Brasil: Governo Bolsonaro mostra a sua cara

Artigo de Luís Leiria


Parece uma galeria de horrores. Ao lado
das estrelas da alta finança e do juiz Moro, figuram desconhecidos
indicados por um obscuro guru do presidente eleito que vive nos EUA e
que, entre outras coisas, é astrólogo. 

Falta pouco mais de um mês para a
cerimónia de posse do novo presidente do Brasil, o ultradireitista Jair
Bolsonaro, e o seu governo já começa a ganhar contornos, à medida que o
presidente eleito anuncia os seus ministros. Os seguidores do capitão
reformado diziam que, com a sua eleição, a corrupção iria acabar. Mas na
lista de 12 ministros há quatro sob investigação de corrupção, sendo
que um, Onyx Lorenzoni, o futuro chefe da Casa Civil, admitiu ter
recebido dinheiro ilegal, em caixa 2 (saco azul), da empresa JBS. 

O próprio Bolsonaro já relativiza a
importância dessa questão que foi o centro da sua campanha. Numa reunião
recente com deputados e membros do seu partido, o PSL, disse que a
questão ideológica é muito mais grave que a corrupção. E já avisou que
somente uma denúncia “robusta” poderá provocar a demissão de algum
ministro do seu governo. 

O candidato do PSL, em campanha,
apresentava-se como fora do sistema, apesar de ter uma carreira de 28
anos como deputado. No entanto, são já três os ministros do Democratas, o
DEM, partido herdeiro da ditadura militar. 

Até agora, há três militares no governo:
os generais na reserva Augusto Heleno, no Gabinete de Segurança
Institucional, Fernando Azevedo e Silva, na Defesa, e o vice-presidente
Hamilton Mourão.

AS ESTRELAS 

O setor financeiro tem neste governo o
seu homem de confiança, o ultraliberal Paulo Guedes, o superministro que
acumula as pastas da Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio, e
que promete como primeira medida fazer aprovar a contrarreforma da
Previdência (Segurança Social) destinada a aumentar a idade da reforma e
privatizar o sistema, seguindo o modelo chileno.

Mas há outro homem de confiança da alta
finança, o banqueiro Joaquim Levy, que foi ministro de Dilma Rousseff no
seu segundo mandato, quando a então presidente do PT resolveu mudar a
política económica diante da crise e aplicar a austeridade. Com um
perfil mais discreto que o de Paulo Guedes, pode ser uma alternativa se
aquele fracassar. Por agora, será presidente do Banco de Desenvolvimento
do Estado, o BNDES. 

A outra estrela do governo é Sérgio Moro,
o novo ministro da Justiça. Trata-se do juiz da Operação Lava-Jato que
transformou a investigação da corrupção numa arma para inviabilizar a
candidatura de Lula, através da sua condenação e prisão. A intervenção
direta de Moro no processo eleitoral, divulgando a delação de António
Palocci contra Lula em plena campanha do segundo turno, ajudou a
prejudicar o candidato Fernando Haddad e contribuiu para a vitória de
Bolsonaro. Teve a sua recompensa com a nomeação ministerial e sonha
chegar ao Supremo Tribunal Federal logo que haja uma vaga. Por enquanto,
não parece nem um pouco preocupado por fazer parte de um governo que
tem quatro ministros investigados por corrupção.

E há dois ministros que mais recentemente
vieram juntar-se a estes nomes e que já são considerados “a cara de
Bolsonaro” no governo. Trata-se dos até agora desconhecidos Ernesto
Araújo, que irá para as Relações Exteriores, e Ricardo Vélez-Rodriguez,
para a Educação. 

UM RASPUTINE  BRASILEIRO 

Os dois foram indicados a Bolsonaro por
Olavo de Carvalho, uma obscura personagem, um astrólogo e jornalista que
se transformou num guru do pensamento ultraconservador brasileiro. Este
jornalista e autointitulado filósofo vive em Richmond, nos Estados
Unidos, e é autor de diversos livros que se tornaram de cabeceira para
Bolsonaro e seguidores. É neles que se desenvolve a “teoria do
globalismo”, que supostamente quer controlar o mundo através da
predominância cultural da esquerda e cujo objetivo principal é a
destruição da família, entre outras teses. 

«Eu sou irresistível», disse o astrólogo a
uma jornalista do Globo que lhe perguntou de onde vinha tamanha
influência nas nomeações ministeriais. Na mesma entrevista, Carvalho
assegurou só ter falado com Bolsonaro, por telefone, três vezes. 

A CARA DE BOLSONARO NO GOVERNO 

Os dois ministros já são considerados a
cara de Bolsonaro no governo. O ministro da Educação indicado escreveu
num blogue que a data do golpe militar de 1964 deveria ser comemorada.
Defende a política da Escola Sem Partido, considerando que a tarefa
essencial do MEC é recolocar o sistema de ensino ao “serviço das
pessoas” e não como instrumento para a “hegemonia política” da esquerda.
Para isso, acha essencial que as novas gerações conheçam as “ideias
liberais e conservadoras” e defende num texto de 2016: «Vamos tirar o
Brasil do vermelho!» 

Já o futuro ministro responsável pela
diplomacia brasileira assume-se como um seguidor convicto de Trump,
afirma que as alterações climáticas são um dogma científico influenciado
pela cultura marxista, que pretende atrapalhar o Ocidente e beneficiar a
China. Araújo, que é diplomata de carreira, mas que nunca chefiou uma
embaixada, diz-se antiglobalista, afirmando que o globalismo quer
transferir o poder económico do Ocidente para a China. Em vários textos
refere-se ao PT como «Partido Terrorista». Bolsonaro anunciou-o como um
«brilhante intelectual». 

BOLOSNARO EM AÇÃO 

A partir de 1 de janeiro, este governo
passa do papel à ação, e não vai querer perder tempo. É de esperar que
as prioridades sejam a contrarreforma da Previdência e a aprovação do
projeto Escola Sem Partido. Isto é, um ataque brutal contra as reformas
dos trabalhadores e uma perseguição particular contra os professores,
que serão submetidos a uma pressão macartista. Bolsonaro deverá dar
prioridade à área de segurança e promover a liberalização do porte de
armas, e tudo indica que pretende de imediato desencadear uma ofensiva
contra os movimentos sociais e contra Guilherme Boulos, dirigente do
MTST e ex-candidato presidencial pelo PSOL. Nada está ainda decidido e
duras batalhas estão pela frente.


O mundo segundo o guru  da extrema-direita brasileira 

O repórter da Carta Capital Fred
Melo Paiva fez uma longa entrevista com o autor dos livros de cabeceira
de Jair Bolsonaro, dos seus filhos e amigos. Olavo de Carvalho é uma
figura bizarra, misto de astrólogo, jornalista, autointitulado filósofo,
escritor de livros muito populares. Aqui, o próprio repórter fez um
resumo das pérolas da entrevista.

• O PT é o criador de Hugo Chávez. 

• Banqueiros e grandes capitalistas sempre investiram no movimento socialista. 

• A linhagem fascista é apenas uma dissidência interna do socialismo. 

• Bolsonaro não é fascista, fascista é o cu da mãe. 

• Há mais de 50 anos, o empresariado brasileiro está vinculado à esquerda. 

• A esquerda trabalha para os banqueiros, mas é burra demais para perceber. 

• Gays pensam que seus gostinhos sexuais
são superiores a todos os valores morais, religiosos, culturais,
filosóficos. Agora vamos ter uma política baseada no gosto sexual? 

• Vamos supor que eu goste de transar com cachorro. Então vamos fazer um partido político baseado nisso? É um acinte! 

• Kit gay é coisa do Haddad, um mentiroso compulsivo que incentiva o incesto. 

• A Escola de Frankfurt defende a relação
incestuosa entre mãe e filho como meio de derrubar o capitalismo. Esses
caras são todos loucos! 

• Uma contraparente foi presa (na
ditadura). Entre os esquerdistas dizem que foi torturada e perdeu um
rim. Mas fui o primeiro a vê-la quando saiu. Estava muito melhor do que
quando entrou, forte, saudável, bem alimentada. 

• Lenin acabou com a delinquência juvenil na Rússia matando todos. Isso não é um bom método? 

• Esse negócio de neoliberalismo é uma
bolha de sabão que inventaram para uma ala da esquerda combater a outra,
com a qual no fundo está aliada. Assim sobem as duas juntas ao poder.
Exatamente o que se deu no Brasil (com PT e PSDB). 

• Eu não pertenço à direita brasileira
nem sou ideólogo dela. Não faço planos para governo nenhum, e não estou
dirigindo bosta nenhuma.