Cinzia Arruzza: «A autonomia do feminismo em relação ao campo eleitoral é fundamental»

image_pdfimage_print

Entrevista de Estefanía Pozzo


A feminista italo-norte-americana participou em cinco atividades no âmbito do primeiro Forum do Pensamento Crítico, organizado por CLACSO [Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais] a semana passada.

Cinzia Arruzza é italiana mas vive em Nova Iorque, onde ensina filosofia na New School of Social Research. Enumera, no início de um diálogo com feministas da Argentina e América Latina, os inexistentes direitos laborais nos Estados Unidos e como organizar uma greve é considerado ilegal em terras do presidente Donald Trump.

É quinta-feira e está calor. Arruzza chegou à Argentina na semana em que a temperatura começou a subir em Buenos Aires. Mas o efeito do calor também se replicou entre os feminismos argentinos, no meio de um debate gerado por um discurso da ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner, que defendeu que não se devia dividir entre os que rezam e os que não rezam, e que no seu espaço político coexistiam lenços azuis celeste e lenços verdes.

Arruzza conversou com El Cronista e defendeu que o movimento feminista tem que resistir às pressões, tanto do que chama de direita neotradicional como do liberalismo progressista.


No CLASCO apresentaste uma série de desafios políticos do feminismo tanto à esquerda e ao progressismo como também dos liberais clássicos. Como pensas essa tensão política na militância feminista e a representatividade nos lugares de poder?

No manifesto que escrevemos – com a Nancy Fraser e a Tithi Bhattacharya (Manifesto para um feminismo dos 99%) – dizíamos que havia uma divisão principal do campo eleitoral entre o que chamamos liberalismo progressista – como Barack Obama, Hillary Clinton e este tipo de postura liberal com uma relativa abertura aos direitos civis, gays e de mulheres – e outro setor reacionário que chamamos direita neotradicional – como Donald Trump nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro no Brasil, Matteo Salvini em Itália ou o governo na Polónia –, que se apresentam a si mesmos como alternativas ao neoliberalismo, como uma alternativa ao poder dos grandes capitais ou do establishment. Esta direita neotradicional ataca os direitos e as liberdades das mulheres, as pessoas trans e os imigrantes. Ha outras forças no campo eleitoral, mas estas são as duas opções maioritárias.

Isto, obviamente, gera muitas pressões sobre o movimento feminista para que este apoie o progressismo liberal como defesa contra a escalada da direita. Quer dizer que os partidos que têm a principal responsabilidade pela crise, a deterioração das condições de vida (que na Europa estimulou o surgimento da xenofobia) pressionam para obter apoio como uma defesa contra a barbárie da nova direita. Evidentemente que é necessário resistir a esta pressão.

Por outras palavras: temos de estar atentas ao facto de que o liberalismo progressista não é a solução, mas parte do problema. Criou as condições para a emergência desta direita xenófoba. Apoiar este setor não pode ser a solução, mas é evidente que temos de opor-nos à direita.

O movimento feminista ao redor do mundo deve ser a principal força de oposição à direita, da Polónia, do Brasil ou dos Estados Unidos. Temos que continuar a opor-nos à direita e ao mesmo tempo a resistir à pressão do progressismo liberal.

Crês que essa análise também é válida para os países da América Latina? As realidades sociais não mudam esta forma de pensar a política?

Creio que há algumas diferenças. No entanto, na Argentina percebemos que a pressão está em unir os dois lenços. É basicamente uma traição ao movimento feminista e para a sua radicalização. Há uma poderosa mobilização na Argentina, não só a propósito do aborto, mas também no que se relaciona com os direitos em geral e com tudo o que o governo de Mauricio Macri fez. Apelar à unidade, à unidade a todo o custo, é basicamente renunciar às reivindicações fundamentais que são cruciais para a vida de milhões de mulheres.

Também ouvi que dizem que a legalização do aborto é uma reivindicação burguesa. É realmente incrível que alguém o possa pensar, porque as mulheres de classe média têm acesso ao aborto, inclusivamente quando o aborto é ilegal (têm a possibilidade de viajar porque têm dinheiro para o fazer e contactos para fazer um aborto quando precisarem). As mulheres que morrem por causa do aborto são as mulheres da classe trabalhadora e as mulheres pobres. Este é um assunto de classe e simultaneamente um assunto de género.

Em essência, claro que há uma diferença aqui na articulação, na forma como a esfera eleitoral vai pressionar o movimento feminista. Mas, ao mesmo tempo, creio que há alguns elementos da dinâmica que são os mesmos, que é a exigência feita ao movimento feminista para renunciar a uma parte da sua radicalização.

Na Argentina é renunciar à determinação da legalização do aborto e do direito de controlar o seu próprio corpo. Noutros países onde há liberalismo progressista, como Hillary Clinton, a exigência é para renunciar às reivindicações relacionadas com os direitos laborais para as mulheres ou aos direitos para as mulheres imigrantes.

Em qualquer caso, trata-se da pressão proveniente da esfera eleitoral para tentar dividir e forçar o movimento feminista a tomar decisões que o debilitem, através da renúncia a alguns elementos que contribuíram para o fortalecer nos últimos anos.

O movimento feminista pode construir nas atuais instituições de poder?

Individualmente pode participar-se, mas a chave é a autonomia do movimento face à dinâmica eleitoral.

Como se constroem maiorias a partir do feminismo?

Ni Una Menos já o faz, já construíram uma maioria social. É claro que é um processo. Creio que há que continuar com as mesmas formas de construção, as mobilizações, as assembleias. Vocês são uma das minhas principais referências e também o são para o movimento global. Deveriam estar conscientes de que todos estão de olhos postos em vós. Se cedem às pressões, pode ser um desastre para o movimento feminista a nível global, e não só na Argentina.

O que pensas sobre o recente acordo da Argentina com o FMI?

Ni Una Menos utilizou um slogan no último ano que creio que resume tudo. Era «Vivas, libres y desnudadas nos queremos». Creio que este deveria ser um assunto central do movimento feminista do século XXI. Porque quando falamos de crise do sistema de produção e reprodução, que ataca os serviços do cuidado, muitas vezes estão motivados pela gestão da dívida. Isto é absolutamente atroz. Creio que deveriam pedir uma auditoria à dívida. Tem  um efeito direto na vida das mulheres.


Publicado originalmente em El Cronista (27-11-2018). Edição original disponível aqui: https://www.cronista.com/economiapolitica/Cinzia-Arruzza-Es-clave-la-autonomia-del-feminismo-respecto-del-campo-electoral-20181126-0050.html

Tradução: Rede Anticapitalista