A guerra é a linguagem do capitalismo atual. O neofascismo ascendente nem conhece outra. O tempo de relançar um antimilitarismo internacionalista é agora.
Em Gaza, o genocídio em direto prolonga-se no Líbano e na guerra infinita contra o Irão. Trump quer capturar a América Latina, já se instalou na Venezuela, ameaça Cuba e faz da interferência direta uma realidade continental. A China consolida-se como potência imperial pela captura de bens estratégicos de outros povos. A NATO, colocada na função de central de venda de armas norte-americanas na Europa, contribui para o apodrecimento da guerra na Ucrânia, sem solução militar. Em vez de promover uma paz negociada, a União Europeia faz parte do problema. Apostada no seu “rearmamento” (como se não fosse já uma potência mundial), dissipa recursos preciosos para responder ao aumento do custo de vida e à catástrofe climática. Apesar das grandes mobilizações mundiais pela Palestina, um movimento anti-guerra realmente expressivo tarda em surgir. Quais os dilemas da solidariedade internacionalista? E em Portugal? Que podemos fazer para promover a mobilização?
O internacionalismo como estratégia
O movimento socialista tem o internacionalismo como parte da sua identidade fundadora: ele afirma na cultura popular a pertença de classe, em concorrência com a imaginada “comunidade nacional”. Quando milhões de trabalhadores se matavam entre si para realizar os planos das oligarquias dos respetivos países, a recusa da primeira guerra mundial levou à criação da III Internacional.
A importância da solidariedade ativa é também a incidência na relação de forças concreta, seja pelo efeito da propaganda nas opiniões públicas globais, seja pelo apoio material direto. A preocupação da ditadura salazarista, durante a guerra colonial, com os movimentos europeus e norte-americanos de solidariedade com os povos colonizados é um bom exemplo disso. Sem a solidariedade internacional, povos como os de Timor ou da Palestina poderiam já não existir. É isso que explica os investimentos do Estado genocida de Israel na manipulação de massas.
A solidariedade é também uma escola sobre a natureza de um sistema de opressão que é hoje mundial. Um movimento anti-guerra não é só a expressão dos valores humanitários da esquerda, da solidariedade com quem mais sofre a opressão e a brutalidade. Ele aumenta a consciência popular sobre a identidade real entre capitalismo, militarismo e colonialismo.
É necessário um movimento anti-guerra amplo, aberto à diferença e ao debate, mas independente perante todos os Estados e imperialismos. Historicamente, os movimentos anti-guerra foram espaços em que a esquerda se afirmou, conquistando opiniões contra o capitalismo do desastre.
Da guerra fria à alterglobalização
Desde a segunda guerra mundial que a lógica dos blocos da guerra fria prevaleceu sobre a solidariedade internacionalista. A social-democracia subordinou-se à hegemonia norte-americana no ocidente através da NATO; os partidos comunistas – e o português mais que todos na Europa – adotaram a agenda de relações internacionais da URSS. A subordinação à burocracia de Estaline instalou um “internacionalismo de Estado” e a lógica da guerra fria acabou por engolir as experiências inspiradas na revolução cubana, como na Bolívia ou no Chile. Pelo seu lado, a esquerda revolucionária acompanhou e apoiou processos emancipatórios e resistências anti-imperialistas de forma independente da lógica da guerra fria. Foi assim que, seguindo as hesitações da URSS face à junta militar na Argentina, o PCP se colocou à margem da campanha unitária de denúncia do mundial de futebol de 1978 ou que, nos anos 80, recusou apoio às greves dos mineiros contra a ditadura na Polónia.
Depois da queda do muro de Berlim, a primeira guerra do Golfo estabeleceu o “momento unipolar” do imperialismo norte-americano, agora polícia da ordem neoliberal. A invasão do Kuwait por Saddam Hussein em 1990 foi pretexto para o bombardear o Iraque em larga escala e justificar a existência da NATO no pós-guerra fria, passando a intervir à escala do planeta. A agenda dos protestos era ainda, em Portugal, a do Conselho para a Paz (CPPC), organização hegemonizada pelo PCP. Essa situação altera-se na viragem do século, com a utilização da internet para a criação de uma rede “alterglobalização”, um novo internacionalismo que recusava a imposição neoliberal e propunha um calendário mundial e permanente de fóruns e iniciativas em diversas escalas. Será também nestes espaços que se desenvolvem as grandes coligações contra a guerra, primeiro contra o Afeganistão (depois do 11 de setembro de 2001) e depois contra o Iraque, invadido em 2003. Alguns partidos comunistas integram-se a contragosto; na região europeia, forças como o Bloco de Esquerda, o SWP inglês ou a LCR francesa tornaram-se centrais. Em Portugal, há assembleias de movimentos e partidos que se inspiram nos “fóruns sociais” contra a guerra e também na experiência portuguesa de 1999, quando uma mobilização de massas sem precedentes desde o 25 de abril denunciou ao mundo o genocídio que o exército indonésio executava em Timor Leste. O Bloco de Esquerda, recém nascido, foi central em iniciativas de mobilização abrangentes – incluindo sindicatos, igrejas, artistas -, muito além das estruturas tradicionais da solidariedade com Timor.
Da crise mundial à recaída campista
Afetado pela fraca experiência do primeiro governo brasileiro do PT e, na Europa, pela integração da Refundação Comunista num governo liberal em Itália, o movimento alterglobalização perde força. A esquerda chega desmoralizada à crise de 2007-08, mas na Europa do sul, atingida pelas medidas mais pesadas da austeridade, emerge das redes sociais então nascentes o movimento dos “indignados”. Na Grécia, em 2015, o governo do Syriza capitula perante a troika, descredibilizando a hipótese desobediente que a esquerda vinha colocando e dispersando os últimos vestígios do movimento alterglobalização europeu.
Em 2009, realiza-se a primeira cimeira dos BRICS. Saudosa do “socialismo real” como contracampo face ao imperialismo norte-americano, parte da esquerda vislumbra uma nova “ordem multipolar” em que estas potências, “emergentes” apesar da crise, constituem, na concorrência com os EUA, um campo “anti-imperialista”. Nesse processo, este novo campismo imita os vícios da guerra fria: tal como Washington via aliados democráticos em qualquer genocida anticomunista, os neocampistas consideram aliados seus, numa mesma “frente” contra os EUA, qualquer ditador ou oligarca que antagonize a política internacional de Washington. Foi por isso que, perante a repressão em Angola, o terrorismo de Estado na Síria, ou a invasão russa da Ucrânia, o Bloco de Esquerda ficou com o encargo exclusivo de apresentar uma posição internacionalista independente.
O último ano e meio (segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca) foi marcado pela afirmação crua do imperialismo predatório e da ingerência sem limites. Da consumação do enterro do direito internacional em Gaza ao acordo de partição que tentou impor (em direto) à Ucrânia, passando pelo sequestro do presidente venezuelano (e imposição de um governo-fantoche) e, ainda, pelo brutal cerco a Cuba, terminando no assassinato da cúpula política do Irão, dando início a uma guerra em escalada intermitente, Donald Trump é o rosto do império num tempo do ascenso neofascista global. Uma das razões para a debilidade da resposta a estes crimes internacionais dos EUA é a falta de demarcação face aos regimes autoritários vigentes em Cuba, na Venezuela sob Maduro ou no Irão dos aiatolas. Essa demarcação não impede um choque aberto com a agressão trumpista, pelo contrário: reforça-o.
Abrir espaços para o internacionalismo
As mobilizações pela Palestina nos últimos quase três anos (desde a resposta genocida ao 7 de outubro) são um bom exemplo do que fazer e não fazer para construir um movimento anti-guerra. A solidariedade existiu, mas a persistente imposição pelo PCP de uma lógica concorrencial da sua organização-satélite (MPPM) sobre os diversos coletivos que marcaram presença nestes anos foi desmoralizadora (convocatórias sobrepostas, etc) e diminuiu a mobilização no seu conjunto. Desta experiência ficaram momentos muito relevantes (ex: durante a flotilha humanitária) mas, ao contrário de outros países europeus, continuamos longe de uma plataforma ampla com intervenção continuada e capacidade de marcar a agenda, que poderia ser semente de um novo movimento unitário anti-guerra em Portugal.
Falta em Portugal um espaço internacionalista crítico, que – sem prejuízo de todas as articulações alargadas – não ceda ao militarismo europeu e à NATO, nem ao neocampismo. Um espaço que perante a guerra em curso no solo europeu, esteja solidário com o povo ucraniano agredido e exija uma política europeia para negociações de paz. A abertura de um tal espaço poderia contribuir para um movimento anti-guerra relevante e abrangente no contexto de guerra infinita e de ameaça fascista que vivemos.