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Artigo de Keeanga-Yamahtta Taylor.


O levantamento do país em resposta ao assassinato de George Floyd, um homem negro de 46 anos, por quatro polícias de Minneapolis, foi o resultado do choque, da exaltação, da preocupação e do temor, com sinais de solidariedade. A sua dimensão foi surpreendente. Em todo o país, as ruas, em grandes como em pequenas cidades, encheram-se de multidões de jovens multirraciais que disseram “basta”. Trata-se do maior levantamento desde a revolta de Los Angeles em 1992, que manifestava a sua ira e amargura por causa da desenfreada violência policial, e por assassinatos racistas. Todos esses sentimentos se espalharam até aos confins dos EUA.

Para sufocar a revolta, foram colocados nas ruas mais de 17 mil soldados da Guarda Nacional e mais soldados do que os que atualmente ocupam o Iraque e o Afegansistão. Mais de dez mil pessoas foram presas e doze foram mortas, na sua maioria afroamericanos. Foi imposto o recolher obrigatório em trinta cidades, incluindo Nova Iorque, Chicago, Filadélfia, Omaha e Sioux City. Foram organizadas manifestações de solidariedade de Acra a Dublin, de Berlim a Paris e Londres. E o mais surpreendente é que, duas semanas depois da morte de Floyd, os protestos ainda não terminaram. No sábado passado (13 de junho) houve as maiores concentrações desde sempre, com dezenas de milhares de pessoas.

A fúria implacável e o ritmo da revolta obrigaram os estados a ignorar os seus tímidos esforços para dominar o o coronavirus que continua a contagiar milhares de pessoas no país. Os dirigentes dos estados foram muito mais rápidos a chamar a Guarda Nacional e a coordenar as ações policiais, para enfrentar os manifestantes, do que para se esforçarem em reduzir o efeito do virus. Donald Trump, numa exibição de autoritarismo e de cobardia, ameaçou chamar o exército para ocupar as cidades. A palavra “crise” não basta para descrever a vertigem que se iniciou.

Houve manifestações planeadas, mas também protestos explosivos que só podem ser descritos como uma revolta ou um levantamento. Os distúrbios não são só a voz dos deserdados, foram também, segundo a famosa expressão de Martin Luther King, a ruidosa entrada dos oprimidos na vida política. Transformaram-se numa espécie de cenário do teatro político em que a alegria, a repulsa, a tristeza, a raiva e emoção chocam num baile catártico. É a afirmação dos oprimidos.

Por uma vez na sua vida, muitos dos participantes podiam ver-se, escutar-se e sentir-se em público. As pessoas foram arrastadas das margens para uma força poderosa que não pode ser ignorada, atacada ou facilmente afastada. Ao desfrutar dos primeiros sabores da liberdade real, quando a polícia teme a multidão, os distúrbios podem ser rebeldes ou imprevisíveis. Mas dentro desse enredo contraditório surgem reivindicações e aspirações a uma sociedade diferente. Os rebeldes não expressam só a sua consternação, mas também revelam o nosso dilema social. Como afirmou King sobre os levantamentos dos finais da década de 1960: “Não me entristece que os negros norte-americanos se estejam a revoltar; não era somente inevitável mas eminentemente desejável. Sem este magnífico fermento entre os negros, os adiamentos de sempre continuariam indefinidamente. Os negros fecharam a porta de um passado de passividade. Exceptuando os anos da Reconstrução, os negros na sua longa história em solo norte-americano nunca lutaram com tanta criatividade e coragem pela sua liberdade. Estes são os nossos anos brilhantes de afirmação; mesmo que sejam dolorosos, não podem ser evitados”. King viria a acrescentar: “A revolução negra é muito mais do que uma luta pelos direitos dos negros. Obriga os EUA a enfrentar-se com os seus males inter-relacionados: racismo, pobreza, militarismo e materialismo. Denuncia os males que estão profundamente arraigados na estrutura da nossa sociedade. Revela as falhas sistémicas mais que as superficiais, e sugere que a reconstrução radical da própria sociedade é o verdadeiro problema por resolver”.

Deve ser claro, por estes dias, quais são os objetivos da revolta dos jovens negros: o fim do racismo, do abuso policial e da violência; o direito a libertar-se da coerção económica que é criad pela pobreza e pela desigualdade.


Keeanga-Yamahtta Taylor é professora de Estudos Afroamericanos na Universidade de Princeton, nos EUA. Este texto é um extrato do seu artigo na New Yorker, em junho de 2020.