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Entrevista a Ricardo Fuertes, Assessor do Vereador Manuel Grilo na CML


A pandemia tomou conta do mundo e alterou a nossa forma de vida, mesmo que temporariamente. Muitos estão em teletrabalho, outros estão a garantir funções essenciais. É este trabalho que tem feito Ricardo Fuertes, psicólogo, através do trabalho da Câmara Municipal de Lisboa junto da população em situação de sem abrigo.

Ricardo, tens muita experiência no trabalho com pessoas que usam drogas. Sabemos que a pandemia não suspendeu repentinamente o consumo de drogas. O que aconteceu a quem vive com dependências?

Algumas das pessoas já viviam numa situação muito precária e agora perderam fonte de rendimentos, formais ou informais, e habitação. Essa procura de alojamento está a ser muito visível nos novos centros criados pela CML.

Tem havido maior procura de respostas de substituição, nomeadamente metadona, o que é um sinal de maior dificuldade em manter consumos.

Podemos vir a assistir a mudanças nas substâncias utilizadas ou locais de consumo. Estas alterações podem provocar um aumento de overdoses ou outros problemas de saúde, e maior dificuldade em prestar ajuda. Começam a surgir estudos para sistematizar informação sobre o que está a acontecer. Mas neste momento o retrato da realidade não é ainda totalmente claro.

Tens trabalhado neste contexto, nos 4 centros de acolhimento que o pelouro dirigido pelo Bloco implementou. Os consumos são muito frequentes nesta população? Que tipo de consumos?

Os centros acolhem pessoas com perfis muito diferentes, em termos de idade, ou percurso de vida. Algumas pessoas já viviam em situação de sem abrigo, outras perderam agora habitação e emprego. A mesma variedade se aplica aos consumos. Há quem não consuma, outras consomem álcool, tabaco e/ou substâncias ilícitas. Desde logo quisemos que os centros fossem acolhedores para todos e todas, tendo em conta que neste contexto queremos que as pessoas não estejam na rua e reduzam o número de deslocações.

Por isso os centros tiveram de criar condições para pessoas LGBTI+, pessoas com mobilidade reduzida, casais, animais de companhia, entre outras situações. E o mesmo se aplica à questão dos consumos. Consumir álcool ou drogas não deve ser um impedimento à permanência nos centros porque não queremos deixar as pessoas sem opções.

Antes da pandemia, sabemos que existia já uma unidade móvel de consumo assistido, distribuição de metadona, troca de seringas e equipas de rua, e drug checking/apoio a consumidores em contexto de lazer. Podes nos explicar que tipo de respostas existiam e como se adaptaram para responder à pandemia?

No início todas as equipas criaram planos de contingência para poderem manter os serviços em funcionamento, reduzindo riscos para utentes e equipas. Conseguimos também entregar equipamentos de proteção individual, produtos de higiene e desinfeção e criámos algum material informativo. Logo a seguir divulgámos entre os parceiros e redes sociais os novos horários e restantes alterações, de forma a que todos estivessem a par do funcionamento da rede de serviços nesta área.

Depois, replicámos algumas destas respostas nos centros de emergência.

Estabelecemos um tratamento preventivo para grandes consumidores de álcool, trouxemos o programa de metadona para os centros, iniciámos distribuição de material de consumo (seringas e outro material), disponibilizámos o programa de consumo vigiado em dois dos espaços, e capacitámos todas as equipas para intervir com naloxona em caso de overdose por opiáceos. Estas intervenções só foram possíveis com parcerias com a Ares do Pinhal, Crescer, GAT e Médicos do Mundo, e porque contamos com o apoio do SICAD e da ARSLVT.

Estabelecemos também intervenções na área da Psiquiatria, rastreios de tuberculose e outros serviços de saúde.

A proximidade com estas pessoas deram-te alguma ideia sobre que tipo de novas respostas podem ser dadas, tanto do ponto de vista técnico como social?

A experiência COVID mostrou que é possível fazer intervenções de forma mais ágil e desburocratizada. A ser possível é de manter essa capacidade no futuro.

E quem está em casa, o que pode fazer?

No imediato os centros de emergência continuam a necessitar de donativos (roupa, roupa interior, alimentação não perecível, produtos de higiene). As associações precisam de mais apoios, necessidade que previsivelmente irá aumentar nos próximos meses. Seria útil conseguirmos dar condições às pessoas mais isoladas para comunicarem com as equipas que lhes prestam apoios (telemóveis).