Contra os Corpos Dóceis em Teletrabalho

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Artigo por Alexandre Portela, estudante de Filosofia.


O confinamento imposto pelas autoridades de saúde pública apenas pôde ocorrer através de uma forma de poder que tenha legitimidade em regular os corpos da população inquestionavelmente e por isso constitui-se também como violência- Biopoder é o poder sobre o Homem enquanto ser vivo, uma estabilização dos seus aspetos biológicos. Já o conjunto das políticas que dele derivam e que o implementam na sociedade pelo Estado é chamado de Biopolítica.

É um poder de fazer viver ou deixar morrer vindo da necessidade de assegurar a salubridade da sociedade que é condição para uma massa de indivíduos saudáveis e, portanto, úteis e controlados dos quais se pode extrair a sua força eficientemente. O objetivo da governação capitalista através da Biopolítica é apenas assegurar a reprodução social e a integração dos indivíduos na cadeia de produção.

Enquanto a disciplina incide diretamente sobre o corpo do indivíduo, este Biopoder tem como objeto a população, a multiplicidade dos Homens enquanto multidão desordenada capaz de ser regulamentada. Quere-se um estado geral de equilíbrio: surgem novas tecnologias reguladoras fundamentadas na medicina. Esta é um saber-poder que faz a ponte entre o indivíduo e a população: através dos efeitos disciplinares (tal como o internamento forçado de alguém) e efeitos reguladores (o dever geral de recolhimento enquadra-se nisto). Assim, a disciplina e o Biopoder não se autoexcluem, ocorrem articuladamente.

Na sociedade moderna há um foco na vigilância para manter a ordem. Quem vigia não é visto, os vigiados estão completamente expostos. A prisão em forma de panótico é o símbolo ilustrativo das tecnologias da disciplina em geral, em que o controlo é feito sobretudo na mente, de forma despersonalizada e automatizada o que permite à disciplina chegar a mais lados.

O Corpo Dócil é o produto ideal da disciplina, um corpo que pode ser subjectificado, usado, transformado e aperfeiçoado facilmente. Há um adestramento do Homem, uma domesticação. O controlo faz-se por exemplo pela manipulação espacial para separar e expor os indivíduos, a incorporação de rotinas com a fixação de horários ou a imposição de exercícios para atingir a máxima eficiência dos movimentos. Quanto mais obedientes, mais úteis os corpos são.

 

“Não trabalho em casa, durmo no escritório”

No caso do teletrabalho, fez-se coincidir o posto de trabalho com o local de fruição do indivíduo, abrindo a possibilidade de prolongar o horário indefinitamente, no peculiar fenómeno de estar permanentemente online.

A descentralização informática do trabalho através da internet atua como um gigante panótico que está permanentemente presente nessas circunstâncias, o que se traduz numa vigilância constante e portanto a ameaça de punição também (a nova lei atua neste campo, impedindo a gravação de audio e som durante o trabalho). Ora, na circunstância de teletrabalho, dá-se a completa transformação do indivíduo num Corpo Dócil, pois não há uma descontinuidade para retornar do estado maquinal do trabalho, já que os horários muitas vezes não eram respeitados, sendo os trabalhadores coagidos por vezes a trabalhar para lá do horário. A nova lei contraria esta lógica de coerção permanente ao colocar no código do trabalho algo inovador como o dever do empregador se abster de contactar fora de horas (salvo exceções que têm de ser justificadas).

É preciso ser subversivo contra este estado das coisas e lutar através de todos os meios possíveis, pois é a única forma de proteger a nossa restante Humanidade.