de governadores e deputados em vários Estados.

Se vencer, Lula formará governo em meio a uma economia esfrangalhada e com as limitações programáticas do PT, apostado apenas numa ideia de nacional desenvolvimentismo que não afronte em demasia os interesses do agronegócio e da alta finança. À esquerda, a força dos movimentos sociais e partidos comprometidos com um programa socialista de transformação social será essencial nos próximos anos. Até lá, a campanha nas ruas para derrotar Bolsonaro juntará forças no Brasil e também em Portugal, onde a comunidade Brasileira é cada vez maior. Eleger Lula, derrotar Bolsonaro e continuar a combater o Bolsonarismo são as tarefas primordiais para o Brasil sair das trevas em que mergulhou.