Contra os jogos de cartas marcadas, a força da Marisa

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Artigo de Adriano Campos.

Antes do começo do fim da pandemia, com uma crise certa pela frente e tantas incertezas no plano das respostas estruturais,  as eleições presidenciais de 2021 ocorrerão num tempo singular. Perante as dificuldades, uma estranha forma de pensamento vai tomando conta do debate ao centro e à esquerda. A leitura das eleições presidenciais como etapa de um jogo tático e a precipitação  por uma disputa percentual e circunstancial são as duas expressões mais visíveis dessa forma que é, na prática, um derrotismo. Há mesmo quem, perante a insegurança e fragilidade que ameaça a vida das pessoas, que exige a mobilização máxima das soluções, responda com um jogo de cartas marcadas.      

A ideia de unanimismo em torno da recandidatura de Marcelo foi ungida pelo PS bem antes da proclamação de António Costa na Autoeuropa, em maio deste ano, numa tentativa clara de reduzir as eleições presidenciais a uma etapa necessária na busca pela quimera da maioria absoluta. Não é um espanto. Onde houve bloqueio à esquerda, Marcelo foi um conforto. Na definição sobre as PPP da saúde, na sangria do Novo Banco, na omissão em situações de abuso laboral que se tornam a regra do abuso, a busca pelas soluções de bloco central marcaram a presidência. Para conformar o voto no candidato do campo conservador, o PS vende a ideia da impossibilidade de alternativas, procurando assegurar a sua posição de governo, e já se sabe que cavalo alugado não cansa.

Há depois quem, vendo o problema de um segundo mandato de Marcelo em condições diametralmente opostas ao primeiro, onde crispação e o conflito subirão de tom, se lance na vertigem da disputa percentual, prometendo gambozinos em noites sem luar. A ideia de uma candidatura unitária à esquerda, que vive das reminiscências da campanha de Jorge Sampaio, perde o condão do encantamento logo que vistas as coisas. Sampaio teve o apoio do PS e, na reta final, do PCP e de outras esquerdas, valendo-se da experiência na Câmara Municipal de Lisboa para juntar forças e estabelecer um papel real de disputa com Cavaco, que era visto como uma forte ameaça. Nada disso existe hoje e nenhuma candidatura reúne esses condições. E não vai ser uma candidatura que se insere no campo de conflito interno do PS que as vais criar. Como em outras eleições, a mobilização de campos políticos distintos, mobilizando mais votos é o que pode travar a campanha da extrema-direita e o fortalecimento de uma candidatura hegemónica ao centro.

Para esse embate, as campanhas fazem-se de escolhas. Duas, sobretudo. Com quem querem estar e o que pretendem apresentar como proposta para o país. E nessas escolhas, a candidatura da Marisa Matias já disse ao que vinha, representando mais garantias, entusiasmo e ideias concretas. Garantia de termos à esquerda a mulher, que foi em 2016 a mais votada em presidenciais, pronta para um embate com o campo conservador e capaz de trazer para a campanha o foco e a estabilidade que esta disputa exige.

Há cinco anos, num tempo em que direita fazia jogos de bastidores com a democracia, a força da campanha presidencial da Marisa teve a força de afirmar a vontade popular. Agora que o país é ameaçado por uma nova crise, contamos com ela e o seu entusiasmo pela mobilização e exemplos de base,  como a luta dos cuidadores e dos sectores que reuniu desde o começo, no seu anúncio do Largo do Carmo. Uma candidata popular, de combate social, feminista e antirracista, lutadora pela justiça climática, pela igualdade e contra os ódios da nova direita. No plano dos direitos internacionais, de Pequim a Washington, passando pelo Médio Oriente, no impasse das respostas europeias, na denúncia das porta giratórias entre a política e os negócios, na afirmação de soluções que combatam a usura da dívida e o regime de exploração que é a precariedade, é com a Marisa que podemos contar em toda a linha.        

Desengane-se quem acha que estas eleições são sobre picar o ponto e que no dia seguinte há um reocupar tácito de posições. A pandemia obrigará, certamente, a uma campanha diferente, com dificuldades e surpresas, mas nada substituirá a presença e a convicção de passar adiante a senha: Marisa à presidência.