COVID-19 e as suas metáforas

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Artigo de Francisca Bartilotti Matos


Lembro-me de sair de casa no primeiro dia de confinamento. As ruas estavam silenciosas. No ar, sentiam-se os olhares suspeitos de quem era forçado a estar em casa, enquanto que os outros na rua tentavam, indiretamente, provar que tinham o direito de estar no exterior. Estava a trabalhar como médica em doenças infeciosas e tinha assistido, com ansiedade, ao vírus viajando rapidamente, transformando-se de ameaça distante em realidade. A abordagem ao vírus foi-se adaptando à medida que o conhecíamos melhor. Em consultas pelo telefone, ouvia-se o medo nas vozes de quem ligava, também este mudando de alvo: desde aqueles preocupados com a refeição no restaurante chinês, aos trabalhadores que queriam saber se encomendas da Ásia poderiam transmitir o vírus, até ao pânico generalizado. Ver como as medidas de confinamento vieram e foram, para vir outra vez, foi uma lição sobre como somos maleáveis e como ameaças se transformam em resignação. Lembro-me do aplauso semanal pelo Serviço Nacional de Saúde – de como me comoveu ver o trabalho que fazíamos apreciado – do orgulho quase patriótico que senti.

Foi nesta altura que reli os ensaios da Susan Sontag, Illness as Metaphor (A Doença como Metáfora) e AIDS and its metaphors (A SIDA como metáfora). Décadas depois, estes ensaios ainda ressoam com uma claridade quase oracular. Como uma estrutura de análise que se adapta a cada nova doença – este ano, foi o COVID-19.

Curiosamente, as metáforas que usamos para descrever as maleitas do corpo, apesar de atualizadas a cada geração, são quase estáticas: doença como guerra, doença como castigo, doença como estrangeira, doença como o profano. Todas elas foram usadas ao longo do último ano servindo como forma de construção de narrativas e procura de significado. A forma como falamos de doença define a forma como a doença é vivida e, se não usadas com cuidado, metáforas podem ser nocivas.

Pensemos na doença como guerra. A metáfora de guerra dá-nos confiança, torna-nos poderosos. Temos orgulho na luta. A bandeira nacional que se levanta torna-se no Serviço Nacional de Saúde. Ilustrar a doença como uma guerra permite aos governos uma transição fácil para o estado e as medidas de emergência. Lutamos contra o coronavírus, protegemo-nos contra o coronavírus, profissionais de saúde são heróis sem capa. Estas são palavras que excitam e incitam.

Cuidado, no entanto, com a metáfora militar, que “não apenas fornece uma justificação persuasiva para o autoritarismo, como também aponta implicitamente para a necessidade da repressão violenta por parte do Estado.” (Sontag 2002, 94). Ao tratarmos a pandemia como guerra, órgãos de poder encontram justificação para abusos de poder. Durante o primeiro confinamento, no Reino Unido, surgiram várias histórias de abuso de força pela polícia, onde pessoas se queixavam de ser seguidas por drones oficiais. Um relatório da Rede Europeia Contra O Racismo revelou como os alvos da polícia se concentraram desproporcionalmente em minorias étnicas em países como a França. Durante o segundo confinamento, em Manchester, foram erigidas barreiras de metal em redor de campus universitários perante a surpresa dos estudantes.

Pensemos agora na doença como entidade estrangeira: tratar uma epidemia como algo que surgiu lá longe e de que o nosso país não tem culpa, tem sido lugar comum em muitas epidemias ao longo da história. Sontag mostra-nos como a distância é pequena entre imaginar doença e imaginar o estrangeiro; e como tratar a doença como um mal estrangeiro revela uma forma de pensar o outro como poluição. O COVID-19 foi descrito como o vírus chinês mesmo quando o seu estatuto de pandemia estava bem estabelecido. Esta metáfora justificou ataques racistas contra pessoas de ascendência asiática em muitos países.

A doença foi também usada como exemplo de castigo pelos erros da sociedade ocidental. O coronavírus aparece agora como ilustração dos males provocados pelo neoliberalismo: espalhado por voos transcontinentais, resultado da destruição ambiental, o COVID—19 é a globalização desenfreada. Contraditoriamente, a pandemia é explicada tanto como resultado do neoliberalismo como como resultado do comunismo chinês.

Claro que é tentador, também para a autora, encontrar no desastre justificações que tentem, a longo prazo, fazer-nos refletir no caminho que tece a humanidade. E também é incontestável o papel que a realidade socio-económica e as desigualdades sociais contribuem para a saúde populacional. Mas é preciso cautela com o tom e rapidez com que julgamentos são feitos. Demasiado apressadas, conclusões desta ordem têm maior potencial de dano. Para um doente com COVID-19 ou uma profissional de saúde, não é tranquilizador pensar na doença como um castigo para os erros da humanidade. Como Sontag explica “mesmo que (a doença) não seja entendida como um julgamento sobre a comunidade, a doença torna-se isso —retroativamente —, porquanto desencadeia uma inexorável derrocada da moral e dos costumes.”

O COVID-19 tem divido pessoas em linhas moralizadoras, muito para além do necessário para controlar a pandemia. De um lado estão aqueles em risco – os que tentamos proteger, os vulneráveis, os idosos, os imunocomprometidos. Do outro lado estão aqueles irresponsáveis, demasiado preocupados com a sua vida social para cumprirem o distanciamento necessário. À medida que as pessoas são classificadas como egoístas ou altruístas, boas ou más, responsáveis ou irresponsáveis, a sociedade encontra-se, novamente, dividida numa linha que atenua circunstâncias pessoais e as submete “ao bem comum”. Outros problemas de saúde são postos de parte, incluindo os riscos do isolamento para a saúde mental. Se alguém está ansioso, isolado, deprimido, a culpa e responsabilidade são dele/a e da sua necessidade de contacto social. Não apenas desistem de lutar, mas também não se sacrificam. Publicamente, são condenados. Não há desculpas, nem simpatia – fica em casa, salva vidas.

As divisões não se ficam por aqui: novos contra velhos, essenciais contra não essenciais. Os vizinhos são encorajados a reportar vizinhos faltosos às autoridades; as pessoas espiam-se umas às outras das suas janelas, orgulhosos se descobrirem aqueles que quebram as regras; as redes sociais inundam-se de apelos vazios a que se cumpram as regras.

Ao maximizar a importância da responsabilidade pessoal, os governos encontram maneira de minimizar a importância do seu papel. O governo inglês, na figura de Boris Johnson, tem falhado recorrentemente na resposta à pandemia – falta de material de proteção, atraso na generalização de testes, confinamentos tardios – fazendo constantemente campanhas publicitárias em que a culpa é do indivíduo. Culpabilizar o indivíduo tem, ainda, o dano colateral de induzir o medo do teste. Um resultado positivo pode ostracizar o indivíduo de quem lhe é próximo, não apenas pelo isolamento exigido, mas também porque é culpabilizado pela própria doença e pela de todos aqueles com quem contactou.

Como guerra, o COVID-19 tem sido total. Ilustrar o controlo da pandemia como guerra justifica violência e repressão de estado e alarga o fosso de discriminação de minorias. Faz com que as pessoas se vejam como soldados e vejam o outro como inimigo. Ilustrar a doença como o estrangeiro, ajuda a legitimar atitudes racistas. Procurar significado político na doença de forma apressada desvia a atenção da ação imediata para uma superioridade condescendente daqueles que sabiam que isto ia acontecer. Estabelecer uma cultura de moral à volta do COVID-19 isola e traz riscos para a saúde mental a mais vulneráveis, para além de criar uma barreira ao acesso a testes necessários para o controlo da pandemia. Devemos tentar afastar-nos de metáforas danosas que visam classificar-nos e comparar-nos aos nossos vizinhos. É à empatia e não à desconfiança que devemos dar ênfase. Os nossos vizinhos e não o vírus serão companhia para os anos que virão. Eles estarão lá, muito depois do vírus se ter ido embora.