Brevíssima história da Escola de Teatro Popular, uma experiência de organização popular pelo teatro

Em junho de 2016 organizei um Encontro Internacional de Teatro do Oprimido na Escola Florestan Fernandes, onde conheci militantes do Movimento La Dignidad e sua Escola de Teatro Político. La Dignidad organiza cooperativas de trabalho (refeitórios, creches, saúde, bombeiros, ambulâncias, distribuição de gás) para atender necessidades concretas e gerar emprego e sociabilidade fora das lógicas de mercado e Estado. A Escola de Teatro Político formava militantes e também atores recrutados fora do movimento, ensinando formas teatrais para ajudar a construir o braço cultural do movimento.

Inspirados por esse exemplo, Geo Britto e eu fundamos a Escola de Teatro Popular no Rio de Janeiro em 2017, com uma diferença estratégica: o Rio não tinha um movimento com a mesma estrutura de La Dignidad, portanto a escola seria “dos movimentos” e voltada prioritariamente para militantes. A primeira turma reuniu representantes do MST, MTST, RUA — Juventude Anticapitalista e Levante Popular da Juventude; esses movimentos participavam da Coordenação Política-Pedagógica da escola. O objetivo era formar militantes capazes de fortalecer coletivos de cultura em seus próprios movimentos.

Encontramos muitas vezes, porém, práticas culturais militantes marcadas por narrativas heróicas e simplificadoras (herdeiras do realismo-socialista), que pouco favorecem a análise concreta das contradições sociais e dos caminhos possíveis de transformação. Por isso a ETP se colocou com os movimentos, para os movimentos, e, em parte, contra as representações simplistas que às vezes circulam neles.

O currículo inicial estudou o repertório mais fecundo do teatro político brasileiro (meados dos anos 50 aos 70), período em que o teatro se afastou do drama burguês e se tornou instrumento de formação política e resistência à ditadura.

Estudamos Brecht para desenvolver formas de cena pautadas pela dialética e pela tematização do próprio trabalho militante, escolhendo textos que permitissem trabalhar o real como conjunto de contradições dinâmicas. 

A execução de Marielle Franco em 2018 foi um ponto de inflexão: a ETP abriu-se para construir e apresentar cenas em atos e marchas, levando intervenções teatrais às ruas e dialogando com a população além das manifestações formais. Organizamos campanhas “Teatro contra o Fascismo”, produzimos teatro-fórum sobre violência doméstica em ocupações e realizamos a Feira Carioca de Opinião, reunindo coletivos críticos num esforço de articulação.

No terceiro ano, com a vitória de Bolsonaro, a prioridade tornou-se formar multiplicadores em Teatro do Oprimido (TO) para que pudessem implantar práticas nos seus espaços. Ou seja, não somente formar militantes individuais, mas criar grupos para a constituição das frentes culturais de movimentos. Abrimos a ETP também para não militantes por duas razões: (1) canalizar a raiva produtiva de pessoas (artistas ou não) sem espaços organizativos e (2) complementar a formação dos nossos militantes com pessoas de maior bagagem teatral que pudessem acompanhar oficinas e atuação prática.

Nossa abordagem ao TO busca superar limites observados por movimentos anteriores: o Teatro-Fórum não deve reduzir opressões a conflitos intersubjetivos binários. Trabalhamos para que o TF expresse contradições sociais que condicionam agentes e vítimas, evitando leituras que culpem somente a subjetividade dos personagens e simplifiquem problemas complexos como violência doméstica ou burocracia excludente.

Estratégica e pedagogicamente ampliamos nossa atuação. A ideia foi de completar a formação com acompanhamento prático, criando espaços onde jovens de bairros populares possam produzir cenas sobre sua realidade, aproximando-os de movimentos sociais e gerando coletivos de teatro integrados organicamente às lutas locais. Conseguimos criar naquele ano 4 grupos. 

A chegada do Covid interrompeu brutalmente esse processo. Nossos núcleos se desfizeram, o refúgio no espaço virtual não tinha sentido para nossos militantes. Muitos deles sem aparelhos bons, fácil acesso a internet ou simplesmente espaços em suas casas em que podiam estar sozinhos frente a uma tela. Apesar do sucesso das nossas formações na internet, a última contou com mais de 300 inscrições, a escola quase morreu nesse período. 

Foi provavelmente essa quase morte, essa energia represada durante dois anos e meio que nos deu o ímpeto com o qual voltamos às nossas atividades assim que fomos -tardiamente- vacinados. 11 grupos foram criados num único ano. Mas a paisagem pós-pandêmica era nova: a intensificação da precariedade na sociedade precarizava por sua vez os grupos. Nos grupos, menos gente com menos tempo e mais pressa para poder ganhar o suficiente para seguir em frente. O horizonte político também era outro: a luta contra o golpe, contra o fascismo foi a dinâmica da sequência anterior, no pós-covid uma mais que legítima vontade de encerrar a parêntese bolsonarista (mas era somente isto? uma parêntese?) limitava a quase zero qualquer crítica ao lulismo que se apresentava como teto absoluto das nossas expectativas.


Hoje somos sete grupos. 2 ligados a sindicatos de professores, 1 ligado ao Movimento Esquerda Socialista, uma corrente interna do PSOL, 1 grupo feminista, 1 grupo dentro de uma escola para jovens adultos de um movimento social da favela da Maré (CEASM), 1 grupo numa escola de São Gonçalo e outro de formação de formadores. Os grupos são sólidos (ou pelo menos, assim parecem), nossos eventos atraem em média de 200 a 300 pessoas, fomos às ruas esse ano como nunca tínhamos ido antes. No entanto, essas marcas de sucesso não podem nos cegar. Qual é a nossa perspectiva estratégica? 

A ETP também pretende requalificar a cultura como instrumento potente de luta: não mero adereço festivo, mas ferramenta de formação e organização popular — lição histórica dos Centros Populares de Cultura e de experiências como a de Augusto Boal.

Os desafios são muitos: os participantes vêm majoritariamente das camadas populares, enfrentam longos deslocamentos, jornada dupla de trabalho e estudo, e vivem em áreas com frequentes confrontos que impedem a presença nas aulas. Recursos são escassos e temporários, e as desigualdades entre os acúmulos dos participantes exigem uma pedagogia flexível. Políticas e sensibilidades distintas entre movimentos podem gerar tensões internas: a ETP é também um espaço onde militantes de organizações diversas constroem união pela prática — o desafio é manter o debate vivo sem permitir que conflitos inviabilizem o processo.

Por que teatro? Porque há um interesse real na periferia que o torna instrumento de diálogo legítimo. O teatro permite, pela prática coletiva e pela multiplicidade de papéis, uma experiência crítica da divisão social do trabalho e da produção cultural. Quando as cenas tratam da vida das pessoas, há alto potencial reflexivo que ajuda a compreender o real. Além disso, reivindicamos que a produção cultural pertença à classe trabalhadora: não como mercadoria, mas como processo para tornar a vida maior que sua miséria presente.

Apesar das dificuldades, a ETP tem um sentido potente: provar que é possível, com os militantes e suas dificuldades, produzir algo novo e belo — uma prática artística que contribua para organização, formação política e resistência. Se “fizermos bonito”, seremos prova de que emergem alternativas coletivas capazes de transformar a cena cultural e política com “a sobriedade de um amanhecer”, como dizia Benjamin.