Dia dx Estudante: encontra as diferenças

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Artigo de Mafalda Escada.

No dia 24 de março fez 56 anos que o fascismo proibiu o Dia do Estudante e que em Lisboa cantinas e faculdades foram ocupadas por estudantes. Atualmente, os sucessivos Dia do Estudante têm sido marcados por mais celebração do que reivindicação, com encontros entre figuras do Governo e dirigentes associativos e pouca movimentação nas ruas, apesar dos inúmeros problemas na educação.

Este ano, o Dia do Estudante foi diferente. Face ao extremar dos problemas tem-se juntado um crescente movimento de contestação e reivindicação. A nível do básico e do secundário, têm sido inúmeras as notícias de escolas com graves problemas materiais e falta de pessoal a que se seguiram protestos em Lisboa, Loures, Matosinhos, Braga e Golegã.

A nível do ensino superior houve seis ações de rua organizadas por estudantes em Lisboa, Évora, Porto, Braga, Coimbra e Açores. O Dia do Estudante foi marcado pelo afastamento do Governo da celebração, pela reivindicação e mais estudantes na rua – em Lisboa a participação foi o dobro de 2017 -, e pela radicalização, tendo tido o fim da propina especial destaque, em detrimento da “redução”, apesar de, mais uma vez, não ter havido grande mobilização por parte das Académicas, à exceção da de Coimbra que pôs cerca de mil estudantes na rua, um sinal importante.

A reposição de salários e direitos com a atual solução parlamentar não se tem feito sentir no ensino superior cuja política continua a excluir e a empurrar estudantes para o trabalho precário. Os custos associados à frequência do ensino superior foram, sem dúvida, o centro das reivindicações deste ano: fim da propina, custos de taxas e emolumentos, custos de habitação, mais e melhor ação social. São reivindicações que, de forma mais ou menos recuada, têm sido feitas, mas que ganham outro tom perante o desprezo do Governo que, somente após alerta da OCDE para a reduzida percentagem de jovens estudantes no país, começa a tomar medidas. Porém, medidas erradas que acertam ao lado dos problemas, maquilhagem que não enganou estudantes. Este Dia do Estudante provou isso mesmo. A mobilização da Académica de Coimbra e de movimentos estudantis emergentes são o reflexo da vontade e necessidade de organização estudantil, de espaços de reivindicação. Em Lisboa, a expressão cancela a propina marcou a manifestação pela mão desses movimentos e chegou à imprensa, passando por cima do pudor das académicas quanto à reivindicação clara do fim da propina.

Só através da mobilização estudantil é possível lançar um debate profundo sobre ensino superior, desconstruindo lugares comuns e evidenciando contradições do atual sistema, como a inevitabilidade da propina, e pressionar mais estruturas associativas a posicionarem-se, com ressonância também nos partidos à esquerda para maior capacidade de agendamento. É necessário que nos mexamos dentro e fora do partido, rejeitando visões sectárias do movimento estudantil e procurando trabalhar ativamente, numa perspetiva horizontal, com todas as pessoas que se mostram disponíveis a batalhar por um ensino mais justo, que não penalize famílias e estudantes com poucos rendimentos e, por isso, verdadeiramente democrático. Enquanto bloquistas temos como dever impulsionar estes movimentos, contrariando a sua institucionalização, acabar com chavões vazios e atualizar as reivindicações, procurando dotar-nos de argumentos sólidos e de pensamento estratégico que ultrapasse a mobilização pontual e que crie um discurso articulado com ação contínua e militante para que o próximo Dia do Estudante não seja um dia, mas o culminar dessa ação, com cada vez mais estudantes na rua.