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Artigo de Melina Sofia.


Trabalhas constantemente para os outros, e eles lucram com o teu trabalho, mas eu é que sou chulada.

O lucro que os outros fazem com o teu trabalho alimenta a máquina capitalista, mas eu é que sou a porca capitalista.

Continuas a adiar os teus sonhos porque não tens energia para mais nada, mas eu é que sou pouco ambiciosa.

Continuas a perseguir a beleza normativa e socialmente aceitável nas tuas relações e ficas enojada com o facto de eu ter sexo com pessoas com diferentes tipos de corpos, mais velhas, “pouco atraentes”, mas eu é que sou superficial.

Precisas de cumprir um código de indumentária para ires trabalhar e seres respeitada, mas eu é que sou constantemente objetificada.

Fazes sexo para manteres o teu casamento, teres filhos/filhas, garantires o teu estatuto, manteres um clima de paz familiar, mas eu é que não entendo o que é o consentimento.

O teu trabalho não é criminalizado e não podes ser presa por o desempenhares, mas eu é que tenho um trabalho fácil.

O teu trabalho das 9 às 5 rouba-te o tempo para estares com os teus filhos/filhas, mas eu é que sou a má mãe.

És intimidada todos os dias no trabalho, mas eu é que tenho baixa autoestima.

No teu trabalho não discutes as tuas limitações, as coisas que queres ou não queres fazer ou quanto cobrarias para fazer algo que não te agrada, mas eu é que não conheço os limites.

Continuas a ter pessoas a dizerem-te o que fazer com o teu tempo, quando tens férias ou folgas, mas eu é que não tenho iniciativa.

Consomes álcool e fumas drogas em quantidades absurdas para teres energia, mas eu é que sou a dependente de drogas.

Vais para a cama com pessoas que acabaste de conhecer, mas eu é que me meto em situações perigosas.

Trabalhas para teres o que comer e para sustentar outras e outros, para pagar os teus vícios, para sobreviveres, mas eu é que sou a vítima.

Resumes-me aos meus genitais, mas eu é que sou a má feminista.

Vendes todo o teu precioso tempo e criatividade a uma empresa, a um patrão, a pessoas que detestas, mas eu é que sou a puta.

Como trabalho que faz parte do tecido social em que nos inserimos, o trabalho sexual beneficia mais pessoas brancas e cis, mas, mesmo assim, abarca pessoas de todos os tipos sociais, culturas, formação, diversidade funcional, neuro-diversidade, género e classe, mas tu achas que é um trabalho de merda e degradante.

O trabalho sexual é o único trabalho que algumas pessoas podem fazer, mas tu achas bem criminalizar pessoas que já são marginalizadas e tirar-lhe o seu ganha-pão e as suas formas de sobrevivência.

O trabalho sexual está longe de ser perfeito, exatamente porque é um trabalho! As pessoas precisam mesmo de parar de pensar que o trabalho sexual é um mal e que as suas vidas de exploradas noutro lado qualquer são perfeitas.

Podemos começar a ter conversas mais sérias e significativas? Conversas sobre, por exemplo, como destruir o capitalismo e termos todas e todos vidas mais plenas?