Declaração de Angela Davis

No sábado, dia 5 de janeiro, fui surpreendida com a reversão da anterior decisão da Comissão Diretiva do Instituto para os Direitos Civis de Birmingham [no Alabama, Birmingham Civil Rights Institute (BCRI)] de me atribuir o Prémio dos Direitos Humanos Fred Shuttlesworth. Apesar de o BCRI se recusar a responder aos meus pedidos de esclarecimento para tal decisão, soube mais tarde que a questão era o meu empenho de longa data na solidariedade com a Palestina.

Isto pareceu-me especialmente infeliz, dado que a minha liberdade foi garantida e até a minha própria vida foi salva graças a um movimento alargado de solidariedade internacional.

Dediquei muito do meu próprio ativismo à solidariedade internacional e, mais especificamente, a ligar as lutas de outras partes do mundo às lutas sociais de base [“grassroots”] nos EUA contra a violência policial, o complexo industrial prisional e, de uma forma mais ampla, contra o racismo. A rescisão deste convite não foi, acima de tudo, um ataque contra mim, mas sim contra a ideia da indivisibilidade da justiça.

Eu apoio os presos políticos palestinianos da mesma forma que apoio os atuais presos políticos do País Basco ou da Catalunha, da Índia ou de outras partes do mundo. De facto, já exprimi a minha oposição às políticas e práticas do Estado de Israel, do mesmo modo que exprimi oposição ao apoio que os EUA têm dado à ocupação da Palestina por Israel e a outras políticas discriminatórias dos EUA. Através da minha experiência na Escola Secundária Elizabeth Irwin, em Nova Iorque, e na Universidade de Brandeis, nos finais dos anos 1950 e início dos 1960, e no tempo seguinte da minha pós-graduação em Frankfurt, aprendi a ser tão apaixonada na oposição ao antissemitismo como ao racismo. Foi nessa altura que também comecei a interessar-me pela causa palestiniana. Orgulho-me de, durante toda a minha vida, ter trabalhado de perto com organizações judaicas e com judeus sobre questões que diziam respeito a todas as comunidades. Em muitos aspetos, esse trabalho foi essencial para a minha conscientização sobre a importância de protestar contra a ocupação israelita da Palestina.

A viagem a Birmingham, onde nasci e cresci, para receber o Prémio Fred Shuttlesworth, ia ser para mim um ponto alto deste ano, tanto mais que conheci pessoalmente o reverendo Shuttlesworth, fui colega de escola da sua filha Patricia e a minha mãe, Sallye B. Davis, trabalhou incansavelmente no BCRI nos seus primeiros tempos. Além disso, a professora mais inspiradora que tive na catequese, Odessa Woolfolk, foi a força motriz para a criação desse instituto.

Apesar da lamentável decisão do BCRI, espero estar em Birmingham no início de fevereiro para um evento alternativo organizado por aqueles e aquelas que acreditam que, neste momento, o movimento pelos direitos civis tem de incluir uma discussão vigorosa sobre todas as injustiças que nos rodeiam.

Angela Y. Davis, 7 Janeiro 2019