BURGUESIA: NOTAS SOBRE UM CONCEITO

João Teixeira Lopes, sociólogo e professor universitário


A burguesia é a classe que, sob o capitalismo, acumula e concentra poder económico, político, cultural e simbólico, através da exploração e da dominação das outras classes sociais. A acumulação, tendencialmente infinita, desdobra-se em vários circuitos. O Sociólogo e filósofo marxista, Henri Lefèbvre, refere duas das fontes dessa acumulação infinita: o que ele apelida de “circuito primário do capital”, associado à mais-valia imbuída na produção industrial “das coisas” e o “circuito secundário de capital”, inscrito na produção social do espaço, cada vez mais atraente para a burguesia, particularmente em tempos de recessão, dadas as possibilidades abertas pela especulação imobiliária e a transformação do uso dos solos por ação e/ou omissão do Estado (sabemos bem o que isso significa, perante o colapso da habitação como bem público em tempos de gentrificação e turistificação).

Pela minha parte, acrescentaria dois outros circuitos relativamente autónomos de capital, embora sem esquecer a sua íntima articulação na reprodução global do sistema. Refiro-me ao circuito da dívida soberana, hiperbolizado a partir da crise financeira de 2008 e que consubstancia uma enorme transferência de rendimento e de poder do trabalho para o capital por via das medidas de austeridade, de contração da despesa e do investimento público e de redução drástica do salário indireto implícito nos serviços públicos. Mais recentemente, destaca-se um quarto circuito, o do biopoder do capitalismo de vigilância, que transforma os trabalhadores (o seu corpo, a sua cognição, as suas memórias e imaginação, a sua subjetividade e identidade) em matéria-prima de algoritmos de inteligência artificial que, longe de serem máquinas neutras, revolucionam o nosso modo de perceção da vida e das relações sociais, numa espécie de enclausuramento cognitivo que serve a radical personalização dos mercados e o ensimesmamento social e cultural.

Os quatro circuitos definem o poder da burguesia e devem ser entendidos como um modo de estruturação das relações sociais. Todo o poder, aliás, é uma relação social que se apropria, em termos de soma/zero, do trabalho, do corpo, da energia, da memória e da imaginação dos outros. Por isso, a burguesia não é um lugar fixo e imutável, até porque procura incessantemente renovar e aprofundar o seu poder, indo ao âmago da reprodução social, isto é, ao controle sobre o corpo (incluindo os sentimentos e a sua integração numa determinada noção de identidade). O capitalismo e a força da burguesia residem nessa imbricação radical entre as estruturas sociais mais arreigadas e as expressões, aparentemente anódinas e insignificantes da vida quotidiana e ordinária. Por outras palavras, não há burguesia sem um tipo de subjetividade, de moral, de linguagem, de ethos, de consentimento (que nunca é totalmente inerte, já que, tantas vezes, a falta de recursos para a reflexividade, a critica e a resistência é erroneamente percebido como passiva resignação).

Acresce que a burguesa reproduz-se reproduzindo o sistema que a produz. A sua força reside no poder simbólico que lhe permite construir uma crença coletiva nas regras do jogo, parafraseando o sociólogo Pierre Bourdieu, espécie de insaciável máquina de disseminação de senso comum (hoje dramaticamente acelerada pelo domínio do ciberespaço e das redes sociais) que é ao mesmo tempo dissimulação e adormecimento. Os interesses da burguesia passam por universais, a sua moral transmite-se com grande capilaridade, insinuando-se até no modo como os explorados se encaram a si mesmos (“os perdedores”, “os sem mérito ou talento”, “os falhados”; etc.)

O segredo é a alma da burguesia. A invisibilidade o seu negócio. A individualização do modo de ver e estar no mundo o seu instrumento. A crítica e a desocultação o seu tormento.


Para ler mais

Bourdieu, Pierre (2010), A Distinção, Uma Crítica Social da Faculdade do Juízo. Lisboa: edições 70.

Pinçon, Michel, & Pinçon-Charlot, Monique. (2007). Sociologia da alta burguesia. Sociologias, (18), 22-37. https://doi.org/10.1590/S1517-45222007000200003

Louçã, Francisco; Lopes, João Teixeira e Costa, Jorge ((2014), Os Burgueses. Quem são, como vivem, como mandam. Lisboa: Bertrand

Lefèbvre, Henri (2006), A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l’espace. 4e éd. Paris: Éditions Anthropos, 2000). Primeira versão: início – fev.2006. Disponível em: http://www.mom.arq.ufmg.br/mom/02_arq_interface/1a_aula/A_producao_do_espaco.pdf

Zuboff, Shoshana (2020), A Era do Capitalismo da Vigilância. A disputa por um futuro humano na nova fronteira do poder. Lisboa: Relógio d’Àgua