Como criar movimentos sociais digitais à esquerda?

Escrito em software livre

A sociedade hoje está indissociavelmente ligada à vida digital e os movimentos sociais e a esquerda tem de saber comunicar e organizar-se também por vias digitais. Primeiro, observaremos o aspecto óbvio das redes sociais, e plataformas semelhantes, e o papel que têm desempenhado nos movimentos sociais à esquerda. Depois, veremos o que existe para além das redes e plataformas e como poderão ser bem utilizadas para criar mudanças sociais de esquerda a partir da ação popular que caracteriza os movimentos sociais.

Hoje, a internet parece ser o espaço das grandes plataformas sociais (Meta, X, TikTok, Discord…). É natural que a maioria dos movimentos sociais pareça ter início, ganhe relevância ou até seja organizada a partir delas. De facto, existe um rol de exemplos de movimentos, manifestações, protestos e iniciativas que atestam o poder da viralização de informação e conteúdo nestas redes: a Primavera Árabe, o Que se lixe a Troika, a hashtag #MeToo, os protestos Black Lives Matter , os No Kings, a iniciativa (vencedora) do My Voice,  My Choice, os protestos na Sérvia ou a revolta social no Nepal.

Vemos que estas plataformas foram úteis para estes movimentos, especialmente como megafone mediático. No entanto, reparamos que têm tendência a ser efémeros e a desmobilizar-se rapidamente. Passam de algo mínimo a uma erupção em pouco tempo. São impactantes, sim, mas uma raridade. Emergem de episódios mediáticos altamente emotivos e, tal como aparecem, desaparecem. Parecem mais um espasmo ou um reflexo do que um movimento organizado. Embora consigam alguns bons resultados, não são eficientes se não se expandirem para fora das redes e plataformas.

Afinal, quantos milhares ou milhões de publicações e tentativas de mobilização têm impacto real? Nem sabemos. Estas plataformas são propriedade privada, detidas pelos tecno-oligarcas que a esquerda procura combater. São altamente manipuladoras, seja através de algoritmos, bots, brigadas de trolls ou censura (como se vê claramente no caso da Palestina), que atingem especialmente a esquerda. São terreno fértil para a direita, mas um campo de batalha minado para a esquerda. Talvez influenciem o zeitgeist contemporâneo, mas é duvidoso que tenham eficácia metódica e duradoura para a esquerda. Não é de admirar, afinal, são controladas por quem defende o oposto dos valores de esquerda.

Parte da estratégia da esquerda será manter a luta dentro destas plataformas, manter a esperança de furar o algoritmo e viralizar, mas sem a ilusão de que são a ferramenta fulcral para os movimentos de esquerda. Ainda assim, devem ser alvo de atenção dos movimentos de esquerda, de forma a garantir a regulação destas plataformas e que possam funcionar de maneira mais sã e justa na sociedade.

Felizmente, a internet e o digital são muito maiores do que as redes sociais e plataformas. Existe uma série de oportunidades subutilizadas que permitem criar e, acima de tudo, crescer e manter um movimento social à esquerda.

Usando as redes e plataformas tradicionais como meio extra de divulgação e contacto, os movimentos mais bem-sucedidos organizam-se digitalmente para além delas.

É essencial garantir que qualquer movimento exista fora do alcance da tecno-oligarquia. E é mais fácil do que parece: a utilização ou criação de espaços alternativos é relativamente simples. Criar um grupo de conversas (e.g. o Signal, o Element), abrir um site próprio, ter presença em redes descentralizadas (como o Mastodon), começar um fórum, fazer newsletters, campanhas de angariação de fundos… Tudo isto é acessível e garante independência, resiliência e, principalmente, o potencial para construir um movimento e manter uma comunidade organizada sem depender de constantes mudanças de algoritmo, censura, cancelamentos ou ataques tecno-capitalistas.

Todas as ferramentas digitais usadas por ativistas têm uma alternativa em software livre. Gravar um podcast é fácil com o Audacity, editar vídeo com o OpenShot, para videoconferências o Jitsi é excelente. Uma pesquisa rápida revelará muitas outras opções. Fóruns como os do Discourse ou do Lemmy permitem discussões aprofundadas sobre os temas que mais interessam ao movimento. Mas talvez o mais interessante sejam as possibilidades organizativas que podem obter. Vale a pena notar que já existem partidos de esquerda e sindicatos com aplicações de telemóvel prontas a ajudar a mobilizar pessoas para manifestações e outras ações. É o caso, por exemplo, da França Insubmissa, com a Action Populaire.

Por fim, creio que existe um aspeto em que o digital é, comprovadamente, um espaço que pode ser utilizado e reivindicado pela esquerda pois implementam-se perfeitamente algumas facetas do socialismo. Dois casos são exemplares.

A Wikipédia é o maior repositório de conhecimento humano da história. É livre, completamente gratuita, e qualquer pessoa com acesso à internet pode aceder-lhe. Não está sujeita a publicidade abusiva nem a algoritmos manipuladores. É feita pelo povo, para o povo, e financiada por ele. É um projeto que já decorre há 25 anos, sem fim à vista.

E a comunidade de software livre. Tal como a Wikipédia, são programas digitais feitos pelo povo e para o povo. O Linux, por exemplo, é a base digital do mundo contemporâneo, com uma importância tal que até as maiores empresas do mundo são obrigadas a contribuir e a financiar um projeto dirigido por uma organização sem fins lucrativos.

Talvez falte só relembrar que um movimento social digital necessita do mesmo que qualquer movimento social não digital. Criar valores pelos quais vale a pena lutar e demonstrar a vontade e a força para fazer uma mudança social que beneficie a população, especialmente a maioria da população trabalhadora, ou que viva numa comunidade solidária e funcional. As ferramentas digitais de esquerda estão lá para ajudar com o resto. Não existem fórmulas certas, mas creio que, não só estes métodos estão mais fadados ao sucesso, como são congruentes com a política, os desejos e as práticas da esquerda.

Uma palavra final de cautela, apesar de todo o potencial do digital, nunca nos esqueçamos do físico.