COP26: Uma Cimeira construída para falhar

Artigo por Bianca Castro, ativista climática do movimento Fridays for Future.


Todos os dias, à entrada da COP26, o barulho dos delegados que esperavam na fila para entrar no recinto era abafado por tambores e cânticos vindos de fora do perímetro da Cimeira. Os ritmos contagiantes e poderosas palavras de activistas de todo o mundo contrastavam diariamente com a monotonia dos corredores cheios de delegados de fato e gravata que pela conferência passeavam.

Esta COP foi, tal como todas as anteriores, uma Cimeira do Clima construída para falhar.

Uma Cimeira do Clima em que a indústria fóssil teve a maior delegação: mais de 500 delegados, de mais de 100 empresas. Uma Cimeira do Clima em que esta indústria foi melhor recebida do que jovens, do que pessoas com necessidades especiais, do que povos indígenas, do que comunidades na linha da frente da crise climática: do que todos aqueles que deveriam ter estado a ser ouvidos. Uma Cimeira do Clima que, mais uma vez, não passou de um ato performativo de greenwashing.

Já li por aí que a COP26 não tomou decisões. Mas tomou. Decidiu destruir várias regiões por combustíveis fósseis. Decidiu empurrar para o lado o apoio para perdas e danos e o financiamento para mitigação e adaptação para os países e comunidades na linha da frente da crise climática. Decidiu acolher acordos que nos colocam rumo a um aquecimento global de 2.4ºC – uma sentença de morte para milhões de pessoas. Isto são grandes decisões.

O problema central de todas as COPs é exposto sucintamente no texto final resultante das 2 semanas de negociações: o Pacto Climático de Glasgow diz-nos reparar na importância para alguns do conceito de “justiça climática”. Apenas “para alguns”. 

A crise climática não é um problema de amanhã, dos próximos 5 ou 10 anos: está aqui agora, e não é dissociável de direitos humanos ou de justiça social. 

Costumamos ouvir que todos somos um pouco responsáveis pela crise climática. Mas nem todos somos responsáveis. Nem todos somos responsáveis quando 100 empresas emitem 70% dos gases de efeito estufa; nem todos somos responsáveis quando quem menos contribuiu para o agravar da crise climática, é quem mais está a pagar pelas suas consequências.

Países do Norte Global, historicamente responsáveis pela crise climática, continuam a recusar-se a contribuir com o que quer que seja para a progressão da justiça. Não é possível resolver esta crise no mesmo sistema que a criou: um sistema imperialista, colonialista, capitalista. A crise climática é uma decisão política, e sabemos que a mudança de que precisamos não virá das instituições, mas sim do poder coletivo das pessoas. 

Durante 2 intensas semanas, ativistas de todo o mundo lutaram de mãos dadas nas ruas de Glasgow – as mesmas ruas que iam dar à Cimeira do Clima; Cimeira essa que foi um palco para o poder imperialista do Norte Global. Fomos centenas de milhares nas ruas, enchendo o ar de sentimentos de amor, solidariedade e coragem. Protestámos, cantámos e marchámos, juntamente com o movimento local por direitos laborais e com a população da cidade. 

Em simultâneo, aconteceram dias de aprendizagem, partilha, discussão e união: a Cimeira dos Povos (People’s Summit for Climate Justice) aconteceu entre os dias 7 e 10 de Novembro, e contou com sessões que abordaram tópicos desde feminismo indígena a aviação, passando por decrescimento, interseccionalidade, descolonização, redistribuição global, transição justa, ecossocialismo -, e a lista continua. São espaços como este que nos enriquecem e fortalecem – não só ao movimento social mas também a cada um de nós. 

A verdadeira liderança não está dentro da Cimeira; está nas ruas, está no movimento. Deixemos que os tambores e cânticos nos relembrem constantemente de que há um mundo para além destas conferências, e de que é nesse mundo que a verdadeira mudança acontecerá. O povo unido jamais será vencido. A luta continua, e juntos, venceremos.