Desconversar, filosofar e dançar as graças de boa música

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Artigo de Miguel Bordalo.


Querido diário:

Pediram-me mais uma vez para eu escrever sobre música. Na quantidade de coisas que fiz na minha vida para a qual sou absolutamente incapaz mas que me apetece fazer na mesma, esta deve situar-se… de zero a dez, (sendo zero, um absoluto incapaz e 10 uma pessoa minimamente preparada), num 4. Ainda que esteja no negativo na escala de fraude, sinto, na minha capacidade de pessoa sempre ligeiramente fora do lugar onde devia estar, que o devo fazer…

 

Portanto aqui vai querido diário, primeiro para ti e depois para as outras pessoas. Ouve diário… ou as pessoas… não sei em que nível estamos de personificação num diário, acho que nunca escrevi um, apesar das ameaças da minha mãe de o tornar público a mim mesmo para eu me envergonhar da pessoa que sempre fui, diz brincando, mas nós os dois sabemos que é verdade. Não vamos discutir questões familiares aqui querido diário. As coisas são como são.

 

Escrevia eu… Aqui vai diário e pessoas a minha análise musical da semana – ouçam Newen Afrobeat. A música que deixo aqui no link. Nâo sei como é que te safas desta diário. Sempre te imaginei como um caderno. Nâo sei como é que os cadernos abrem links, mas lá chegaremos um dia, se é que já não chegámos.

 

Como reflexão, deixo só aqui uma pequena história sobre gosto. Não. Nâo vou falar sobre o Chile ou sobre o Fela Kuti. Porquê? Porque a música é para ouvir, não é para analisar. Nem para avaliar, é para ouvir sim, e neste caso para dançar. Dançar sim, na escala de fraude estarei num 5, mas a mim ninguém me pergunta se eu quero escrever sobre dança… Rais parta.

 

Sobre a reflexão devo dizer que um dia destes num fim-de-semana passado com amigos, num já longo almoço, que era longo não pelo tempo que efectivamente estava sentado à mesa, mas pela quantidade de música merdosa que me fazia doer os ouvidos e insistia na sua absurda capacidade de repetidamente me surpreender a falta de qualquer apego pela qualidade musical que se seguia uma atrás da outra, atropelando-se em atrocidades bacocas e lugares feitos, as caixinhas musicais com que agora se fazem música, a repetição absurda de momentos enfadonhos disfarçados de ritmos animados, sempre os mesmos, saídos das caixinhas, plásticos e enjoativos (desculpa diário vou parar de adjectivar eu juro), dizia eu ou escrevia, comigo pode confundir-se, que as músicas não conseguiam colocar os meus ouvidos dormentes, insistiam em estar bem presentes na minha cabeça.

 

Acabei o meu almoço, o meu corpo levantou-se direito, a minha cabeça não acompanhou bem, e ficou assim de lado, a coluna estava mais à direita, a minha cabeça estava virada para a esquerda, em repulsa. Tinha uma churrasqueira para limpar, e a música passou para o momento da tarde, continuaria a passar durante a tarde, toda a tarde meu queridissimo diário, o rais parta da tarde inteira… do pop ao regatton, passando por um desses ritmos que assassinaram a noção da “multirritmia” africana, eu estava pouco preparado para mais uma sessão. Claramente ninguém se sentia afectada, nem uma pessoa. Mas eu tinha a solução. Uns auscultadores de cancelamento de barulho no meu quarto, e o jazz mais confuso e deprimente que eu conseguisse encontrar, para poder sentir alguma coisa que a música me fizesse sentir e não só o efeito que a música pode fazer sentir de uma forma superficial.

 

Ouvir boa música e ouvir música de merda pode ter efeitos parecidos, mas beber um vinho qualquer pode pôr-nos bêbados, o própósito de beber um bom vinho pode, no entanto, não ser “embebedar-nos”, aliás, pode resultar de uma música animada pôr gente a dançar, mas puta que pariu foda-se! Ouçam Newen Afrobeat sentados numa cadeira e se algo não estiver a mexer no vosso corpo passados uns segundos vocês não sentem nada. A sério pessoal! Não… desculpa. Entusiasmei-me… Não. A sério querido diário ouve:

 


Ouvi o meu jazz durante a tarde, e depois voltei ao social, um pouco mais consoladinho. Realmente relaxado, e tirando uma fuga ou outra para a casa de banho só para ouvir um pequeno solo do Kamasi Washington, 11 minutos de paz, disfarçados de uma complicada caganeira, acho que mesmo assim, consegui ser o animal social em que me reconheço, simpático, e divertido.

 

A hora do jantar foi, confesso, o meu último cabelo de paciência enterrado na areia movediça, com alguma gentileza pedi… podemos desligar a música um bocadinho? Ao que me responderam, animados, o que é que gostas de ouvir Jaaaaazzze? (com aquele sotaque posh) Podemos pôr isso. Pensei no meu telemóvel, quais seriam as soluções… e só a possibilidade de riscar alguém de uma lista de obrigatoriedade social, devido aos laços matrimoniais, só porque alguém iria protestar a música complicada que sairia do meu telemóvel, recusei. Queria só um pouco de silêncio. Nestas alturas nunca nos lembramos de Fela Kuti e dos seus mais que muitos sucessores. Se calhar aquele pessoal iria estranhar a falta daquele som computadorizado, ou daquelas letras de merda…

Querido diário queria só dizer que não me esquecerei de ter Newen Afrobeat no meu telemóvel, para poder animar pessoal, com música alegre, mas que puxa pelo entusiasmo de verdade, e não só nos embebeda porque tem álcool.

Seja como for, obrigado querido diário pelo desabafo. E acima de tudo… Acima de tudo dança porra!