Novas declinações do imperialismo
O imperialismo exprime-se hoje num exacerbar de tensões interimperialistas, mas também regionais, que espoletaram uma nova vaga de conflitos geopolíticos. Na Ucrânia, na Palestina e no Irão, a política de extrema-direita tem como pedra de toque a instrumentalização de conflitos militares prolongados como forma de garantir legitimidade política interna. Netanyahu, Trump e Putin querem ir a eleições – ou suspendê-las – nos seus termos: com a guerra a ditar o discurso e o medo como salvaguarda permanente.
A internacional reaccionária segue hoje a política internacional de Trump, que os Governos centristas da Europa suportam no genocídio em Gaza ou na guerra ilegal contra o Irão. O imperialismo musculado é a nova face do capitalismo extrativista para garantir matérias-primas à indústria tecnológica. É essa disputa que se joga na partilha das terras raras da Ucrânia entre Trump e Putin, no golpe de Estado na Venezuela, ou nos planos de anexação da Gronelândia.
A corrida europeia para o armamento é uma corrida em sentido contrário ao da transição climática de que precisamos. Guiada pelo extrativismo, a política da guerra reergue a indústria do armamento e sustenta o complexo militar-industrial, obliterando a necessidade de uma transição justa global da agenda internacional e sacralizando o princípio do egoísmo nacionalista contra o da solidariedade internacionalista.
O campismo atrasa a luta anti-imperialista
Apesar da sua expressividade em alguns países, o movimento antiguerra está aquém das exigências do nosso tempo. Para além de fatores como o refluxo das lutas, a atomização, o individualismo, a orientação dos movimentos é também decisiva para confrontar o imperialismo nas múltiplas formas que hoje veste. Um dos obstáculos é a persistência do campismo em largos setores da esquerda, incluindo pessoas e organizações que outrora se tinham pautado pelo internacionalismo.
Vários textos neste número tratam do campismo e das suas várias facetas, e demonstram que ele não começou com a guerra fria. António Louçã fala do pacto germano-soviético de 1939 e de como ele definiu a história da Europa e a tragédia da Segunda Guerra Mundial. Alda Sousa evoca o taticismo e a política ziguezagueante de Estaline que se saldou em 1947 pelo apoio dado na ONU à partição da Palestina e à criação do Estado de Israel. Francisco Louçã analisa a paralisia gerada pelo apoio a regimes “de mal menor” ou a armadilha de “definir a política a partir de campos de obediência internacional”. Relembra ainda o processo da Tricontinental como a tentativa até hoje mais bem sucedida de criar um movimento internacional anti-imperialista que recusou aliar-se ao “campo soviético”. O artigo de Miguel Heleno e Jorge Costa falam do campismo como um “internacionalismo de estado”, quer na guerra fria quer hoje, e da “recaída do campismo”, nomeadamente com os BRICS.
Uma das máximas do campismo é que “o inimigo do meu inimigo é automaticamente meu amigo”, o que se tem traduzido na defesa de governos oligarcas e de democracia duvidosa..
Para a esquerda internacionalista, a solidariedade que conta é com os povos oprimidos e não com os governos, mesmo aqueles que se apresentam como anti-imperialistas.
Caminhos para o internacionalismo
Nas várias lutas do movimento antiguerra em Portugal temos nos encontrado com coletivos e organizações religiosas e da sociedade civil, como os Humans Before Borders, a Amnistia Internacional, os Judeus pela Paz ou setores da Igreja Católica. Estas plataformas unitárias têm sido fundamentais para denunciar e combater a brutalidade da nova face do imperialismo. Dois textos desta edição dão-nos elementos para pensar as posições e as bases teóricas das organizações com que nos cruzamos no movimento antiguerra. O texto de Angelina Giannopoulou faz uma análise das posições mais recentes da igreja católica e o seu confronto aberto com o trumpismo, enquanto o texto de Pedro Silva vai à origem do debate entre a Teoria da Guerra Justa e o Pacifismo e o transpõe para o atual momento. Conhecer quem está ao nosso lado no movimento antiguerra fortalece o diálogo e prepara a esquerda internacionalista para intervir e amplificar a luta unitária.
O papel catalisador do movimento unitário antiguerra e participação ativa nas mobilizações pela paz são só uma parte do caminho. O texto de Miguel Heleno e Jorge Costa sugere-nos a necessidade de um espaço internacionalista em Portugal que “não ceda ao militarismo europeu e à NATO, nem ao neocampismo” e que possa manter um debate permanente e formar militância anti-imperialista fora destas lógicas. Poderá ser esse também o espaço onde se interliga o movimento antiguerra com outras lutas, nomeadamente a luta pelo climática, como aponta o texto de Ricardo Moreira, criando um internacionalismo renovado capaz de derrotar o obscurantismo da guerra infinita.