Documento aprovado na VII Conferência da Rede Anticapitalista

I. As crispações imperialistas

  1. A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela marcou o início estrondoso de 2026. Com o objetivo declarado de facilitar a apropriação de recursos como as reservas de petróleo, a administração Trump violou a soberania e integridade territorial da Venezuela para raptar Nicolás Maduro e exigir subserviência ao governo que se manteve instalado. Antecederam-se a esta intervenção intervenções militares imperialistas na Nigéria, na Síria e no Iémen, tendo-se seguido ameaças do governo dos Estados Unidos à Gronelândia, México, Colômbia, Canadá e a Cuba. Em relação a esta última, Washington reforçou o bloqueio imposto há décadas, ameaçando com tarifas punitivas a quem forneça petróleo a Cuba, procurando assim asfixiar a economia e as condições de vida dos cidadãos cubanos para forçar a queda do governo. Após meses de escalada na retórica e nas ações, a administração Trump procura cumprir o que deixou explanado na mais recente Estratégia de Segurança Nacional: a pretensão de restaurar o domínio estadunidense no Hemisfério Ocidental face à crescente influência da China nesta região ao longo dos últimos anos. O imperialismo estadunidense, guiado por esta nova ‘Doutrina Donroe’, encontra-se agora à vista de todos. Conjugada com as pretensões russas, incluindo a invasão da Ucrânia ainda sem fim à vista, estamos perante o reforço e a reemergência de uma lógica imperialista de divisão do mundo por grandes potências que procuram assegurar a sua esfera de influência, de território e de recursos, recorrendo ao uso da força e ao atropelo da soberania nacional e da integridade territorial dos estados, pilares basilares do Direito Internacional.
  2. Como um boomerang imperial, os métodos de repressão utilizados e apoiados pelos Estados Unidos no exterior têm sido adotados domesticamente contra os seus próprios cidadãos no processo de fascistização em curso. Isto tem sido mais aparente na intensificação dos métodos e da violência adotada pelo ICE no país todo, e no estado do Minnesota em particular, e nas sucessivas manobras propagandísticas adoptadas pela administração para justificar os seus atos. Existem, no entanto, sinais claros de resistência e de alternativa. A resistência organizada contra o ICE aumenta e, a par do genocídio em Gaza, são matérias que pesam cada vez mais na preparação das eleições intercalares deste ano. De igual modo, a vitória de Mamdani mostra uma como é possível construir alternativas progressistas locais. A nível internacional, a sociedade civil organiza-se e sai às ruas, quer seja para manifestar a agressão à Venezuela e as ameaças à Gronelândia, ou agora para organizar uma nova flotilha em direção a Cuba para quebrar o bloqueio.
  3. Neste quadro, a incoerência e incapacidade de afirmação de Portugal, da União Europeia e de outros países do Norte Global intensificam-se.  As posições  de Portugal e da União Europeia, que incluíram não apenas conivência com a agressão militar dos Estados Unidos na Venezuela, mas mesmo a sua defesa como ação benigna, contrastam com a posição crítica e  assertiva tomada face às ameaças à Gronelândia. Esta seletividade em relação ao respeito pelo direito internacional não é algo novo, foi aliás claríssima com o genocídio em Gaza, e contínua a sê-lo com a legitimação do Conselho da Paz de Trump para a colonização da Palestina. O discurso do Primeiro-Ministro do Canadá em Davos, em que denunciou a ficção da ‘ordem internacional baseada em regras’ e apontou para a sua aplicação assimétrica, é não só revelador dos tempos em que vivemos, mas também da cumplicidade destes países com essa mesma ordem durante décadas.
  4. O reconhecimento da erosão do Direito Internacional e de que a ‘ordem internacional baseada em regras’ nunca o tenha de facto sido não significa, no entanto, que devamos abandonar a luta pela sua realização e pelas ideias e princípios que devem estruturar estas instituições. Pelo contrário, face ao presente quadro de escalada inter-imperialista e de construção de arranjos institucionais à revelia da ONU, urge um reforço do compromisso com o espírito inscrito na Carta das Nações Unidas, e de uma mobilização internacionalista, anticolonialista e anti-militarista contra a presente ameaça.

II. A crise do regime e o tempo das direitas

  • O ano de 2026 traz o risco de aceleração na viragem à direita, no país e na Europa. Aos dois terços que AD, IL e Chega somam já na Assembleia da República – que tornam o poder de governar e a própria revisão da Constituição independentes de acordos ao centro – junta-se a consolidação municipal das direitas, a continuação dos governos de direita nos Açores e na Madeira e uma possível segunda volta disputada entre a direita e a extrema-direita, com André Ventura a acentuar a disputa da liderança deste campo e a deslocação do debate público para uma agenda reacionária e retrógrada.
  • O governo da AD pôs em marcha uma política de choque, anunciando ataques nas mais variadas áreas — habitação, direitos laborais, ensino superior, escola pública, imigração, política fiscal — contando, em muitos casos, com o apoio do Chega e da IL. O Partido Socialista, por sua vez, segue uma política de compromisso, com a confirmação de uma colaboração submissa no debate e voto do Orçamento.
  • O ano de 2026 pode, portanto, ser o ano inaugural de uma transformação efetiva no regime.  A extrema-direita passa a ser um vetor do sistema e, assim, reconfigura-o.
  • A guerra, a xenofobia e o rentismo são os três principais elementos da mudança de regime. O consenso belicista, que arrasta inclusive setores da esquerda, captura recursos públicos e afunila, pelo medo, o espaço do debate democrático. A atual política de imigração, combustível eleitoral para a xenofobia da extrema-direita, leva à instauração de um modelo de subcidadania que pressiona todos os salários, com as condições de exploração de um quarto da população trabalhadora a contrastar com as benesses de livre circulação e borlas fiscais dadas a uma elite de estrangeiros ricos. Esta hostilização dos imigrantes é possível graças ao predomínio do racismo na cultura social, criado para a justificação da ocupação e exploração colonial, e é utilizada pela extrema-direita como forma de acentuar clivagens sociais. O ajuste de contas da direita na política de habitação — liberalização do alojamento local, fim do teto às rendas, facilitação dos despejos — visa, por sua vez, aumentar o regime de espoliação e extração por via da crise da habitação. Prevê-se que seja aprofundada com a anunciada revisão do regime do arrendamento e o discurso e a intensificação da criminalização da ocupação pelas classes populares sem alternativa habitacional.
  • A direita portuguesa quer abraçar esta transformação no regime e não esquece o seu projeto histórico. Além da entrega do SNS aos privados e de um previsível ataque à segurança social, travado em 2015 pelo acordo à esquerda, somar-se-á a tentativa da revisão constitucional. IL e Chega são pontas de lança num jogo que a AD prepara sem pressa.~

Tese 1: A transformação das relações de força sociais e eleitorais prepara o esvaziamento da estrutura institucional que resultou da queda da ditadura e dos compromissos constitucionais de 1976.

Tese 2: A degradação da relação de forças configura uma inédita situação política, com uma maioria da direita aliada à extrema-direita. 

Tese 3: A nova ordem constrói-se acentuando a exploração rentista, o racismo e xenofobia e o belicismo.

III. Três respostas à esquerda, os seus méritos e os seus erros

  1. O PCP responde à crise do regime com a posição defensiva da Constituição e com o fechamento sectário, traduzido na consigna do partido como “a verdadeira alternativa”. Este fechamento traduz-se, apesar da abertura para uma greve geral, no bloqueio a uma política de mobilização sindical consequente e na derrota da esquerda em algumas câmaras municipais, onde o PCP foi convidado a liderar coligações que derrotassem autarcas do Partido Socialista como Ricardo Leão, em Loures, ou Inês de Medeiros, em Almada. A sua invocação da defesa da Constituição como o programa da esquerda limita-se a procurar um escudo perante os avanços da direita, que foi eficaz no tempo da troika na defesa das pensões, como  continua a ser essencial na defesa de alguns direitos, como o direito de greve. Mas essa posição ignora o que a vida mostrou: na prática a Constituição não impede o regime de espoliação rentista na habitação e ou ausência de políticas públicas nos cuidados, e não impede a vertigem belicista. 
  2. O Livre responde à crise do regime com a política dos Verdes europeus. Apesar da abertura, mais instrumental do que de facto unitária,  para algumas alianças autárquicas e de alguns avanços na defesa de quem trabalha, o partido é guiado pela política do liberalismo europeu, que não se coíbe em defender os princípios base do capitalismo. Disso é exemplo a posição de apoio ao alarmismo belicista. Como noutros países, essa linha política é sedutora em tempos de recuo da esquerda, mas chega à conclusão de que defender este regime passa por criar uma barreira e obrigar a direita a não negociar com a extrema-direita. Em Portugal, a AD já negoceia com o Chega e a ideia de que a “direita democrática” permitirá à esquerda governar estando em minoria no parlamento é um erro e uma ilusão.
  3. No Bloco trabalhamos em conjunto sobre um outro tipo de resposta. No âmbito do debate convencional do Bloco algumas moções e contributos, que leram corretamente os sinais de alteração do regime, o que é um ponto de partida para uma reflexão sobre os novos tempos, apresentam contudo uma explicação controversa: a esquerda encontra-se numa posição defensiva porque se agarra às “fórmulas” do passado. Defender o SNS, os salários, o direito à habitação, os direitos laborais, o direito à creche, combater as alterações climáticas e as borlas fiscais aos mais ricos já não faz um programa por si só. Segundo estas opiniões, a esquerda só pode passar à ofensiva se adotar uma identidade que seja uma denúncia, explicando que o sistema está podre e as elites devem ser derrotadas pelo povo unido. Numa das versões, haveria um espaço “anti-sistema” cuja perceção seria disputada entre a extrema-direita e o Bloco. 
  4. Habitualmente, esta explicação é acompanhada de uma ilação: a esquerda deve abandonar qualquer diálogo com o Partido Socialista e acabar com uma sugerida “indefinição programática e estratégica” à esquerda em matéria de alianças. O problema é que esta explicação e esta ilação não fazem uma política. E convocam perguntas: o Bloco e o PCP não deviam ter assinado a Geringonça? Ou não deviam ter chumbado o Orçamento para 2022? A vitória de Moedas em Lisboa significa que a esquerda deve desistir de derrotar a direita no terreno autárquico? O Bloco fez mal em tentar uma coligação com o PCP em Loures para derrotar Ricardo Leão (PS)? Foi correto desfilarmos ao lado da direção do PS até ao Benformoso, contra o abuso policial sobre imigrantes? Foi correta a aposta (perdida) numa candidatura de convergência à Presidência da República, para tentar disputar a segunda volta? Quando o direito de greve for recortado numa revisão constitucional não faremos uma aliança o mais alargada possível para o defender? Essa aliança impede o Bloco de denunciar a posição de submissão do PS no Orçamento? Como a resposta a todas estas perguntas é a mesma por parte de (quase) todos os intervenientes, sobra apenas uma afirmação retórica que deve ser esclarecida. De facto, é preferível construir a nossa reflexão sobre respostas políticas que mobilizam uma ação da luta socialista do que sobre identidades proclamadas. 
  5. O exemplo dessa dificuldade é a nossa última campanha legislativa, que foi afirmativa em torno de duas propostas anti-sistema: taxar os ricos e reduzir as rendas. Não perdeu por não ter sido radical, pois foi. Nas condições do medo da direita, o seu impacto reduzido foi evidente no facto de o povo de esquerda não se ter mobilizado e ter-se virado para alternativas à nossa direita. Não basta apresentarmo-nos como anticapitalistas para que um espaço anti-sistema se conforme. A esquerda cria referências populares para resistir ao assalto e apresenta soluções que afrontam as relações de exploração.   
  6. Por isso, o problema do Bloco não é uma “indefinição de médio-longo prazo face ao PS”. Esse é um postulado armadilhado e pode conduzir ao erro de esperar que de uma definição abstrata resulte uma política. Não resulta. Não há “médio-longo prazo” com o PS. Só há contraposição e portanto políticas que se determinam por objetivos e pela ação para os atingir. Definem-se na relação de forças concreta. Quisemos acabar com o governo da troika em 2015, não aceitámos acompanhar António Costa no enterro do SNS, tentámos tirar Lisboa à direita e evitar a consolidação do seu poder na capital, quisemos impedir que o Chega atingisse postos de poder em câmaras, estávamos disponíveis para tentar derrotar Ricardo Leão em Loures, combatemos as câmaras do PCP comprometidas com a especulação turística e com política anti-imigrantes, e lutamos contra Manuel Pizarro no Porto, queremos a máxima unidade nas ruas contra o fascismo e o racismo. Como sempre, as políticas de alianças e de afirmação do Bloco são aplicadas em condições precisas – e existe no Bloco um alargado consenso sobre elas.


Tese 4: A resposta à aliança da direita e extrema-direita visa uma mudança de regime com perda dos direitos constitucionalizados e portanto exige iniciativas de larga aliança entre aqueles que recusam a ofensiva dessa revisão constitucional.

Tese 5: Essas alianças para defender todos os direitos constitucionalizados são fundamentais, mas politicamente defensivas e não traduzem uma política popular que permita uma nova disputa da relação de forças. 

Tese 6: A esquerda tem que ser portadora de uma proposta para a luta popular. Por exemplo: não nos limitamos a defender o SNS quando a revisão constitucional o quiser anular. Queremos uma aliança contra essa anulação sem deixarmos de propor um novo SNS e explicar o seu conteúdo.

Tese 7: Passar da resistência e da defensiva para o contra-ataque significa recusar associar a esquerda ao Estado que oprime, discrimina e organiza a exploração. Assim, lutar por serviços públicos e pelo bem comum exige movimento social e proposta que demonstre como devem ser estruturadas essas funções para servir o povo.

IV. O ataque laboral e as eleições presidenciais

  1. As presidenciais de Janeiro de 2026, embora com características que marcam diferença face ao período anterior, confirmam algumas tendências na política portuguesa. A proliferação das ideias e o alargamento do espaço de influência política da direita, tendo alguns candidatos, como é o caso de João Cotrim, conquistado fortes simpatias, especialmente entre os mais jovens, são uma confirmação da normalização ideológica da direita. Na segunda volta, as iniciais declarações de incapacidade de escolher entre apoiar André Ventura e António José Seguro tanto do primeiro-ministro Luís Montenegro, como de Cotrim e até de Marques Mendes (que acabaria a declarar apoio ao candidato democrático), evidenciam a acomodação do espaço da direita tradicional com a extrema-direita. André Ventura, na segunda volta embora com resultados parcos, sai com mais força para se constituir como líder da direita portuguesa, mobilizando e procurando generalizar um sentimento  “anti-socialista”.
  2. À esquerda do Partido Socialista mantém-se a dificuldade em expressar a viabilidade eleitoral. Os candidatos, Catarina Martins, Jorge Pinto e António Filipe não conseguiram, em conjunto, mais de 5%. O voto útil em António José Seguro pressionou também o eleitorado tradicional da esquerda, por ser o candidato mais bem colocado para vencer a extrema-direita nas urnas e impedir uma segunda volta entre João Cotrim e André Ventura.
  3. A candidatura de Catarina Martins foi, apesar do resultado, um orgulho para o Bloco de Esquerda. Reconectou anteriores eleitores afastados com o partido e procurou apresentar uma ideia alternativa para o país face ao cerco mediático e à agressividade contra a esquerda. Mas também fica evidente a necessidade de uma reorganização do espaço eleitoral da esquerda do PS que promova o seu alargamento, enraizamento e a capacidade de disputa do descontentamento social que cresce galopantemente.
  4. A vitória de António José Seguro é expressiva, é acompanhada de uma derrota do governo, cria dificuldades a alguns dos seus projetos (veremos o que acontece com o pacote laboral) e adia o crescimento da extrema-direita, não combatendo, contudo, as condições que, no plano económico e social, são terreno fértil para o descontentamento de que a extrema-direita se alimenta. O voto em Seguro foi um voto convictamente defensivo, de conservação do regime democrático contra a ameaça fascista. Não tem, não teve, nunca criou a expectativa de ter qualquer alcance de transformação, nem era o seu propósito. Um problema que se coloca é o de saber até que ponto a esquerda conseguirá combater que se imponha em franjas maioritárias do eleitorado tradicional da esquerda a narrativa de que qualquer alternativa ou até qualquer representação da esquerda só é possível através do voto no partido socialista, o mesmo que assumiu e tem assumido posições neoliberais em várias matérias económicas e sociais.
  5. A greve geral em resposta à proposta laboral do governo mostra que há uma grande capacidade de mobilização e que, face à debilidade da esquerda noutros setores, essa mobilização pode ter um papel fundamental na decisão pública. A greve teve expressão pelos milhões de trabalhadores e trabalhadoras que a fizeram, mas mais ainda porque a sua força política, superior ao número de grevistas, exprime uma recusa maioritária de uma degradação ainda maior das relações laborais do que já se vive neste momento, isolando a direita sobre a defesa do direito dos patrões à exploração.
  6. O Bloco de Esquerda tem uma limitada capacidade de mobilização no campo do mundo do trabalho organizado, mas deve empenhar-se em desempenhar um papel forte e empenhado no derrube do pacote laboral que combine a dimensão parlamentar, a mobilização popular e de opinião. É dessa combinação que poderão nascer sementes para a construção de organização duradoura, ativa e confiante numa democracia que responda às aspirações populares.

V. Então, e o povo?

  • Não nos satisfaz a tese simplista do ressentimento, que se limita a atribuir à degradação das condições materiais as razões da adesão eleitoral das classes populares à extrema-direita, o que conduz a uma conclusão mecânica e insuficiente: bastaria repor os níveis materiais para esvaziar a política do ódio. Não basta: a política de ódio emerge de raízes profundas no racismo e na cultura liberal sobre o enriquecimento individual e a exclusão dos outros. A esquerda só vencerá se abrir caminhos, criar um povo e mobilizar um campo mais largo do que a sua atual expressão eleitoral e institucional. O nosso horizonte é essa resposta que organiza as lutas e que disputa o poder.
  • A crítica anticapitalista e um programa socialista que mobilize são uma necessidade. Neste novo regime, a esquerda só disputará o poder se juntar forças contra a barbárie capitalista. E por isso, sim, a esquerda é um discurso que orienta uma ação e, no caminho, cria uma referência. Defende o bem comum e os serviços comuns eficientes para a saúde e educação, propõe nacionalizações da energia e setores estratégicos, protege as pensões e exige a taxação dos mais ricos, recusa a celebração do 25 de Novembro e exige a promoção da cultura, está ao lado dos povos contra os imperialismos e quer o fim da precariedade, luta pelo direito à habitação, não capitula na proteção aos imigrantes, transmite a memória das revoluções e atualiza  o pensamento socialista.
  • Também não pactuamos com uma leitura errada que afirma que, para crescer, a esquerda deve abandonar a agenda dos direitos das mulheres, dos migrantes e da comunidade LGBT. A luta da classe trabalhadora é a luta pela emancipação da humanidade, afirmava Marx. Porque fazem parte desse projeto, os e as nossas militantes estão presentes em cada uma destas lutas e nelas procuraram criar culturas emancipatórias.  
  • Contra a guerra, a xenofobia e o rentismo, o Bloco de Esquerda apresenta as suas propostas e propõe um rumo de resistência e superação. Não aceita o medo dos tambores da guerra, em Gaza ou na Ucrânia, e fez-se ao mar, participando na Flotilha da Liberdade, não se submetendo a uma visão campista dos imperialismos.

Tese 8: A direita aponta os imigrantes como responsáveis pelas dificuldades da vida, o Bloco aponta os milionários e o capitalismo, assim como os Estados liberais que os defendem, como causa das dificuldades da vida. A nossa política é para a luta de uma classe e por isso concretiza-se em propostas anticapitalistas que são imediatas para a vida das pessoas e numa visão da sociedade com igualdade.

Tese 9: Perante o ascenso do fascismo, impulsionado pelo trumpismo e pela sua coligação, afirmamos o internacionalismo e o antimilitarismo como pilares da nossa política.

VI. Organização partidária

  • O debate convencional do Bloco de Esquerda ocorre num período de grandes dificuldades à esquerda. A Moção A identifica, corretamente, a exigência de “um compromisso real com a tarefa do enraizamento local e social, no combate à marginalização da esquerda”, assumindo erros e insuficiências de direção nos últimos anos. A questão da linha política do modelo de organização iniciou assim um processo de aprofundamento que irá para além da Convenção. Outras moções e contributos identificam duas ordens de problemas: 1) existe, e deve terminar, o excesso de centralismo na direção executiva; 2) a direção deve ser renovada.
  • A crítica ao centralismo excessivo do Bloco é justa. Ela completa o balanço crítico apresentado no texto da Moção A. Deve assumir-se o esforço político do envolvimento militante nas decisões coletivas: o Bloco não deve abdicar do tempo menos imediato da participação e do envolvimento em função da luta política mediatizada. Ainda neste capítulo, é criticada a secundarização da MN e da CP face ao Secretariado na estrutura de direção partidária. Essa crítica é justa, mesmo que desvalorize injustamente debates relevantes que a Mesa Nacional fez e que servem de exemplo para pensarmos o papel do órgão máximo entre Convenções — as resoluções da Mesa sobre a situação internacional, por exemplo, resultaram de polémicas ricas e constituem textos de referência. É verdade que a Mesa Nacional teve debates agrestes e que degradaram a sua capacidade política. Mas os membros da Mesa sabem que isso se deveu, acima de tudo, à atuação sistemática do grupo Convergência, em particular desde a Convenção de 2023. Esse grupo bloqueou partes do partido (como a distrital de Santarém) e usou a presença nos órgãos nacionais para prejudicar publicamente o Bloco, enquanto preparava a sua saída do partido. O modo planeado dessa saída, calendarizada para maximizar danos e hoje parcialmente consumada, explica também o esvaziamento da Comissão Política — este sim, bem real, por falta de condições mínimas para debate transparente. Contudo, nem depois da saída dos membros da Convergência, a CP passou a funcionar de modo adequado. Ambos os órgãos devem agora  cumprir o seu o mandato na condução política e organizativa com o preenchimento dos seus espaços de discussão, decisão e ação política, impulsionando  o envolvimento de toda a base do partido.
  • A renovação da direção deve ser um processo permanente, conduzido por critérios políticos e de compromisso de orientação. Uma proposta de direção conjuga preparação individual e experiências militantes que convergem numa leitura partilhada da natureza do partido e do seu rumo estratégico. Mas na constituição de uma equipa dirigente, não se aplicando painéis sociológicos por quotas, deve-se evitar outras distorções. Algumas foram reais: desde 2015, o Bloco não assegurou a diversidade necessária nos seus órgãos executivos e, com o aumento do número de eleitos na Assembleia da República, a Comissão Política tornou-se quase integralmente composta por camaradas a tempo inteiro em funções políticas/parlamentares, quando devia ter existido um equilíbrio maior entre dirigentes com quotidianos fora do trabalho político profissional e outros  dedicados exclusivamente a esse trabalho. Esse facto contribuiu, certamente, para que aspetos de organização partidária, setorial, social e temática tivessem tido deficiente atenção por parte da direção executiva. A Moção A deve ter em conta estes elementos, evitando a excessiva concentração da decisão em pessoas com o mesmo percurso militante. É essencial a promoção de uma estrutura do partido que esteja organizado de forma permanente, menos vulnerável ao mediatismo e imediatismo, à concentração no parlamento e à proximidade individual à estrutura quotidiana de forma a promover o enraizamento e intervenção. A futura direção tem essa responsabilidade essencial de promover um partido vivo, interventivo e coletivo, assim como reformular a abertura e dinâmica entre as estruturas de direção e a base do partido.
  • O Bloco precisa reforçar estruturas de base que sirvam para discussões mais politizadas, que assumam responsabilidades, que sirvam como espaços de integração e formação e que potenciem o enraizamento social. Sobre esse ponto há também consenso entre o texto da Moção A, outras moções e muitas outras sensibilidades dentro do Bloco.  O desafio é conjugar luta política e construção do partido num modelo territorial. Todos os dirigentes, eleitos nacionais, regionais e locais do Bloco de Esquerda que ainda não o fazem devem participar ativamente e propositivamente no seu núcleo ou estrutura local. Todos os aderentes devem ser chamados a participar ativamente nos processos de discussão política. 
  • Essa reorganização passa por devolver poder aos militantes e promover uma efetiva estrutura de decisão do partido que seja plural, tenha no território a sua bússola e potencie a emancipação de quem se envolve no Bloco, para lá da já proclamada necessidade de descentralização. Para além da intervenção em grupos de ação ou núcleo de base com objetivos concretos e em que os militantes devem ser integrados, capazes de articular o trabalho político local e setorial, é importante combater ativamente a tendência de reduzir a militância ao trabalho rotineiro e acrítico a nível local e nacional, valorizando antes o compromisso militante crítico dentro dos espaços de discussão do partido, o contacto direto e interventivo com a população e em espaços associativos, através do trabalho de base, da formação política e da ação porta-a-porta. Para coordenar e dinamizar estas iniciativas, o partido deve investir na criação e formação de quadros intermédios, com capacidade para integrar, apoiar, alargar e capacitar a estrutura militante privilegiando sempre os espaços do Bloco. É também a partir desta intervenção coletiva e unitária que se torna possível combater o sectarismo interno e reforçar a coesão política e organizativa.
  • A intervenção dos militantes do Bloco de Esquerda no movimento associativo, sindical e social deve ser assumida com consistência  e responsabilidade. É fundamental combater a ideia do ativismo “zapping”, aquele que passa de movimento em movimento sem enraizamento ou continuidade, pois essa postura gera desconfiança e fragiliza as relações nesses espaços, assim como não fomenta o compromisso militante. A partilha de experiências e das formas de organização decorrentes dessa intervenção devem refletir-se dentro do partido, contribuindo para o seu fortalecimento político e social. É igualmente necessário criar condições que promovam o debate, a formação e a militância, a partir das aprendizagens e vivências concretas desses contextos. Uma análise crítica e consequente do espaço de refluxo social da esquerda deve vir acompanhada de uma síntese das propostas dos militantes sociais, sendo ou não do Bloco, para a reconstrução de uma mobilização social, garantindo o apoio e articulação essencial nos tempos que se avizinham e que convocam já os diferentes movimentos, como se evidencia na alteração à legislação laboral. Vivemos momentos de reorganização, e com a constatação de que a crítica ao fechamento sindical do PCP não explica a pouca presença no mundo laboral do Bloco, é essencial analisar erros e contribuir para a construção dessa capacidade do partido, social e do movimento dos trabalhadores em si, especialmente em setores abandonados pelas forças políticas, como os trabalhadores de IT e os trabalhadores independentes mas também a grande massa de trabalhadores da construção, restauração, turismo, agricultura intensiva, cuidados. Há insuficiências no trabalho do Bloco que não devemos exteriorizar e de que não nos podemos desresponsabilizar, isso implica encará-las e delinear planos para as ultrapassar.

Tese 11: A vida democrática no Bloco depende de os e as militantes participarem em organismos de base em que possam não só discutir e decidir a ação no seu âmbito específico, como também ter informação e pronunciar-se sobre a política do partido. Sem organismos com essa regularidade, autonomia e participação, a democracia no Bloco restringe-se às convenções nacionais.

Tese 12: O fortalecimento da participação deve respeitar múltiplas formas de organização: territorial e de trabalho local onde houver massa crítica suficiente, assembleias e comissões concelhias, núcleos de escolas e empresas, formas de agrupamento em campanhas permanentes, estruturas temáticas. Conduzirão atividade em nome do Bloco e participarão em frentes unitárias e outras formas políticas. Mas o que decide a sua vida política é a criação de coletivos de trabalho militante, de comunidades de reflexão e ação.

VII. A Rede após a Convenção

  • Na preparação da última Convenção, os membros da Rede privilegiaram os espaços próprios da moção A, evitando quaisquer processos paralelos. Fazemos um balanço positivo dessa opção, que contribuiu para uma dinâmica própria no espaço da moção A, no seu grupo promotor e no plenário nacional realizado. É no seio da moção A que deve ser dinamizada a preparação das propostas de orientação e de direção. Esta será a postura da Rede em futuros processos internos de escolha de direções nacionais, sectoriais, distritais ou locais.
  • A direção do Bloco, por sugestão do coordenador, lançou um processo de reuniões com todos os organismos do Bloco e tem promovido a discussão, primeiro ao nível da Comissão Política, para depois ser generalizado ao partido, de relatórios temáticos sobre diferentes movimentos sociais / frentes de intervenção: sobre movimento anti-racista; LGBTQIA+; estudantil; sindical/ laboral; de imigrantes; pela habitação; de professores; feminista; climático. A ideia é cada discussão incluir um balanço do movimento, uma análise dos principais confrontos, vitórias / derrotas, das condições internas dos movimentos, e fazer também um balanço da intervenção do Bloco em cada setor ou frente de intervenção social, perspetivando a nossa intervenção futura. É a primeira vez que este debate é feito de forma sistemática sobre todas estas frentes e com maior profundidade. Trata-se de uma ambição que há muito a Rede alimenta de que possamos conceber o Bloco não apenas como uma plataforma de intervenção institucional ou megafone de causas, mas como espaço de organização de militantes sociais e políticos para o conflito social através dos movimentos e mobilizações. Este foi sempre um objetivo que afirmámos e uma das razões para a própria constituição da Rede, espelhado no seu manifesto fundador. Procuraremos contribuir e mobilizar para esse desenvolvimento, envolvendo todo o Bloco nos objetivos de construção de uma intervenção queer anticapitalista, ou de ampliação do movimento pela habitação, ou de criação de um movimento climático não sectário e capaz de ter abrangência popular, ou de abrir novas formas mais democráticas de organização sindical, ou de enraizar o movimento anti-racista nos bairros, ou de um feminismo anticapitalista e que inclua as questões da reprodução social e dos cuidados.
  • A Rede deve ser motor da máxima democracia nos processos do Bloco a todos os níveis, lutar para que sejam abertos, amplos, horizontais, participados, centrados na política e na síntese e unidade programática. Numa altura de refluxo da esquerda, a Rede encontra no enraizamento e no trabalho de base o futuro de uma esquerda anticapitalista, popular e democrática.
  • No próximo período, a Revista Anticapitalista deverá ganhar mais centralidade, garantindo que a cada número corresponde um debate presencial ou por zoom, criando a partir destes momentos e em torno da revista uma cultura de referência e um espaço de reflexão política que contribua para os debates estratégicos da esquerda e para a consolidação do nosso campo político anticapitalista ao nível das ideias e da elaboração política, estratégica e programática, incluindo os debates que atravessam a esquerda mundial.
  • A conferência debaterá o papel da Rede para além do debate ideológico em torno da revista, tendo em vista a nova fase do Bloco de Esquerda.