Delcy Rodríguez, presidente do protectorado Venezuela?

Com Delcy Rodríguez à frente do governo, o que mudou na Venezuela desde que, no dia 3 de janeiro de 2026, Nicolás Maduro e sua mulher, a deputada Cília Flores, foram sequestrados e levados para uma cadeia de Nova York?

Aparentemente, não há grandes alterações. Os ministros são quase todos os mesmos, incluindo os dos postos-chave do Interior, Diosdado Cabello e da Defesa, Vladimir Padrino López. Delcy assumiu a Presidência da República seguindo os preceitos da Constituição. O seu irmão, Jorge Rodríguez, foi eleito para presidir a Assembleia Nacional. O regime, apesar de uma libertação de presos políticos controlada e limitada, continua extremamente repressivo, tendo já ocorrido pelo menos um caso em que um opositor político, Juan Pablo Guanipa, foi libertado da prisão e detido de novo 12 horas depois. A atividade das forças repressivas continua igual. As rédeas do poder continuam a ser levadas pelas mesmas mãos.

A oposição está paralisada, desde que perdeu o apoio de Donald Trump. Maria Corina Machado tem tentado novas aproximações à Casa Branca, mas sem grande sucesso. Por isso, mantém-se no exílio.

Então o que mudou? 

Mudou a relação deste mesmo governo com os Estados Unidos. E não foi pequena a mudança. 

A chantagem de Trump, o bloqueio naval e a operação de comandos que sequestrou, alegadamente sem baixas, o casal presidencial da Venezuela, deixando atrás de sim um rasto de mais de cem mortes, deram origem a um acordo inusitado: os Yankees não mexiam na composição do governo e nem marcavam eleições no país; mas Trump “tomava conta” do Petróleo venezuelano. Isto quer dizer que as petrolíferas dos EUA (e não só) passariam a ter acesso a todas as fases de produção e comercialização do petróleo venezuelano. Só que para isso era preciso mudar algumas leis.

Entra aqui em cena a eficácia da presidente interina Delcy Rodríguez. 

A maior transferência de riqueza e soberania 

No dia 29 de janeiro, ainda não se completara um mês do sequestro de Maduro, a Assembleia Nacional aprovou por unanimidade as alterações à Lei dos hidrocarbonetos, promovendo “a maior transferência de riqueza e soberania da história da Venezuela, executada sem debate público, sem consulta, sem sequer o tempo necessário para que o país compreendesse o que estava a perder”. As palavras são de Andrés Izarra, ex-ministro dos governos de Chávez e de Maduro, diante dos resultados.

Não foi essa, porém, a avaliação do governo de Delcy Rodríguez. Após a votação parlamentar, Delcy disse-se especialmente comovida:

“Nesta lei está a impressão digital do Comandante Chávez. Reafirma a soberania sobre os nossos recursos energéticos. Nesta lei está a visão de futuro do presidente Nicolás Maduro, porque há quem pense que fomos arranjar esta lei assim de repente. Não! Já tínhamos estudado esta lei junto com o presidente Maduro, desta maneira estamos a cumprir. E eu sinto-me emocionada de poder dizer daqui de Caracas, a sua terra natal, presidente Maduro, estamos cumprindo os nossos compromissos com a Primeira Combatente e estamos cumprindo os nossos compromissos com o Povo da Venezuela.”

Eis aqui o mais novo exemplo da novilíngua, em que uma pessoa diz uma coisa que quer dizer o seu oposto. Por exemplo: “liberdade é submissão”. Ou “lei do petróleo fará a felicidade do povo”, quando na verdade o que essa lei vai fazer é engordar o lucro das petrolíferas e dos seus acionistas. Inventada pelo escritor britânico George Orwell, no livro “1984”, certamente nunca pensou que a técnica da novilíngua seria tão usada em todo o mundo, como é hoje. 

Logo a seguir aos grandes elogios às reformas das leis do Petróleo, Delcy comunicou ter recebido, naquele dia, uma chamada de Trump e Rubio para lhe dizerem que a Venezuela está a dar  passos importantes na agenda que os dois países tinham estabelecido, após o 3 de janeiro.

É um facto que os elogios por parte do Chefe do Império têm-se mantido firmes mesmo quando lhe chega aos ouvidos, por exemplo, que Delcy teria dito que estava farta de receber ordens dos EUA. “Ela é uma pessoa estupenda”, disse Trump, “é alguém com quem trabalhamos muito bem.”

E a verdade é que o plano da Casa Branca para a Venezuela parece estar de vento em popa. No dia 1 de fevereiro, chegou a Caracas a encarregada de Negócios dos EUA com a Venezuela, para abrir a embaixada dos EUA na Venezuela, o que marca o fim das relações cortadas entre os dois países.

Faltam peças ao quebra-cabeças

Há, porém, um quebra-cabeças sobre o que se passou no dia 3 de janeiro que começa a ser montado mas que, por enquanto, é de conclusão impossível porque há peças que estão a faltar. Vejamos algumas. 

O que falhou redondamente na defesa venezuelana? Apenas a interferência de aviões que, em voo baixo, baralham e impedem as antiaéreas de funcionar. Houve realmente um cyberataque que, esse sim, teria sido o responsável por inutilizar as antiaéreas? 

Como foi possível que os comandos Delta conseguissem assassinar toda a guarda do presidente sem sofrer uma só baixa? Que armas foram usadas? Porque, mesmo sem as antiaéreas, as milícias do ministro Diosdado Cabello não apareceram junto ao palácio onde dormia o casal presidencial? Em vez disso, andaram a pavonear-se pela cidade sem se aproximar do ponto em que Maduro foi sequestrado.

Quando e quem dos Estados Unidos fez algum contacto com Delcy Rodriguez, com o seu irmão Jorge e com Diosdado Cabello? Estes ministros tinham alguma informação prévia sobre o ataque? Ou fizeram, em cima do acontecimento, um acordo abrangendo, em tão pouco tempo, a posse de Delcy na Presidência, mantendo o governo, e o controlo de Washington sobre o petróleo venezuelano? Confirma-se que enviados diversos contactaram os dois ministros e a então vice-presidente antes do sequestro? Delcy, Jorge e Diosdado tinham alguma informação sobre a operação militar?

Porque, se realmente sabiam o que ia acontecer, então entregaram a Trump a cabeça de Nicolás Maduro numa salva de prata.

Protetorado Venezuela?

Finalmente, há a questão também não resolvida: o que é o governo Delcy Rodriguez? Um governo nacionalista que tenta sobreviver diante de uma situação que lhe é muito desfavorável, dada a desproporcionalidade do poder bélico de cada lado? Um governo de um país que produzia 3 milhões de barris de petróleo por dia no início dos anos 2000, número que foi caindo, caindo, até chegar a menos de um milhão por dia, culpa de bloqueios diversos por parte dos EUA, mas também por  terem ficado para trás em termos tecnológicos? Um governo que mantinha cerca de 800 presos políticos e tem um aparelho repressivo reforçado?

Esta seria a primeira hipótese. A segunda é que se trata de um governo que abandonou as posturas nacionalistas e, diante das propostas de Trump que incluem a de continuarem a ser  ministros do mesmo governo, se aferramgoverno se aferram ao poder com unhas e dentes, sejam quais forem os custos. Mesmo que isso signifique entregar aos EUA a soberania sobre as maiores reservas de petróleo no mundo. O uso da novilíngua explica o seu discurso aparentemente esquizofrénico, que ataca verbalmente os EUA mas que acede docemente a qualquer pedido vindo de Washington.

Sintetizando: pela primeira hipótese, o atual governo seria um governo nacionalista derrotado, que se apega ao poder em decadência, mas que procura meios para sair do sufoco em que vive atualmente sem ter de rastejar.

Pela segunda hipótese, Delcy, Jorge e Diosdado e todos os outros aceitaram governar não mais um país soberano e independente, mas sim um protetorado dos Estados Unidos da América. Eles aceitaram o papel subalterno porque sabem que fora da esfera do poder ficarão desamparados e perderão muitos privilégios. Procuram ganhar tempo empurrando para a frente a realização de eleições.

Há um ditado que diz: “Se se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato”, então provavelmente é um pato.