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Artigo de Izaura Solipa.


2020, EUA, o cenário é distópico. Talvez seja melhor, aconselham os paramédicos – que não tiram os sinais vitais porque serão obrigados a acionar a ambulância caso detectem alguma anomalia – chamar um uber, pois a ambulância vai-lhe custar mil dólares. Por cá, as reações deambulam entre o horror e a gargalhada, mas têm por base a incompreensão do fosso entre o Estado Social oriundo da social democracia a que estamos habituadas desde Abril, e o Liberalismo que caracteriza o regime estadunidense. Não só a nível de direitos sociais concedidos, mas na interligação do estado com o papel do mercado enquanto providenciador social. No modelo liberal, a assistência é escassa, carregada de estigma, e os beneficiários são predominantemente do estrato social mais baixo. O estado encoraja o mercado, quer passivamente – ao garantir o mínimo dos mínimos – quer ativamente, ao subsidiar agentes privados responsáveis por áreas como a saúde, a educação, ou reformas. Este modelo resulta na contenção de direitos sociais e num dualismo de classe acentuado entre os recipientes dos benefícios sociais e uma classe média diferenciada pelo mercado.

O preço do liberalismo

No modelo social democrata, o papel do mercado é reduzido e o estado aposta na reforma enquanto estratégia dominante para a promoção da igualdade.  Os trabalhadores necessitam de recursos sociais e económicos, saúde e educação, para efetivamente poderem participar na sociedade, o que implica um aumento dos apoios públicos. Diferentes estratos de trabalhadores são incorporados sob um seguro universal, ainda que os benefícios estejam nivelados de acordo com o nível de riqueza de cada um. Todos beneficiam, todos são dependentes, e todos, presumidamente, se sentem obrigados a contribuir. Para funcionar, a social democracia terá de procurar o pleno emprego, maximizando a obtenção de receitas e minimizando conflitos sociais. Em profundo contraste, encontra-se a distopia do estado liberal dependente da fidelização de estratos sociais reduzidos e politicamente residuais. À população resta apenas o mercado – onde as leis económicas fixaram o preço da ambulância em mil dólares.

É aqui que entra Bernie Sanders carregando a bandeira de um estado social universal. Numa sociedade assente nos mínimos, as suas propostas – das quais o próprio destaca um serviço nacional de saúde e o cancelamento da dívida estudantil – surgem como a reposição dos direitos básicos negados a uma população que cada vez mais os reivindica. A necessidade premente de um estado social democrata – e por sua vez de Bernie Sanders – torna-se facilmente compreensível, ainda que distante das nossas vivências.

No entanto, há algo que nos aproxima da vivência americana: os 40 anos de neoliberalismo que desorganizaram a classe trabalhadora e construíram um imaginário de individualidade. Com a desregularização do mercado laboral e a competição no acesso a apoios sociais, assente na narrativa da privatização, o colapso das democracias ‘ocidentais’ tem vindo a ser capitalizado pela extrema-direita. Nas palavras de Zygmunt Bauman, a ideologia da privatização assume a presença de um culpado em cada caso de sofrimento, que induz uma procura desenfreada por tal indivíduo. A extrema-direita tem, com infeliz sucesso, apontado tal culpa aos ‘intrusos’ – os imigrantes, legais ou ilegais, em busca de exílio, em última instância responsáveis pela perda de condições de vida da classe trabalhadora. Aproveitando-se da lógica individualista do neoliberalismo, a existência de conflitos sociais é explicada pela inadaptação por parte dos ‘intrusos’, fruto da sua ‘deficiência cultural’. Para alguns trabalhadores, apelos ao ‘sangue e nação’ surgem como a única forma viável de organização coletiva. Encontrar na imigração um bode expiatório não é sinal de patologia pessoal, mas sim de um desespero coletivo.

Contra a selvajaria neoliberal

É a resposta ao desespero que nos une tanto a Sanders: capturou o desespero coletivo ao encontrar um culpado, não nos intrusos, mas na classe bilionária, remetendo para a luta de classes como  única solução possível. O que nos une a Sanders é menos o seu programa político de garantia de  direitos aos cidadãos americanos, direitos que nos parecem básicos, e mais a estrondosa mobilização de trabalhadores, despidos de direitos e liberdades, de que foi capaz. Em particular numa América que limita  a participação da classe trabalhadora, Sanders usou a atividade eleitoral e a necessidade de instituições representativas para conceber um caminho de ‘revolução política’. Para tal, precisa de criar uma base social de trabalhadores que se sintam parte de uma classe com profundo interesse na revolução. Reconstruir a classe trabalhadora como sujeito político e criar um ambiente favorável para que se possa organizar dentro e fora da arena eleitoral tem sido um evidente marco da sua campanha. Bernie não só o socialismo e a revolução no debate, como deixou clara a escolha de classe do seu movimento. Ao fazê-lo, contribui ainda para diluir a ‘guerra da cultura’, substituindo-a por uma entre  democracia de classe e oligarquia.

Candidato anti-sistema, mobiliza tanto os descrentes que encontram respostas em Trump, como os grupos oprimidos, alvo de crescentes discriminações. A narrativa anti-sistema e a luta de classes como ponto central são evidenciados quando o próprio define não só um coletivo – It is not me, it is us – mas um inimigo comum– It is not us, it is them. Depois das retóricas ascendentes de prosperidade vs a realidade esmagadora de Obama, a mobilização de um coletivo com consciência de classe parece ser possível com Sanders. Não porque promete programas sociais e universais, mas porque os ancora no desmantelamento da classe bilionária. Mas não sem contradições.

Uma reforma do estado social, embora focada na politização dos trabalhadores, beneficia a vida das comunidades mas tornar-se-á inócua a longo prazo. Como sugerido por Brenner, ao providenciar os direitos básicos que permitem a participação em sociedade, a classe trabalhadora aceita estes incrementos de bem-estar mas afasta-se da revolta popular capaz de desafiar o status quo. Esta linha de pensamento incorpora um marxismo contemporâneo, onde, por definição, reformas sociais nunca poderão resultar em emancipação. Uma teoria largamente apoiada pelo papel marginal que a mobilização laboral tem ocupado nos vários regimes sociais democratas, que reflete mais a influência do conservadorismo no conceito de Estado do que uma implementação incipiente de políticas sociais.

O limite de Bernie Sanders

Aqui reside a limitação da política de Sanders: a implementação de reformas sociais enquanto principal agitador do sindicalismo americano. Uma ideia a-histórica que por si só culminará na mimetização de uma sociedade ‘ocidental’ de modelo social democrata. A nuance, que apesar do legado de Brenner, nos permite acreditar em Sanders como ponto de viragem na esquerda global, é que o próprio atesta esta limitação. Sanders sabe que a reconstituição da classe trabalhadora enquanto sujeito político capaz de mobilização é crucial, e que a emancipação só chegará quando a ‘revolução política’ for substituída por uma popular que lhe retire os privilégios. É este reconhecimento, inclusive o da sua futura dispensabilidade, que nos faz acreditar num senador que não aceita a consciência como ela é, e que investe na criação de uma identidade coletiva composta por diferentes opressões e pelas suas interligações. Porque, para Sanders, a opressão que uma mulher negra sofre não é a soma da opressão racial e de género, mas um imaginário único de violência fruto da interação entre tais opressōes.

E é também o reconhecimento desta interseccionalidade, não enquanto bandeira vazia da política identitária, mas enraizada na luta de classes, que tem permitido a crescente solidariedade entre trabalhadores, comunidades imigrantes, coletivos discriminados pela raça, género, orientação sexual, que se organizam em torno de um objetivo em comum: destronar a classe responsável pelas suas múltiplas opressões – a capitalista.


Izaura Solipa é estudante de doutoramento em Amherst, Massachussets.