Barcelona foi atingida por uma catástrofe. O artigo que segue analisa o que se passou e o que a crise revelou.
12 de julho de 2025. Era um sábado quente de julho em Barcelona, daqueles em que os turistas perambulam pelas ramblas em busca de uma terrassa ou de um museu com ar-condicionado. Na primeira hora da tarde, os telemóveis começam a emitir altos alarmes sonoros, com um alerta para toda a Catalunha de risco vermelho de tempestade e inundação por uma DANA[1]. Tarde adentro, uma pancada de chuva desabou sobre o centro de Barcelona. Foi rápida, mas suficiente para deixar encharcados os que chegavam à bilheteira do Museu Picasso — confusos entre as roupas molhadas e o céu azul. Mesmo com o sol já de volta, o museu decidiu fechar as portas. Os visitantes não entendiam por que precisavam sair.
A uns tantos quilómetros do Museu Picasso, no município de Cubelles (Barcelona), a última DANAprovocava o transbordamento do rio Foix, arrastando carros e cobrindo ruas inteiras de lama. No final da tarde, é noticiado o desaparecimento de duas pessoas. Na estação de BarcelonaSants, a suspensão total dos trens de Cercanías, Regionais, meia distância e alta velocidade — restabelecidos apenas após as 19h — gerava longas filas de pessoas à procura de informações.
Enquanto turistas discutiam reembolsos na bilheteira do Picasso, nas periferias de Barcelona trabalhadores informais arcavam com custos reais: enchentes, transportes interrompidos e para muitos um turno de trabalho – e de renda – perdido.
Este ensaio parte desse episódio para discutir as articulações entre emergência ambiental, turismo e imigração. A partir de eventos recentes em Barcelona, València e Múrcia, examinamos como as catástrofes ambientais afetam de maneira desigual diferentes grupos sociais; como o modelo econômico baseado no turismo de massas e na especulação imobiliária aprofunda a precarização das condições de trabalho e de moradia; e de que forma discursos reacionários se apropriam dessa precarização para promover agendas xenófobas e racistas.
A DANA em Barcelona reacendeu um trauma recente: a tragédia em València. Na manhã daquele outubro de 2024, enquanto a Agência Estatal de Meteorologia decretava zona vermelha em algumas comarcas do litoral valenciano, o presidente da Generalitat, Carlos Mazón, sorria para as câmeras ao receber um certificado de estratégia de sustentabilidade turística. Às 13h, antes de seguir para um almoço de três horas em um caro restaurante no centro histórico de València, afirmou em conferência de imprensa que o temporal deslocava-se para a Serranía de Cuenca e que, por volta das 18h, a situação perderia intensidade. Algumas empresas — entre elas centros comerciais, supermercados e plataformas de delivery — mantiveram os trabalhadores nos postos. À noite, chegou a conta: cerca de 222 mortos. Os alertas por SMS — como os que em Barcelona soaram às 14h30 — só chegaram aos telemóveis às 20h11, quando muitos trabalhadores já tentavam voltar para casa.
Pouco mais de um ano antes, Mazón — recém-eleito e em aliança com o Vox — desmantelava a recém-criada Unidad Valenciana de Emergencias, uma unidade de gestão e coordenação de respostas a emergências, justificando a decisão com ironia: tratava-se, disse, de mais um “chiringuito” — aqueles bares de praia que, segundo a retórica da direita, simbolizam o desperdício dos gastos públicos.
Quando a DANA passou, parte do turismo — considerado uma das principais “indústrias” de València — também se foi: ainda em 2025, a cidade perdeu 10 pontos percentuais na ocupação hoteleira por conta de alterações climáticas[2].
Esse é o mesmo modelo econômico — baseado no turismo de massa e na especulação imobiliária — que alimenta os “chiringuitos” à beira-mar e os hotéis de luxo, ao mesmo tempo em que pressiona a alta dos preços das casas. Segundo estudo recente, os trabalhadores do setor turístico em Barcelona enfrentam maior precariedade laboral: 9,2% contra 7,2% em média. Salários baixos, contratos temporários e descontinuidade no emprego estão correlacionados com uma maior probabilidade de migração dos trabalhadores desse setor do centro para as periferias. E entre os trabalhadores imigrantes, sobretudo os mais jovens, a pressão habitacional é enfrentada com a aceitação de condições residenciais cada vez mais precárias, em troca da proximidade ao trabalho. [3]
No último 15 de junho, cerca de 600 pessoas protestavam em Barcelona contra o turismo de massas. Entre as vozes, destacava-se a de uma camareira ligada à Kellys Unión Cataluña, coletivo de mulheres do setor da limpeza e hotelaria: “O turismo de massas nos afeta todos os dias. Há ritmos de trabalho insuportáveis. Quanto mais turismo, mais trabalho pelo mesmo salário. Estamos cada vez mais exploradas”, afirmou Pérez. [4]
Se há uma conexão estrutural entre turismo, exploração laboral e condições habitacionais precárias, há também uma cumplicidade discursiva entre movimentos xenófobos e setores do mercado imobiliário que se beneficiam dessa precarização. Nos últimos meses, a noção de “imigração” tem sido mobilizada como um significante vazio — um termo flutuante, capaz de condensar sentidos diversos e até contraditórios: medo da insegurança, da escassez de moradias, da perda de empregos, do colapso dos serviços públicos, da “descaracterização cultural”.
A imigração torna-se o rótulo unificador de uma cadeia de frustrações sociais que, embora não tenham origem direta nela, encontram aí um inimigo visível, próximo, identificável.
O resultado é que os vizinhos são divididos desde baixo. Aqueles que deveriam formar alianças em torno de reivindicações comuns — melhores salários, moradias dignas, combate à precarização — acabam sendo capturados por um discurso hegemônico que desloca o antagonismo real (com o capital turístico e especulativo) para um antagonismo fabricado com os imigrantes.
Após a divulgação do objetivo do governo espanhol de expulsar 8 milhões de imigrantes, o Deport Them Now EU – um movimento recente que surgiu em março ao apoiar uma concentração “contra a islamização” convocada em Terrassa, Barcelona, pelo partido Vox e que, dias depois, participou de uma manifestação convocada em conjunto com o mesmo partido pelo encerramento do centro de acolhimento de imigrantes no bairro barcelonês de Sant Gervasi – organizava perseguições a magrebíes em Torre Pacheco (Múrcia). Enquanto, meses antes, neonazis espanhóis agrediam uma pessoa em situação de sem-abrigo em Almería, outros utilizavam imagens dessa agressão para forjar o caso do idoso agredido por um “grupo de cinco imigrantes” em Torre Pacheco – o que a própria vítima declarou ser falso –, divulgando imagens do idoso em situação de sem-abrigo nas plataformas digitais para convocar novos ataques a imigrantes no município murciano.
O vídeo, divulgado pelo responsável de marketing digital do Vox, foi depois partilhado pelo dono da empresa miliciana Desokupa — que anunciava no X (antigo Twitter) que viajaria a Torre Pacheco para “ajudar os vizinhos” a organizar patrulhas cidadãs e fornecer sprays de autodefesa e outros “acessórios legais”, no que chamava de uma “manifestação sem convocantes”.
Os vizinhos não precisavam de ajuda e não havia, de facto, uma manifestação.
Essa estratégia discursiva — que desloca o conflito estrutural para um inimigo fabricado — é a base de sua eficácia. O significante “imigração”, esvaziado de qualquer conteúdo específico, torna-se um repositório de medos difusos e frustrações reais. É por isso que funciona: porque permite, com força afetiva, transformar precariedade em ressentimento, e deslocar a raiva do capital turístico/especulativo ou dos gestores públicos para os vizinhos com quem se compartilham os bairros, os empregos e os transportes.
Constituído como antagonismo, esse significante produz identidades políticas frágeis, mas potentes — capazes de sustentar alianças reacionárias: há um “nós” e há um “eles”.
Mas, como toda formação discursiva, essa também pode ser disputada. Se o antagonismo hoje hegemônico transforma vizinhos em inimigos e precarizados em culpados, é possível — e necessário — que outra articulação seja feita. Uma que aponte os verdadeiros responsáveis pelas emergências que atravessam as nossas cidades: não os que trabalham sob alertas vermelhos, mas os que almoçam em paz enquanto isso acontece.
Quando canta “El meu país és tan petit (…) Diuen que els poblets tenen por, tenen por de sentir-se sols, tenen por de ser massa grans. Tant se val!”, Lluís Llach nos lembra que, mesmo diante do medo e da divisão, o tamanho do nosso espaço — físico ou simbólico — não impede que tentemos ser maiores, a partir da união.
Notas
- O relato do Museu Picasso foi contado por um amigo que aí trabalha durante períodos de alta temporada, e a quem muito agradeço.
- Tradução livre da canção País Petit – Lluís Llach (1979): “Meu país é tão pequeno (…) Dizem que as vilas têm medo, Têm medo de se sentirem sós, Têm medo de serem grandes demais, Não importa!”.
- Referências: Laclau, E., & Mouffe, C. (1985/2015). Hegemonia e estratégia socialista: Por uma política democrática radical (J. A. Burity, J. de Paula Jr., & A. Amaral, Trads.). São Paulo: Intermeios; Brasília: CNPq.
[1]“Depresión Aislada en Niveles Altos”, também conhecida em português como “gota fria”.
[2]Disponível em: https://elpais.com/espana/comunidad-valenciana/2025-03-18/el-turismo-de-valencia-se-resiente-de-los-efectos-del-cambio-climatico.html
[3]Disponível em: https://smartdest.eu/
[4]Disponível em: https://elpais.com/espana/catalunya/2025-06-15/cerca-de-600-personas-se-manifiestan-por-barcelona-en-contra-del-turismo.html